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10/12/2008

Programa do caça F-22 é um problema para Obama

The New York Times
Christopher Drew
Duas das metas declaradas do presidente eleito Barack Obama - cortar os gastos desnecessários e manter ou criar milhões de empregos - estão em rota de colisão com uma decisão iminente quanto a dar ou não continuidade ao projeto de construção do avião de caça F-22.
Oficiais da Força Aérea dos Estados Unidos têm dito ao Congresso que esperam assegurar um compromisso no valor de US$ 9 bilhões no sentido de produzir pelo menos 60 caças F-22 em um período de três anos, o que faria com que a quantidade dessas aeronaves em operação subisse para 243.

Mas o F-22, um caça supersônico "stealth" (tecnologia que procura tornar a aeronave indetectável, ou "invisível", ao radar e outras freqüências, incluindo às correspondentes à visão, à audição e à radiação infravermelha) que foi projetado durante a Guerra Fria e que nunca foi utilizado em combate, é criticado por muita gente, incluindo Robert M. Gates, que continuará sendo o secretário da Defesa durante o governo Obama. Gates questionou a relevância do F-22, afirmando que as forças armadas deveriam concentrar mais os seus recursos no combate a insurgências como aquelas do Iraque e do Afeganistão.

Enquanto isso, os defensores do programa do F-22 - que até o momento custou mais de US$ 65 bilhões - argumentam que Obama deveria ampliar a produção da aeronave, pelo menos temporariamente, a fim de preservar milhares de empregos vinculados à construção do caça, que custa US$ 143 milhões a unidade.

"Dar continuidade à produção do F-22 significaria continuar com todos os problemas que enfrentamos nos últimos 30 anos, já que cada novo sistema de armamento custa tanto que acabamos contando com uma quantidade cada vez menor de aviões, navios e tanques", afirma Winslow T. Wheeler, analista do Centro de Informações de Defesa, um grupo sem fins lucrativos de Washington.

"Este é o primeiro teste para determinar se o presidente Obama dará continuidade às atuais políticas ou se, em vez disso, promoverá mudanças bastante necessárias no Pentágono", acrescenta Wheeler.
Especialistas em defesa afirmam que a decisão de Obama, que deverá ser tomada no início do ano que vem, poderá ser o primeiro fator a indicar se a crise econômica forçará ou não as forças armadas a fazer escolhas difíceis quanto aos tipos de guerras que estarão preparadas para travar.

Até o momento, Obama tem sido vago quanto aos seus planos na área de defesa, afirmando apenas que não pretende reduzir os gastos recordes no setor enquanto a nação estiver em guerra, e que reavaliará os principais programas de armamentos com o Pentágono e os líderes do Congresso.

Mas quase todo mundo espera que os gastos no setor militar sofram uma retração com o tempo, e que os militares não terão mais dinheiro suficiente para prepararem-se para todas as contingências.

Como resultado, a equipe de transição de Obama já está sendo alvo de um lobby das forças armadas, que procuram preservar os seus estimados programas, desde os planos do exército para a criação de avançados equipamentos de combate até o sistema de defesa anti-mísseis instalado no solo.

O programa do caça F-22, que o governo Bush desejava encerrar, só poderá sobreviver se alguma outra coisa for cortada do orçamento do Pentágono. Isso significa que a decisão do governo Obama indicará até que ponto ele será rigoroso na hora de equilibrar pressões concorrentes.

Sem mais investimento no F-22, as companhias que fornecem componentes críticos para a aeronave fecharão as suas portas em breve.
As lideranças republicanas nos subcomitês de verbas para a defesa na Câmara e no Senado escreveram recentemente a Gates para manifestar apoio ao F-22, advertindo: "A última coisa da qual a nossa nação necessita é cortar empregos neste momento de tamanha incerteza econômica".

Assim como diversos grandes sistemas bélicos, o avião, que depende de fornecedores de 1.000 peças localizados em 44 Estados, conta com forte apoio no Congresso, que recentemente forneceu US$ 140 milhões em financiamento para alguns dos fornecedores.

"Creio que manteremos o projeto do F-22 funcionando, isto é o que me diz o meu instinto", afirma Norman Dicks, um democrata de Washington que faz parte do subcomitê do Congresso encarregado de aprovar verbas para os programas de defesa.

"Mas será um ambiente marcado por um orçamento muito apertado", frisa Dicks. "Ainda precisamos da verba mensal de US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões que estamos gastando na guerra, temos que substituir as tropas e o equipamento usado, e ainda é necessário modernizar a força aérea, o exército e a marinha. E muita gente avaliará a possibilidade de que o cancelamento desses programas resulte em uma maior deterioração da economia".

O avião contava com um apoio bem maior na década de 1980, quando a força aérea pretendia adquirir até 750 unidades para dominar os combates contra jatos soviéticos.

O F-22 é capaz de desempenhar operações táticas em altitudes mais elevadas do que outros caças, e pode voar a velocidades supersônicas sem usar o denunciador recurso de afterburner (pós-combustão). Com o seu revestimento "invisível", que dispersa os sinais de detecção por radar, ele pode também penetrar sorrateiramente em território hostil e destruir as defesas inimigas baseadas em mísseis terra-ar, abrindo caminho para a atuação posterior de bombardeiros e outros aviões.
Devido às complicações com algumas das tecnologias envolvidas, o avião sofreu os grandes atrasos e estouros do orçamento inicial que são típicos de vários projetos militares, e mais de 20 anos se passaram até que ele estivesse pronto para uso militar em 2005.

Naquela época, o foco do Pentágono tinha se deslocado para as guerras contra insurgentes islâmicos, e muitos críticos, incluindo o primeiro secretário de Defesa de Bush, Donald H. Rumsfeld, e, a seguir, Gates, passaram a cortar os gastos com o F-22, o que gerou confrontos de uma aspereza incomum com oficiais da força aérea.

Gates, em especial, questionou aquilo que chamou de "uma tendência a praticar o que pode ser chamado de 'mentalidade-da-próxima-guerra' - a propensão de grande parte do establishment de defesa a ser favorável àquilo que poderia ser necessário em um futuro conflito", em vez de concentrar-se nos tanques e veículos blindados de transporte de tropas que são necessários agora.

Gates exerceu pressões para que fossem feitos mais gastos com veículos de transporte de tropas fortemente blindados e resistentes a minas e com as aeronaves não tripuladas que são capazes de realizar operações de vigilância e lançar ataques com mísseis contra terroristas.
Em uma declaração, a Força Aérea dos Estados Unidos disse que seria "prematuro" falar publicamente a respeito das suas metas em relação ao F-22, já que a equipe de Obama "não teve a oportunidade de assumir uma posição".

Mas alguns oficiais da força aérea afirmam que, segundo a estratégia militar nacional, ainda se exige deles que se preparem também para guerras maiores, não importa o quão remotas sejam as possibilidades de que elas ocorram.

"A 'mentalidade-da-próxima-guerra' tem como paralelo algo chamado de 'avestruzismo', o que significa que não se pode esconder a cabeça na areia e acreditar que a situação atual será a mesma no futuro", disse um oficial militar de alta patente, que pediu que o seu nome não fosse divulgado porque ele não tem autorização para discutir este assunto.

Ele acrescentou que a Rússia e a China estão também vendendo sistemas de defesa baseados em mísseis terra-ar para nações menores, e que aviões como o F-22 são necessários para "dissuadir e conter outros países, de forma que jamais tenhamos que lutar".

Oficias da força aérea também disseram ao Congresso que precisam de mais aviões F-22 para criar esquadrões economicamente viáveis em locais importantes e para fornecer treinamento aos pilotos. Segundo eles, uma outra preocupação diz respeito a quantas aeronaves F-15 Eagle, que têm sido os principais caças nos últimos 25 ou 30 anos, estão sofrendo desgaste devido ao excesso de uso ou à idade, enquanto ainda falta vários anos para a produção em escala integral de um outro modelo novo, o Joint Strike Fighter, ou F-35.

Dois dos principais assessores de Gates, Gordon England, o vice-secretário de Defesa, e John J. Young Jr., o subsecretário do Pentágono para aquisições, desejam reduzir os gastos com o F-22 para liberar verbas para o Joint Strike Fighter.

Embora não seja páreo para o F-22 em velocidade e capacidade de evasão, o F-35 também conta com avançados recursos stealth. A idéia é que ele seja mais barato e que seja fabricado em números bem maiores para ser utilizado pela marinha, pelo corpo de fuzileiros navais e pelos principais aliados dos Estados Unidos, bem como pela força aérea estadunidense.

Nas últimas semanas, Young parece ter intensificado a sua campanha contra o avião, dizendo aos repórteres que o F-22 necessita de US$ 8 bilhões em atualizações, que a manutenção do caça é cara e que ele não atendeu às expectativas referentes ao desempenho.

E um subcomitê da forças armadas na Câmara organizou uma audiência para censurar Young por recusar-se a gastar mais do que US$ 50 milhões dos US$ 140 milhões reservados pelo Congresso para os fornecedores de peças para o F-22, aumentando, desta forma, as pressões sobre o governo Obama para que este decida rapidamente se preservará o programa.

Segundo o acordo anterior, a principal empresa envolvida no projeto, a Lockheed Martin, atuaria até 2011 para montar os aviões que o governo já encomendou. Mas, segundo funcionários da companhia, alguns dos componentes delicados demoram dois ou três anos para serem produzidos.
Assim, os fornecedores de componentes críticos passarão a desativar as suas linhas de montagem caso o dinheiro para encomendas adicionais não seja fornecido logo. E vários milhares de trabalhadores, entre os 25 mil que dependem do avião, poderão ser demitidos no ano que vem caso as companhias sejam incapazes de encontrar projetos substitutos.
Tanto England quanto Young deixarão os seus cargos ao término do governo Bush.

A equipe de transição de Obama deseja concluir a sua própria avaliação das ameaças militares e programas bélicos antes de fazer qualquer recomendação. "Obama tem dito repetidamente que deseja ouvir militares graduados a respeito das opções disponíveis", diz F. Whitten Peters, um ex-secretário da Força Aérea que assessorou Obama nas questões de defesa durante a campanha, mas que não integra a equipe de transição. "E, em algum momento, as mentes racionais poderão dizer: 'É isso que temos que fazer'". UOL

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