UOL Notícias Internacional
 

12/12/2008

Cólera castiga Zimbábue enquanto Mugabe nega existência da doença

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Harare (Zimbábue)
A Cólera atacou as cinco crianças pequenas da família Chigudu de forma cruel e desnorteante.

Em um sábado recente, as crianças corriam pelas ruas nas quais o esgoto corre a céu aberto, e conversavam alegremente quando foram dormir. A diarréia e o vômito começaram por volta de meia-noite. Os parentes prepararam freneticamente soro a base de água, açúcar e sal para que as crianças, que tinham de 20 meses a 12 anos de idade, bebessem.

Mas, pela manhã, elas estavam apáticas e com o olhar vazio. A doença drenara os fluidos dos seus corpos.

"Foi então que elas começaram a morrer", conta o irmão de 18 anos, Lovegot. "Prisca foi primeiro. Depois, Sammy. A seguir Shantel e Clopas. Aisha, a menorzinha, foi a última".

Uma feroz epidemia de cólera, disseminada por água contaminada com excrementos humanos, atingiu mais de 16 mil pessoas no Zimbábue desde agosto. Mais de 780 doentes morreram. Os especialistas da área de saúde alertam que o número de casos poderá superar a marca de 60 mil, e que a metade da população do país, que tem 12 milhões de habitantes, corre risco.

A epidemia é mais uma evidência de que os serviços públicos mais fundamentais do Zimbábue - incluindo fornecimento de água e saneamento, escolas públicas e hospitais - estão deixando de funcionar, da mesma forma que os órgãos das vítimas de cólera, que ficam profundamente desidratadas.

A economia outrora promissora do Zimbábue, e que foi administrada de forma desastrosa pelo presidente Robert G. Mugabe, vem se desintegrando há quase uma década, mas os habitantes do país dizem que esta queda livre adquiriu uma velocidade assustadora nas últimas semanas. A maioria das escolas do país, que já foram o orgulho da África, por produzirem uma população altamente alfabetizada, praticamente deixou de funcionar porque os professores, cujos salários não cobrem mais os custos da passagem de ônibus até o trabalho, deixaram de comparecer às salas de aula.

Com milhões de pessoas enfrentando uma fome intensa, e que piora a cada dia, e a cólera espalhando-se pelos países vizinhos, há um clamor internacional crescente pela renúncia de Mugabe, que ocupa a presidência há 28. Mas ele só parece agarrar-se mais ao poder, e chegou a declarar na quinta-feira (11/12) que a epidemia de cólera acabou, apenas um dia após a Organização Mundial de Saúde ter advertido que a epidemia é suficientemente grave para ter "implicações regionais sérias".

Os cortes do fornecimento de água são comuns e prolongados no Zimbábue, mas na semana passada as torneiras secaram em praticamente todos os subúrbios densamente habitados da capital, onde as pessoas mais necessitam de água limpa e potável para lavar as mãos e os alimentos, medidas essenciais para conter a cólera. Nas ruas esburacadas, cheias de crianças que não freqüentam a escola e de adultos desempregados, pilhas de lixo não recolhido acumulam-se e um lodo marrom e grosso vaza de tubulações de esgoto rompidas.

Os dois maiores hospitais da capital, instalações amplas que no passado forneciam tratamentos sofisticados em uma crise como esta, fecharam as portas semanas atrás, depois que médicos e enfermeiras, com os salários praticamente destituídos de valor devido à hiperinflação, simplesmente deixaram de trabalhar.

Em julho deste ano a inflação oficial chegou a 231 milhões por cento, mas John Robertson, um economista independente do Zimbábue, calcula que ela agora tenha chegado a impressionantes oito quintilhões por cento - um número que consiste de um oito seguido de 18 zeros.

A situação deteriorou-se tanto que os soldados - que garantem o poder de Mugabe - rebelaram-se na semana passada nas ruas da capital, quebrando janelas e saqueando lojas, após terem passado dias em filas de bancos sem serem capazes de retirar os seus magros salários de caixas eletrônicos desprovidos de dinheiro. Um oficial de patente intermediária que participou da rebelião, mas que falou sob condição de anonimato por temer perseguição, disse que as tropas enfureceram-se por não conseguirem mais comprar comida e mandar os filhos para a escola.

"Enquanto nós conversamos, os filhos dos nossos chefes estão nas escolas particulares aprendendo, enquanto os nossos brincam em ruas de terra", disse ele com amargor.

Boatos sobre esta agitação extraordinária nos quadros do exército têm circulado intensamente, e alguns especulam que a rebelião foi planejada para justificar a imposição de um estado de emergência. Outros esperam que o fato assinale finalmente o início do fim de Mugabe.

Mesmo assim, a capacidade do governo de Mugabe de esmagar a dissidência parece estar intacta. A polícia sufocou a rebelião. Agora, 16 soldados enfrentam a corte marcial. Além disso, cerca de 20 ativistas de partidos oposicionistas e grupos de direitos humanos desapareceram recentemente. Na semana passada, homens armados seqüestraram Jestina Mukoko, uma conhecida ativista dos direitos humanos, pela manhã, quando ela estava descalça, ainda usando a camisola de dormir e sem os óculos de grau, enquanto o filho adolescente observava tudo impotente.

Os analistas prevêem há muito tempo que o poder de Mugabe - que ele recusa-se a dividir desde setembro, quando assinou um acordo de compartilhamento de poder com o seu inimigo, o líder oposicionista Morgan Tsvangirai - só será rompido quanto a economia implodir completamente e a vida diária tornar-se insuportável.

Mas enquanto o octogenário Mugabe continua com o seu jogo, as tragédias humanas acumulam-se.

Em um país que registra a segunda maior proporção de órfãos do mundo - uma entre cada quatro crianças perdeu um ou ambos os pais -, o fechamento de escolas e hospitais está atingindo impiedosamente essas crianças mais vulneráveis.

Aisha Makombo, 15, cria a sua irmã Khadija, de 11 anos, desde que a mãe delas morreu de Aids no ano passado. Uma menina de rosto suave, redondo e expressivo, Aisha, que não está infectada pelo HIV, tem lutado para conseguir tratamento para Khadija, que tem Aids.

No ano passado ela levou a irmã pequena, tão mirrada que parece ter a metade da idade real, ao Hospital Parirenyatwa, o maior do país, mas os exames cruciais para que Khadija fosse qualificada para receber os medicamentos que poderiam salvar a sua vida tiveram um resultado inexplicavelmente equivocado.

Durante uma outra visita ao hospital, disseram a Aisha que a máquina que realiza os testes estava quebrada. Agora o hospital está praticamente fechado. Aisha diz que a aconselharam a marcar consultas com médicos particulares que exigem pagamento em rands sul-africanos ou dólares estadunidenses, mas as garotas não tinham dinheiro.

Os olhos de Aisha enchem-se de lágrimas quando ela explica que só conseguiu obter cotrimoxazole, um antibiótico usado para o tratamento de infecções oportunistas, para a irmã pequena.

Aisha costumava escapar da tristeza da sua vida freqüentando a escola de segundo grau, mas dois meses atrás os professores deixaram de comparecer.

"Ela não se despediu de nós; apenas foi embora", conta Aisha, referindo-se à professora de matemática, aquela da qual ela sente mais saudade. "No início, achamos que ela voltaria, mas depois abandonamos esta esperança".

Atualmente Aisha luta para trocar o seu trabalho por comida, enquanto a irmã pequena, debilitada demais para trabalhar, freqüenta uma pequena escola administrada por um grupo sem fins lucrativos. Na semana passada, Aisha começou a trabalhar em um emprego de quatro dias por semana, preparando um campo para o plantio. Em troca, ela obterá um quilo de farinha de trigo e uma garrafa de óleo de cozinha, bem como uma camisa e uma blusa para Khadija.

Todas as noites as duas garotas rezam juntas antes de dormir no quarto que dividem, pequeno, sujo e sem janelas. A casinha pertence ao avô, mas ele admite que é Aisha que fornece a comida para ele e para o tio dela de 45 anos, que às vezes rouba o fubá que ela recebe, bem como as roupas das garotas, para vender.

Mas as meninas dizem que ainda apegam-se aos seus sonhos. Aisha quer ser médica e Khadija caixa de banco. As profissões desejadas apontam para aquilo que as garotas não têm - saúde e dinheiro para comprar remédios e comida.

O Zimbábue possui um dos maiores índices de infecção por HIV do mundo, e agora enfrenta uma devastadora crise de cólera. Mas, segundo especialistas em saúde, com o colapso econômico destruindo as verbas necessárias para fazer funcionar os sistemas de saúde pública do país, os índices de mortalidade entre as vítimas da cólera são cinco vezes mais elevados do que o de outros países.

Segundo os analistas, o governo de Mugabe - na sua busca por poder e dinheiro - também contribuiu para ambas as catástrofes.

No início deste ano, o governo colocou em risco um auxílio de US$ 188 milhões fornecido pelo Fundo Global para o Combate à Aids, à Tuberculose e à Malária, ao pegar US$ 7,3 milhões que a organização havia doado e gastar a quantia com despesas não vinculadas à saúde. Foi só na última hora, devido à ameaça de que o dinheiro não fosse mais fornecido, que o governo reembolsou o Fundo Global pela verba subtraída.

E, dois anos atrás, o governo assumiu o controle sobre os sistemas de água e de esgoto de Harare, que eram controlados pela prefeitura oposicionista da cidade, privando o governo municipal de uma fonte crucial de renda para manter os serviços funcionando.

"O motivo real foi reduzir a influência do partido de oposição Movimento pela Mudança Democrática e estrangulá-lo financeiramente", diz Justice Mavezenge, membro da Associação dos Moradores de Harare.

Na semana passada, até mesmo jornal governista "The Herald" criticou a empresa estatal de distribuição de água por não possuir mais os produtos químicos necessários para o tratamento do suprimento de água de Harare, produtos que, segundo o jornal, poderiam ter sido despachados da África do Sul em menos de 24 horas.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e doadores internacionais mobilizaram-se para resolver a situação. Eles começaram a enviar 50 caminhões-tanques com água potável para os subúrbios mais densamente povoados e fornecerão produtos químicos para o tratamento da água da cidade nos próximos quatro meses, segundo o diretor da Unicef no país, Roeland Monasch.

Mas alguns funcionários de ajuda humanitária temem que seja impossível conter a epidemia devido ao colapso dos sistemas de distribuição de água e saneamento em locais como Budiriro, o subúrbio de Harare no qual as crianças da família Chigudu morreram, e onde ocorreu a metade dos casos do país.

"Não seremos capazes de controlar a epidemia", diz o assessor de uma agência de auxílio, que falou sob condição de anonimato por temer represálias. "O cenário mais provável é que as pessoas que adoeçam em lugares como Budiriro sigam para suas casas na temporada de festas. Neste caso, teremos pontos de contágio em todas as áreas rurais".

A cólera tirou a vida das crianças da família Chigudu em apenas dois dias, 17 e 18 de novembro, e a avó e a tia que ajudaram a cuidar delas morreram apenas dois dias depois. O pai das crianças, que voltou para casa apenas algumas horas após a morte do último filho, sentiu pela primeira vez o peso da calamidade indescritível quando, à sua chegada, os meninos não correram para agarrar-se a ele.

"Jamais terei meus filhos de volta", lamentou o homem.

O número de mortos aumenta a cada dia. Na semana passada, Chipo e Tecla Murape levaram às pressas a sua sobrinha de cinco anos, Moisha, à clinica de Chitungwiza, uma cidade ao sul de Harare. As enfermeiras disseram à família que as veias nos braços da menina haviam se degradado devido à perda extrema de fluidos. Os parentes dizem que nenhum médico examinou a garota, e as enfermeiras não conseguiram alcançar nenhuma veia. Moisha, uma garota tímida, mas amigável, acabou bebendo soro para reidratação.

Durante o dia todo ela reclamou de uma sede terrível e de uma grande dor no estômago. Aconselhadas por funcionários da clínica, as tias sequer deram as mãos à criança, enquanto esta morria, por medo de contágio. Quando a noite caiu, as enfermeiras disseram que não poderiam fazer mais nada, e sugeriram que os parentes de Moisha a levassem ao hospital da cidade, a cerca de quatro quilômetros.

Mas não havia ambulância. Tecla Murape, 42, colocou Moisha nas costas e deu início à caminhada apressada de uma hora, com o coração batendo forte devido à preocupação. Sob um céu escuro e sem lua, ela cortou caminho por um milharal, saltando sobre mais um esgoto a céu aberto. Mas, quando chegaram, as roupas de Murape estavam ensopadas com a diarréia aquosa de Moisha. Horas depois, Moisha morreu. UOL

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