UOL Notícias Internacional
 

12/12/2008

Ucrânia e Polônia enfrentam dúvidas sobre Eurocopa 2012

The New York Times
Nicholas Kulish e Michael Schwirtz
Em Varsóvia
Parecia o plano perfeito, mesmo que ligeiramente arriscado. Dar à Polônia e Ucrânia, duas das maiores economias emergentes da Europa, a chance de sediarem um importante torneio de futebol, reforçar a base de torcedores do continente e ajudar a garantir o futuro do esporte aqui.

Após menos de dois anos atormentado por desorganização, corrupção e agora um desastre financeiro global, o futuro está parecendo longe de seguro para a Eurocopa 2012 nos ex-países do bloco soviético. O que idealmente seria um processo simples - reunir as equipes para jogar futebol diante dos torcedores e câmeras de televisão - se transformou em um melodrama multinacional que poderia ter brotado das páginas do Google.

A Ucrânia tem feito o papel do sujeito sem sorte, a Polônia o da autoridade corrupta e a Alemanha o da oportunista de plantão, preparada para assumir parte do torneio caso a Ucrânia tropece. Após uma série de relatórios e comentários altamente críticos feitos pelas autoridades, há uma enxurrada de atividades enquanto os dois países tentam provar que podem se organizar para que a entidade que rege o futebol europeu, a Uefa, não precise cancelar tudo.

Ambos os países começaram a trabalhar nos estádios em suas capitais, Kiev e Varsóvia. Para atender aos dirigentes da Uefa, os ucranianos demoliram um novo shopping center construído quase acima do complexo.

Até o momento, isso parece ter aliviado um pouco os temores dos dirigentes do futebol. "Nós temos plena confiança na Euro 2012 na Polônia e Ucrânia", disse Michel Platini, o presidente da Uefa, cuja sede é em Lyon, Suíça, após se reunir com autoridades dos dois países na quarta-feira.

Isso representou uma melhoria significativa em relação ao anúncio da Uefa, em setembro, declarando que a Polônia e a Ucrânia tinham "errado por falta de experiência e rigor" e que "o desenvolvimento da infra-estrutura necessária para a boa condução da fase final do torneio" estava praticamente estagnado.

Logo, foi com um compreensível alívio que uma delegação do comitê organizador ucraniano da Eurocopa 2012 chegou ao luxuoso salão de recepção diplomático do Aeroporto Internacional de Boryspil de Kiev, na quarta-feira, jovial e um ligeiramente embriagada, após a reunião em Nyon, que muitos disseram ter sido a mais positiva e cooperativa da qual participaram.

"A Ucrânia e a Polônia demonstraram um grande progresso em seus preparativos", disse Hryhoriy Surkis, o presidente da federação da Ucrânia. "Nós realmente embalamos."

Pode soar como uma história antiga familiar, como durante os Jogos Olímpicos na Grécia. O país sede não está preparado e um grande evento esportivo parece que será um desastre, então a proximidade dos prazos mobiliza a todos e o evento transcorre como planejado. Mas há uma grande diferença: as forças econômicas em ação na crise financeira global, que estão além do controle dos governos.

Os problemas enfrentados pelos dois países também servem como uma lição de que os esportes não ocorrem em um plano rarefeito, mas estão sujeitos às mesmas forças econômicas que atormentam os proprietários de imóveis sob execução hipotecária e banqueiros de investimento desempregados à procura de trabalho. Sediar o evento exige muito mais do que construir dois estádios; também significa construção e ampliação de rodovias, ferrovias e aeroportos, sem contar o fornecimento de hotéis.

E há um precedente de um país perder um grande evento esportivo. A Colômbia seria a sede da Copa do Mundo de 1986, mas teve que cedê-la ao México por causa das dificuldades financeiras ligadas à recessão mundial de 1982 e a queda dos preços de seu maior produto de exportação, o café.

A Ucrânia, por sua vez, foi duramente atingida pela atual crise econômica global, com o Fundo Monetário Internacional lhe concedendo um empréstimo de emergência de US$ 16,5 bilhões para tentar estabilizar o país, onde a inflação chegou próxima de 20% e o crescimento econômico atingiu o ponto mais baixo após quase sete anos de ganhos médios de 7%. Há temores palpáveis de que o investimento privado em dólares, que a Ucrânia em particular esperava que ajudaria a desenvolver a infra-estrutura do país antes do torneio, secará.

O país também permanece atolado em um conflito político que pode congelar a atividade do governo por meses. O conflito parece ter se infiltrado nos preparativos ucranianos para a Eurocopa 2012 em novembro, quando o governo ucraniano descartou a agência que supervisionava os planos para o campeonato e a substituiu por um birô coordenador composto por 50 membros, após queixas da Uefa de ineficácia administrativa.

Isso poderia ajudar a explicar por que o novo líder da federação polonesa, Grzegorz Lato, logo após ser nomeado para o cargo, declarou: "Se a Ucrânia não for capaz de fazê-lo, nós poderíamos dividir a sede do torneio com a Alemanha". Muitas cartas foram trocadas por Kiev e Varsóvia, e Lato explicou que seus comentários foram retirados do contexto.

Franz Beckenbauer, da Alemanha, que como Lato é um herói nacional do futebol em seu país natal, mas que também é vice-presidente da Fifa, a federação internacional de futebol, não fez nada para diminuir os temores ucranianos de que os poloneses seguiriam em frente com os alemães, quando foi citado no jornal "Suddeutsche Zeitung" a respeito da posição da Alemanha sobre o assunto, dizendo: "Está em discussão. Não é mais um segredo".

Também começaram a circular boatos de que a Espanha, vencedora da última Eurocopa, realizada neste ano pela Suíça e Áustria, também poderia servir como substituta. Platini, o presidente da Uefa e ex-astro da seleção francesa, interveio e reafirmou que a Polônia e a Ucrânia estavam naquilo juntas. "Se os estádios nas capitais não forem construídos, a Euro não irá nem para Kiev e nem para Varsóvia", ele disse.

O som de britadeiras e tratores agora emana da carcaça eviscerada do Estádio Olímpico de Kiev. O interior foi despojado de assentos e escadas e pilhas de entulho cobertas de neve enchem o lado externo. Os emblemas soviéticos da foice e martelo e um mural realista socialista são tudo o que resta de um passado de proeminência atlética.

As obras no estádio tiveram início apenas em 1º de dezembro, um prazo estabelecido pelos dirigentes do futebol europeu. Dois outros estádios, em Donetsk e Dnipropetrovsk, estão quase prontos graças ao apoio financeiro de dois bilionários ucranianos. As prefeituras têm tido dificuldade em financiar os estádios em Kiev e Lviv, uma cidade no oeste da Ucrânia, e as obras estão atrasadas.

O governo também prometeu US$ 2 bilhões adicionais para os preparativos para a Eurocopa 2012 e planeja gastar US$ 10 bilhões para compensar a perda do financiamento por investidores privados. Mas Ivan Vasyunyk, o vice-primeiro-ministro da Ucrânia encarregado do planejamento do torneio, disse que as dificuldades eram esperadas.

"Quando a Uefa decidiu em 2006 quem sediaria o campeonato, ela sabia perfeitamente que o nível de infra-estrutura - infra-estrutura esportiva, infra-estrutura de transportes - na Ucrânia era insuficiente", ele disse. "Essa foi uma decisão política para a Uefa. A Uefa tomou uma decisão de promover o futebol no Leste, e a Uefa assumiu um risco com a Ucrânia e Polônia."

Apesar da Polônia permanecer, pelo menos por ora, em uma condição econômica mais estável do que a Ucrânia, ela enfrentou suas próprias dificuldades recentemente, após dezenas de técnicos, árbitros e dirigentes na Polônia terem sido presos em uma investigação de suborno. Até o ex-técnico da seleção nacional, Janusz Wojcik, foi indiciado por 11 crimes de corrupção.

O governo polonês suspendeu o conselho diretor da federação nacional de futebol, entrando em choque com as regras da Fifa que exigem federações independentes, livres de interferência do governo. A controvérsia quase custou ao país o direito de sediar o evento, assim como sua participação nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, antes de um acordo para eleição de um novo conselho ter sido acertado em outubro.

Miroslaw Drzewiecki, o ministro do esporte e turismo da Polônia, disse em uma entrevista em seu gabinete, no centro de Varsóvia, que tudo estava de volta aos trilhos, tanto na federação quanto nos preparativos para o torneio. O plano e cronograma poloneses estão no lugar, ele disse, e o financiamento é seguro e estável, mesmo diante da crise financeira.

"Em muitos casos nós compensamos os atrasos e em outros casos nós estamos adiantados no cronograma", disse Drzewiecki.

No local do Estádio Nacional, ao longo do Rio Vistula no distrito de Praga, em Varsóvia, ainda apenas um buraco enlameado onde antes ficava o velho estádio, a batida rítmica de bate-estacas ficando suportes na terra soa como um batimento cardíaco.

Apesar dos estádios nas duas capitais serem claramente necessários, a Uefa disse que seis a oito estádios são necessários, e não necessariamente o mesmo número em cada país. As autoridades polonesas soaram confiantes de que poderiam sediar um maior número de partidas. "A situação mais confortável é permanecermos juntos com a Ucrânia, apenas escolhendo os oito melhores locais", disse Rafal Kapler, vice-presidente da PL.2012, a entidade coordenadora na Polônia. "Isso cria concorrência interna, o que é bom."

Kapler, que cresceu em Praga, até mesmo pratica sua própria forma de supervisão para assegurar a conclusão do principal projeto do país. "Minha mãe ainda mora a um quilômetro e meio de distância", ele disse. "Ela me telefona e diz: 'Hoje eles começaram às 6h'. Então ela telefona e diz: 'Aconteceu alguma coisa. Hoje só começaram às 10h'." George El Khouri Andolfato

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