UOL Notícias Internacional
 

12/12/2008

Um lamento americano: 'Eu também fui deportado'

The New York Times
Marc Lacey
Em Tijuana (México)
Os dois homens mal podiam se comunicar. Um era um trabalhador mexicano, o outro um errante americano, ambos carentes de pesos em seus bolsos. Mas eles estabeleceram um laço, após terem passado por situações semelhantes.

"A migra me pegou", lamentou o mexicano humilhado, usando a gíria para a Patrulha de Fronteira americana.

"Sei como é", disse o americano, sentando em um banco perto da pobre Avenida Revolución de Tijuana, dedilhando seu violão na esperança de que alguém pudesse lhe dar algum trocado. "Eu também fui deportado."

O governo americano formalmente deportou ou devolveu mais de um milhão de estrangeiros - a maioria mexicanos - segundo dados da imigração. Esse número tem crescido constantemente ao longo dos anos. Mas para surpresa de muitos americanos, também há um filete de deportados fluindo para o norte, do México para os Estados Unidos.

Entre janeiro e setembro,o Instituto Nacional de Migração, o serviço de imigração do México, deportou 350 americanos, alguns deles infratores da lei que concluíram sentenças de prisão no país, mas outros apenas viajantes que foram descobertos sem a documentação apropriada.

Um deles era o errante quarentão desalinhado que atende pelo nome de Crash, evita empregos formais e acumula histórias de suas aventuras.

"Eu não sabia que era possível ser deportado do México", ele disse, pedindo que seu nome completo não fosse usado para evitar mais problemas com a lei. "Eu não sabia que era possível. Agora eu sei."

Ele disse que estava pegando carona na traseira de uma picape vinda de Huatulco, um popular destino de férias no Estado de Oaxaca, no sul, para o balneário de Acapulco há várias semanas, quando o veículo se aproximou de um posto de controle. As autoridades pediram a Crash o seu passaporte. Ele não tinha um.

Ele disse que foi levado e posteriormente se viu em uma fila de identificação da polícia. Disseram a ele que uma mulher tinha sido roubada em Acapulco por um homem loiro com cavanhaque. Olhando para os outros homens na fila, Crash disse que todos podiam ser seus irmãos, todos loiros com cavanhaque.

Ele não foi apontado como o ladrão, mas disse que mesmo assim foi enviado para a cadeia, que não foi uma experiência totalmente desagradável para Crash. "A cela era melhor do que alguns dos quartos de hotel de 300 pesos nos quais estive", disse. "A única coisa era que tinha barras."

Ele disse que passou uma semana lá enquanto o consulado americano preparava os documentos de viagem para ele. Quando foi informado que seria deportado para os Estados Unidos, ele disse que inicialmente não acreditou. "Eu pensei comigo mesmo: 'Você tá brincando. Isto é uma piada. Você vai me deportar do México?'" disse Crash. "Eu disse para um dos sujeitos: 'Isso lhe dá grande satisfação, não dá?' Ele disse: 'Vocês fazem isso com nosso povo há anos'."

Na verdade, os americanos correspondem a uma minúscula porção dos deportados do México, que geralmente são centro-americanos que cruzam a fronteira sul do México com Belize e a Guatemala. Os 350 americanos enviados para casa nos primeiros nove meses deste ano representaram apenas 1% das 28.778 deportações realizadas pelas autoridades mexicanas. Em comparação, os mexicanos representam quase dois terços dos deportados pelos Estados Unidos.

Mas a experiência é notavelmente semelhante, dizem algumas pessoas que já passaram por ela.

Crash foi colocado em um avião de Acapulco para Tijuana e então levado até a fronteira por uma van do governo. Levado a uma travessia, ele foi informado que se voltasse em menos de um ano poderia enfrentar penas mais duras.

Não alguém que costuma deixar que lhe digam o que fazer, Crash permaneceu nos Estados Unidos aproximadamente 15 minutos, ele disse. Ele então caminhou de volta para Tijuana e, como no caso da maioria dos americanos, nenhuma autoridade requisitou uma identificação para que entrasse.

Suas aventuras não diminuíram. Enquanto caminhava pelas ruas de Tijuana, ele disse que um homem lhe abordou e lhe ofereceu um emprego mais lucrativo.

Crash, um californiano que já trabalhou como cozinheiro, babá, trabalhador rural e operário de estaleiro, entre outros empregos, diz que não é um materialista.

"Desde que eu tenha um maço de cigarros no bolso, tacos no meu estômago e uma cerveja na mão, eu não tenho nenhuma necessidade no mundo", ele disse.

Mas naquele momento em particular, ele disse que não tinha nada e aceitou prontamente a oferta nebulosa para ganhar dinheiro. O estranho o levou para uma casa próxima da fronteira e forneceu a Crash toda a cerveja e maconha que precisava. A única pegadinha era que ele também trancou Crash na casa por vários dias.

Então, outro homem veio e disse para Crash que ele dirigiria um caminhão para o outro lado da fronteira, para os Estados Unidos. Levado ao veículo, ele disse que viu vários mexicanos escondidos sob um cobertor na traseira. Eles estavam mal escondidos, disse Crash, mas ainda assim ele subiu no veículo e seguiu para a travessia de fronteira.

As autoridades americanas avistaram facilmente os imigrantes ilegais. Ele disse que elas o levaram para uma estação ao longo da fronteira, colocaram sua informação pessoal em um computador e então o soltaram com a promessa de que se tentasse aquilo de novo ele iria para a prisão.

De novo, Crash atravessou a fronteira de volta ao México, onde ele considera a vida mais barata e mais despreocupada. Ele atualmente está usando muletas, após ter caído e machucado o tornozelo. Ele está na casa de um estranho que conheceu por meio de www.couchsurfers.com, um site que promove viagens baratas.

Uma das canções que ele canta atualmente para ganhar alguns trocados é "Plane Wreck at Los Gatos (Deportee)", na qual Woody Guthrie lamenta um grupo de trabalhadores rurais mexicanos que morreram na queda de um avião enquanto eram deportados em 1948.

"Agora posso cantá-la com muito mais emoção", disse Crash. George El Khouri Andolfato

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