UOL Notícias Internacional
 

13/12/2008

EUA ajudam Mali e outros países africanos a rechaçarem a Al Qaeda

The New York Times
Eric Schmitt
Em Kati, Mali
A milhares de quilômetros dos campos de batalha no Iraque e Afeganistão, outra frente da luta dos Estados Unidos contra o terrorismo está se desdobrando neste canto remoto do Oeste da África. Boinas verdes americanos estão treinando exércitos africanos para protegerem suas fronteiras e patrulharem vastas regiões desoladas contra a infiltração de militantes da Al Qaeda, para que os Estados Unidos não tenham que fazê-lo.

Um recente exercício dos militares americanos aqui fazia parte de um plano abrangente, desenvolvido após os ataques do 11 de Setembro, para levar assistência e treinamento em contraterrorismo para lugares fora do Oriente Médio, como as Filipinas e Indonésia. Na África, uma parceria de cinco anos e US$ 500 milhões entre os departamentos de Estado e Defesa inclui a Argélia, Chade, Mauritânia, Mali, Marrocos, Níger, Nigéria, Senegal e a Tunísia. A Líbia está prestes a se juntar.

Os esforços americanos para combater o terrorismo na região também incluem programas não-militares, como instrução para professores e treinamento profissionalizante para jovens muçulmanos que poderiam ser alvo das campanhas de recrutamento dos militantes.

Uma meta do programa é agir rapidamente nesses países, antes que o terrorismo se torne tão entrincheirado quanto na Somália, um país do leste africano onde há uma alta ameaça de militantes. E diferente da Somália, Mali está disposta a ter dezenas de treinadores militares americanos e europeus conduzindo exercícios aqui, e seus líderes estão claramente preocupados com os militantes que se refugiam em seu vasto norte saárico.

"Mali não tem os meios para controlar suas fronteiras sem a cooperação dos Estados Unidos", disse Ibrahim Boubacar Keita, um ex-primeiro-ministro, em uma entrevista.

Mali, uma ex-colônia francesa sem acesso ao mar e que tem quase duas vezes o tamanho do Texas, mas com aproximadamente metade da população, possui uma democracia relativamente estável, mas ainda frágil. Mas Mali faz fronteira com a Argélia, cujas forças armadas bem-equipadas caçam os militantes da Al Qaeda no norte malinês, onde adotaram um estilo de vida nômade, o que os torna ainda mais difíceis de rastrear.

Com apenas 10 mil homens em seu exército e outras forças de segurança, e apenas dois helicópteros e poucos aviões em funcionamento, Mali reconhece quão difícil é a tarefa de expulsar os militantes.

A maior ameaça potencial vem dos cerca de 200 combatentes de um braço da Al Qaeda chamado Al Qaeda no Magreb Islâmico, que usa o deserto no norte malinês como área de preparação e base de apoio, disseram oficiais americanos e malineses.

Há cerca de três meses, a facção da Al Qaeda ameaçou atacar as forças americanas que operavam ao norte de Timbuktu, no deserto de Mali, disseram três oficiais do Departamento de Defesa. Um oficial disse que a ameaça contribuiu para a decisão de deslocar parte do recente exercício de treinamento para fora daquela área.

O governo da vizinha Mauritânia disse que 12 de seus soldados foram mortos em um ataque de militantes que ocorreu ali, em setembro. Segundo alguns relatos, os soldados foram decapitados e seus corpos foram armados com explosivos.

Dois oficiais do Departamento de Defesa expressaram temor de que um importante líder da facção da Al Qaeda em Mali, Mokhtar Belmokhtar, esteja sob crescente pressão para realizar um ataque em grande escala, possivelmente na Argélia ou Mauritânia, para estabelecer suas credenciais de liderança dentro da organização.

Os membros da facção da Al Qaeda não atacaram as forças malinesas, e os oficiais americanos e malineses reconheceram de forma privada que os oficiais militares daqui adotaram uma abordagem viva e deixe viver à ameaça da Al Qaeda, preferindo se concentrar nos rebeldes tuaregs, que também vivem no norte esparsamente povoado.

Para financiar suas operações, os militantes cobram taxas dos contrabandistas cujas rotas atravessam o santuário da Al Qaeda, e coletam resgates de seqüestros. No final de outubro, dois austríacos foram libertados após o pagamento de um resgate que teria sido de mais de US$ 2 milhões. Eles foram mantidos no norte de Mali após serem seqüestrados no sul da Tunísia em fevereiro.

Por causa das atividades dos militantes, os oficiais americanos olham com preocupação para os espaços em grande parte não governados do deserto no norte de Mali.

Neste ano, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) está gastando cerca de US$ 9 milhões em medidas de contraterrorismo aqui. Parte do dinheiro expandirá um programa existente de treinamento profissionalizante para mulheres para fornecer aos homens jovens malineses o conhecimento básico para abrirem negócios, como pequenos moinhos de farinha ou empreendimentos pecuários. Parte da ajuda treinará professores nas escolas paroquiais muçulmanas, em um esforço para impedir que se transformem em incubadores do discurso antiamericano.

A agência também está construindo 12 emissoras de rádio FM no norte, para ligar as aldeias distantes a uma rede de alerta inicial que enviará boletins sobre bandidos e outras ameaças. O financiamento do Pentágono produzirá, nas quatro línguas nacionais, novelas de rádio promovendo a paz e a tolerância.

"Os homens jovens no norte estão à procura de emprego ou o que fazer de suas vidas", disse Alexander D. Newton, diretor da missão da Usaid em Mali. "Essas são as mesmas pessoas que podem ser suscetíveis a outras mensagens de segurança econômica." A preocupação com a vulnerabilidade de Mali também trouxe ao país uma dúzia de boinas verdes do 10º Grupo das Forças Especiais do Exército na Alemanha, assim como vários instrutores militares holandeses e alemães, para o exercício de treinamento de duas semanas concluído no mês passado.

Pouco antes do meio-dia em um recente dia ensolarado e com brisa, as tropas malinesas fizeram uma varredura da área de treinamento na savana ao norte de Bamaco, a capital, a bordo de duas aeronaves de transporte Osprey CV-22, pilotadas pelas equipes das Operações Especiais da Força Aérea do Campo Hurlburt, Flórida.

Enquanto a aeronave cinzenta pousava em um redemoinho de poeira, os malineses desembarcaram em fila única pela rampa traseira trajando capacetes e uniformes de camuflagem verde-escuros, com rifles de assalto M-4 em prontidão. (Os malineses normalmente usam rifles AK-47, mas usaram os americanos M-4 para este exercício.)

Após uma marcha de um quilômetro e meio pela mata da savana, os soldados desceram uma colina até um pequeno vale. O alvo deles -um esconderijo simulado de insurgentes- estava à vista. Mas o que os malineses não sabiam era que seus instrutores americanos estavam escondidos à espera, e repentinamente atacaram as tropas com fogo cerrado de armas de pequeno porte (e balas de tinta), com sinalizadores vermelhos voando acima deles.

O combate simulado durou apenas poucos minutos. Os malineses, gritando uns com os outros e disparando contra seus agressores, recuaram da emboscada em vez de tentarem combatê-la.

"Nós ainda estamos aprendendo", disse o capitão Yossouf Traore, um comandante de 28 anos, falando em inglês, que aprendeu no Texas e em Fort Benning, Geórgia, como oficial visitante. "Nós estamos obtendo muita experiência em técnicas de liderança e tomada de decisões no local."

Ainda mais significativo, disse Traore, foi que o exercício deu aos seus soldados uma oportunidade incomum de treinar com soldados do vizinho Senegal. Logo após os Ospreys retornarem para recolher os soldados malineses do campo de treinamento, dois aviões carregados de soldados senegaleses chegaram para realizar as mesmas manobras.

Ainda, assim, indicadores preocupantes estão fazendo com que o governo e os líderes religiosos malineses, assim como os oficiais americanos, temam a capacidade do país de lidar com riscos à segurança.

Mali é o quinto país mais pobre do mundo e, segundo algumas estatísticas da ONU e do Departamento de Estado, está ficando ainda mais pobre. Uma entre cinco crianças malinesas morre antes dos 5 anos. O malinês médio não vive para celebrar o 50º aniversário. A população do país, atualmente em 12 milhões, está dobrando a quase cada 20 anos. Os índices de alfabetização pairam em torno de 30% e são muito menores nas áreas rurais.

Também há pequenos sinais de que os clérigos radicais estão começando a fazer incursões na forma tolerante de Islã praticada aqui por séculos pelos muçulmanos sunitas. O número de mulheres malinesas vestindo burca ainda é pequeno, mas o aumento nos últimos anos é notável, dizem os líderes religiosos.

Novas mesquitas estão surgindo, financiadas por organizações religiosas conservadoras na Arábia Saudita, Líbia e Irã, e as bolsas oferecidas para os homens malineses para estudarem nesses países estão aumentando, disseram autoridades malinesas.

No bairro do imã Mahamadou Diall em Bamaco, uma cidade congestionada e tomada de fumaça às margens do Rio Níger, um forte debate está em andamento. O imã Diallo, 48 anos, disse que duas novas mesquitas foram construídas em sua área com financiamento de grupos extremistas wahabistas da Arábia Saudita, e que estavam tomando membros de sua mesquita.

"Muitas pessoas aqui são pobres e não têm trabalho", disse o imã Diallo em bambara, uma das línguas locais, por meio de um intérprete. "Elas são potencialmente vulneráveis a esses wahabistas que chegam com dinheiro."

Mas seguindo por uma estrada de terra vermelha, acidentada, o líder de uma dessas novas mesquitas, Al Nour, contestou a caracterização por Diallo. Ali Abdourohmome Cisse, o imã desde que Al Nour abriu em 2002, disse não saber quem financiou sua construção. Ele acrescentou que ninguém em sua equipe, que inclui um assistente egípcio que ajuda a conduzir a Oração da Sexta-Feira em árabe, defende qualquer forma de extremismo.

Na El Mouhamadiya, uma escola islâmica no bairro, mais de 700 estudantes, com idades entre 4 e 25 anos, têm aulas de matemática, física e árabe. "Mas não os treinamos em terrorismo", disse Broulaye Sylla, 25 anos, um administrador. "Nós não falamos sobre jihad."

Mahmoud Dicko, presidente do Alto Conselho do Islã em Bamaco, reconheceu enquanto bebia refrigerantes em seu escritório no segundo andar que a influência dos sunitas conservadores e mesmo de grupos xiitas se tornou mais visível, mas ele disse que não representam uma séria ameaça à sociedade malinesa.

"A influência deles tem limites, por causa da importância dos laços culturais aqui em Mali", ele disse. "Nós temos um Islã tolerante aqui, um Islã pacifista."

Diplomatas americanos e africanos disseram aqui que Mali é um dos poucos países na região que mantêm boas relações com a maioria dos seus vizinhos, o que o torna um catalisador para a cooperação regional mais ampla em segurança que os Estados Unidos buscam fomentar. Os comandantes americanos expressaram confiança de que ao treinarem juntas, as forças africanas poderiam trabalhar juntas contra ameaças transnacionais como a Al Qaeda. Apesar de Mali não contar com uma frota de helicópteros eficaz, por exemplo, o país poderia promover uma parceria de seus soldados com exércitos vizinhos melhor equipados, como o da Argélia, para combater uma ameaça comum.

"Se não ajudarmos esses países a trabalharem juntos, isto se torna um problema bem mais difícil", disse o tenente-coronel Jay Connors, o alto oficial das Forças Especiais Americanas em solo aqui durante o exercício.

Os oficiais americanos e malineses reconheceram que há outros obstáculos para superar. O Pentágono precisa explicar melhor o papel de seu novo Comando da África, criado em outubro para supervisionar as atividades militares no continente, e para afastar os temores de que os Estados Unidos estão militarizando sua política externa, disseram autoridades malinesas.

Os oficiais americanos disseram que sua estratégia é conter a ameaça da Al Qaeda e treinar os exércitos africanos, um processo que levará anos. Os programas de contraterrorismo não-militares estão apenas começando e é cedo demais para avaliar os resultados.

"Este é um esforço de longo prazo", disse Connors, 45 anos, um especialista em África de Burlington, Vermont, que fala francês e português. "Isso é um engatinhar, caminhar e correr. No momento, nós ainda estamos na fase de engatinhar." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h09

    0,32
    3,290
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h12

    -0,43
    62.982,40
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host