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15/12/2008

Antes do medo, houve irresponsabilidade

The New York Times
Ben Stein
Vamos ser claros. Não estamos numa depressão, e não estamos nem perto da dor e miséria da Grande Depressão.

No pior momento daquela época, o desemprego estava próximo de 25% - e normalmente havia apenas uma pessoa empregada por família. A taxa de desemprego atual é de 6,7%, ainda bem abaixo dos níveis da recessão do início dos anos 80. Os aeroportos continuam movimentados, e apesar de aviões menores e vôos menos freqüentes, ainda é quase impossível embarcar. E para os consumidores, a inflação não desapareceu: os mercados estão absurdamente caros.

Mesmo assim, a vida está diferente agora. Desde a experiência maluca de deixar o Lehman Brothers falir, há um novo sentimento no país - o medo - numa escala que eu nunca havia vivenciado. Um medo paralisante, até os ossos. Medo de que não haja um fim para os nossos problemas, de que entramos nessa confusão de uma maneira misteriosa que não compreendemos, e de que ninguém sabe como sair dela.

Vejo esse medo de várias formas: amigos ricos que investiam em fundos privados agora estão vendo toda a máquina de riquezas trabalhar ao contrário, devorando suas economias. Um amigo do ramo imobiliário na Califórnia escreveu-me dizendo que "a recessão destruiu nossa riqueza", acrescentando: "estamos essencialmente falidos".

Vejo ainda mais sinais sinistros. A casa na frente da nossa em Beverly Hills foi vendida há dois anos e colocada abaixo para dar lugar a uma casa duas vezes maior; o terreno está vazio e novamente à venda.

O jovem mais esperto que conheço, um dos primeiros alunos de uma escola importante e prestigiada de direito, não consegue emprego. Há dois anos, ele teria recebido 20 ofertas de trabalho. Eu sei que estou falando de uma fina camada próxima ao topo. Estou falando sobre o que eu vejo. Eu sei que as condições são muito, muito piores para muitos trabalhadores na região de Detroit.

Quando isso vai acabar? Os negócios são como o sexo. Ambos são melhores quando os envolvidos estão confiantes. Mas no mundo dos negócios, a confiança foi destruída pelos princípios de reajuste da contabilidade que fazem com que instituições financeiras saudáveis pareçam frágeis ou mortas, e pelo uso de derivativos para aumentar as apostas irresponsáveis em arriscadas hipotecas subprime. Essas perdas foram devastadoras para os bancos e outras financiadoras.

Como isso aconteceu? Simplificando, as financiadoras emprestaram dinheiro de forma totalmente irresponsável e fizeram apostas incrivelmente arriscadas. E as apostas faliram.

Agora as financiadoras temem que seus empréstimos se saiam mal. Elas estão temerosas de que o governo não saiba o que está fazendo. Estão temerosas de que, a qualquer momento, um vice-presidente de contabilidade apareça e diga: "Ei, nós não sabíamos, mas tínhamos uma parte desse empréstimo e com os reajustes tivemos uma perda de um bilhão de dólares".

Então, elas não emprestam mais. E as pessoas não conseguem comprar carros e casas. A concessionária do meu Cadillac aqui no deserto, próxima a Palm Springs, está restrita pela crise do crédito, assim como muitas outras concessionárias. Não conseguimos fornecer financiamento direto para automóveis. Como a GM pode sobreviver se as suas concessionárias não conseguem financiar carros? E algumas companhias não conseguem comprar maquinários ou nem mesmo pagar sua folha.

Há um aforismo maravilhoso que diz que se um peixe pudesse pensar, a última coisa sobre a qual pensaria seria a água. Ele vê a água como algo garantido. Da mesma forma, nós americanos, víamos o crédito como algo garantido - e agora ele desapareceu para muitas pessoas.

Agora ele só pode vir de um lugar: do governo federal, que tem de garantir os empréstimos feitos pelas financiadoras, restaurar completamente os cofres dos bancos, inundar a sociedade de liquidez e criar tanto dinheiro que será necessário emprestá-lo.

É claro, isso implicará a criação da próxima bolha de crédito. Mas não há nada a se fazer. Talvez Barack Obama possa estabelecer alguma regulação significativa quando se tornar presidente. Talvez ele possa convencer o Congresso a revogar o Private Securities Litigation Reform Act e colocar o setor privado novamente sob supervisão. Talvez possamos ter um Fed [banco central dos EUA] mais vigilante.

Mas sem uma ação drástica do governo em relação ao crédito nesse momento e um resgate da indústria de automóveis, poderíamos ter uma grande deflação, levando à depressão. Rezo para que isso não aconteça.

Não é uma época para timidez por parte do governo. Podemos deixar a discussão sobre pureza ideológica para os pesquisadores. Nesse momento, as pessoas de verdade precisam de ajuda. Depressões trazem dias de medo opressores e miseráveis. O momento de evitar que ela chegue é agora. Dia 20 de janeiro pode ser tarde demais.

Ben Stein é advogado, escritor, ator e economista. Eloise De Vylder

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