UOL Notícias Internacional
 

16/12/2008

No protesto do arremesso de sapato, os árabes encontram um herói. (E não é Bush.)

The New York Times
Timothy Williams e Abeer Mohammed
Em Bagdá
Chamar alguém de "filho de um sapato" é um dos piores insultos no Iraque. Mas o modelo de sapato e o iraquiano que atirou os seus dois contra o presidente George W. Bush, com pontaria admirada, foram abraçados pelo mundo árabe na segunda-feira como símbolos da raiva contra uma guerra ainda impopular.

Na Arábia Saudita, um jornal noticiou que um homem ofereceu US$ 10 milhões pela compra de pelo menos um calçado daquele que certamente se tornará o par de sapatos pretos mais famoso do mundo.

Uma filha do líder líbio Muammar Gaddafi teria concedido ao arremessador de sapato, Muntader al Zaidi, um jornalista de 29 anos, uma medalha de coragem.

No bairro de Bagdá de Sadr City, pessoas pedindo pela retirada imediata dos americanos removeram seus calçados e colocaram os sapatos e sandálias na ponta de longas varas, os acenando no alto. E em Najaf, uma cidade no sul do Iraque, as pessoas arremessaram seus sapatos contra um comboio americano de passagem.

Nas conversas de rua, na televisão e nas salas de bate-papo na Internet, o assunto dos sapatos era inevitável em grande parte do Oriente Médio na segunda-feira, assim como o ato desafiador que inspirou o interesse: uma manifestação imensa e espontânea de raiva contra o presidente Bush, no domingo, em sua última visita ao país. Alguns condenaram o ato de Al Zaidi como uma falta de respeito ou da tradicional hospitalidade árabe, mesmo que compartilhassem o sentimento. (Bush, após exibir seus rápidos reflexos, minimizou o caso como sendo uma expressão da democracia.)

"Apesar da ação não ter sido expressada de forma civilizada, ela mostrou os sentimentos iraquianos, que são contrários à ocupação americana", disse Qutaiba Rajaa, um médico de 58 anos de Samarra, uma fortaleza sunita ao norte de Bagdá.

Mas um número muito maior expressou um claro prazer. "Eu juro por Deus que todos os diferentes iraquianos estão contentes com este ato", disse Yaareb Yousif Matti, um professor de 45 anos de Mosul, no norte do Iraque.

Al Zaidi, que permanecia sob custódia na segunda-feira, forneceu um raro momento de unidade em uma região freqüentemente em conflito consigo mesma. A satisfação, mesmo que levemente velada, podia ser percebida em grande parte das reportagens, especialmente em lugares onde o sentimento antiamericano é profundo.

Na Síria, a foto de Al Zaidi foi exibida o dia todo na emissora estatal de televisão, com os sírios telefonando para compartilhar sua admiração por seu gesto e sua bravura. No centro de Demasco, uma enorme faixa foi pendurada em uma rua, dizendo: "Ó, heróico jornalista, muito obrigado pelo que você fez".

No Líbano, as reações variaram de acordo com a filiação política, mas a curiosidade em torno do episódio foi universal.

Um visitante americano a uma escola em um bairro no sul de Beirute, onde o grupo militante xiita Hizbollah é popular, foi coberto de perguntas tanto de professores quanto alunos, que queriam saber como os americanos encararam o insulto.

"Não se fala em outra coisa", disse Ibrahim Mousawi, um analista político e jornalista de Beirute afiliado ao Hizbollah. "Todos estão orgulhosos desse homem, e dizem que ele o fez em nosso nome."

O momento mítico instantâneo ocorreu na noite de domingo, durante uma coletiva de imprensa conjunta do presidente Bush e do primeiro-ministro Nouri Al Maliki, em um prédio na Zona Verde de Bagdá, no Iraque, uma sessão que visava em parte promover os ganhos em segurança obtidos no Iraque nos últimos meses.

Enquanto Bush estava falando, Al Zaidi se levantou abruptamente, a cerca de 3,5 metros de distância, e arremessou seu sapato com o braço direito contra a cabeça do presidente enquanto gritava em árabe: "Este é um presente dos iraquianos; este é seu beijo de despedida, cachorro!"

Bush se esquivou habilmente e o sapato passou raspando. Poucos segundos depois, o jornalista arremessou o outro, novamente com grande força, gritando desta vez: "Este é das viúvas, órfãos e aqueles que foram mortos no Iraque!"

De novo, o sapato passou sobre a cabeça do presidente.

Al Zaidi foi contido por um colega jornalista e então espancado por membros do destacamento de segurança do primeiro-ministro, que o arrastaram de meias brancas para fora da sala. Os gritos de Al Zaidi em uma sala próxima podiam ser ouvidos enquanto a coletiva de imprensa prosseguia.

Vários iraquianos disseram ter ficado consternados com o que Al Zaidi fez. Ahmed Abu Risha, o chefe do Conselho Sahwa na província de Anbar, um grupo de líderes tribais locais que iniciou uma onda de oposição popular aos combatentes associados à Al Qaeda, condenou o ato.

"O presidente americano é o convidado de todos os iraquianos", ele disse. "O governo iraquiano precisa escolher bons jornalistas para participarem dessas conferências."

Al Zaidi, que não foi acusado formalmente, pode enfrentar até sete anos de prisão por cometer um ato de agressão contra um chefe de Estado visitante. Não se sabe se sua popularidade poderia levar o governo de Al Maliki a aliviar sua punição.

Uma declaração do governo de Al Maliki descreveu o arremesso de sapato como um "ato vergonhoso, selvagem, não relacionado de modo nenhum a jornalismo". Ele pediu à "Al Baghdadia", a rede de televisão por satélite com sede no Cairo para a qual Al Zaidi trabalha, que peça desculpas publicamente.

Mas até a noite de segunda-feira, nenhum pedido de desculpas foi apresentado pela emissora. Em vez disso, ela manteve uma imagem de Al Zaidi no canto da tela durante grande parte do dia. Quando os telespectadores foram convidados a telefonar, a grande maioria aprovou seu ato.

Durante uma entrevista em Sadr City, um irmão de Al Zaidi, Maythem Al Zaidi, 28 anos, disse que Muntader recebeu ofertas de representação legal gratuita por mais de 100 advogados de todas as partes do mundo, incluindo um que representou Saddam Hussein, o líder iraquiano executado.

Ele mencionou que seu irmão foi detido por várias horas neste ano pelos militares americanos, mas ele o descreveu como apolítico e disse que o ato foi espontâneo.

"Eu tenho orgulho do meu irmão, como todos os iraquianos deveriam", ele disse.

Mas Saif al Deen, um revisor de matérias de 25 anos da emissora de televisão, disse que Al Zaidi vinha planejando algum tipo de protesto contra Bush há quase um ano.

"Eu me lembro que no final de 2007", disse Deen, "ele me disse: 'você vai ver como vou me vingar daquele criminoso do Bush do meu modo pessoal, pelos crimes que ele cometeu contra iraquianos inocentes".

Deen disse que, na época, tentou dissuadir seu amigo de fazer qualquer coisa, mas que Al Zaidi "insistiu que o faria".

O status de herói de Al Zaidi continuava crescendo na segunda-feira.

Em Damasco, um lojista de 34 anos, que deu seu nome apenas como Mohammed, disse que estava indo celebrar o incidente do arremesso de sapato com amigos.

"Isto é como um feriado", ele disse. "É o que precisávamos como vingança." George El Khouri Andolfato

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