UOL Notícias Internacional
 

17/12/2008

Rússia concede verniz democrático a seus amigos

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Zhodino (Belarus)
O monitor eleitoral começou a trabalhar no dia da eleição na seção eleitoral Nº 7 daqui. "Dúvidas? Infrações?" ele perguntou aos mesários, olhando ao redor como um visitante casual. Eles disseram não, então ele partiu.

Kholnazar Makhmadaliyev, o monitor, passava de um local de votação ("E aí? Tudo bem?") para outro ("Está tudo bem aqui?"), apertando muitas mãos, oferecendo elogios abundantes e bebendo conhaque com o prefeito desta cidade.

Assim prosseguiu a tarefa de Makhmadaliyev em grande missão de observação liderada pelo Kremlin, que concluiu que Belarus, uma ex-república soviética e uma aliada da Rússia, conduziu uma eleição parlamentar "livre, aberta e democrática" no final de setembro.

A versão da realidade oferecida pelos monitores do Kremlin, entretanto, entrava em choque com a descrita por um grupo de segurança europeu, cujos monitores criticaram a eleição como uma fraude, repleta de falhas, inclusive manipulação de votos.

Os monitores enviados pelo Kremlin não informaram nada assim. Nem levantaram preocupações a respeito do serviço de segurança de Belarus, ainda chamado de KGB, que exerceu uma dura pressão sobre a oposição, aprisionando vários de seus líderes ao longo do ano passado e impedindo suas campanhas. Ou sobre os programas da televisão estatal rotulando repetidamente os líderes da oposição como traidores.

Ou os resultados finais: a conquista de cada uma das 110 cadeiras do Parlamento por candidatos que apóiam o presidente Aleksandr G. Lukashenko, freqüentemente descrito como o último ditador da Europa.

O Kremlin sob Vladimir V. Putin tem buscado reforçar os governos autoritários na região que permanecem leais a ele, e essas equipes de monitores eleitorais -400 homens apenas em Belarus - são uma de suas inovações mais recentes. Eles demonstram até onde o Kremlin irá para criar a ilusão de liberdade política na Rússia e outras ex-repúblicas soviéticas, apesar de suas estruturas democráticas terem sido esvaziadas.

Os monitores exercem um papel crítico na criação de um verniz democrático, dando solenemente suas avaliações e relatórios formais sob medida, que então são promovidas pela mídia controlada pelo governo. Eles também fornecem um contrapeso para os observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (Osce), que denunciam consistentemente essas mesmas eleições.

A meta do Kremlin é convencer o público - e talvez até mesmo os estrangeiros- que esses governos são legalmente eleitos e representativos da vontade popular.

"Esses monitores realmente ilustram o que está acontecendo no espaço pós-soviético", disse Andrei Sannikov, um organizador do Belarus Europeu, um movimento de oposição. "Os monitores dão sua bênção a tudo - na Rússia, Belarus, Cazaquistão, lugares onde sabemos que há eleições reais. Esses líderes querem ser aceitos e vistos como realmente democráticos, apesar não terem se reformado nem mudado. Eles querem se apresentar como iguais ao presidente americano."

No final, disse Sannikov, "eles querem algum tipo de legitimidade, especialmente aos olhos do Ocidente".

Um contra-ataque do Kremlin

A ascensão desses monitores paralelos pode ser rastreada em parte à eleição presidencial russa em março de 2004. Putin conquistou um segundo mandato por margem elevada, mas com uma grande mancha: os observadores da Osce avaliaram a eleição como longe de democrática. Isso parece ter levado o Kremlin a um contra-ataque.

A Rússia deu início a uma campanha para minar os monitores do grupo, que é uma aliança de mais de 50 países que inclui a Rússia e outras ex-repúblicas soviéticas.

A Comunidade dos Estados Independentes, que já enviava missões informais de monitoramento, adotou uma política formal de fazê-lo, disseram as autoridades.

As missões agora são supervisionadas por um ex-diretor do serviço de inteligência estrangeira da Rússia, o general Sergei N. Lebedev, que Putin nomeou como secretário executivo da comunidade no ano passado. Lebedev disse em uma entrevista que o Ocidente aplica dois pesos e duas medidas, fiscalizando as eleições na antiga União Soviética de forma bem mais rigorosa do que a de outros lugares.

"Nós temos um princípio - o principal - que é avaliar objetivamente a situação, e não interferir nos assuntos internos", ele disse. "Nós não podemos avaliar o sistema político de um país. Nossa meta principal é não encontrar falhas."

Putin, o atual primeiro-ministro e ex-presidente, e seus assessores ultimamente provocaram ainda mais hostilidade com a Osce, pedindo por cortes drásticos em suas equipes de monitoramento. Eles também impuseram tamanhas restrições às atividades do grupo que ela se recusou a monitorar a eleição presidencial russa em março de 2008.

(Os monitores do Kremlin o fizeram - e não encontraram nenhum problema.)

No final, os monitores do Kremlin em Belarus pareceram exercer o papel previsto para eles: ajudar a neutralizar as descobertas negativas dos monitores ocidentais.

Como Lidia M. Yermoshina, presidente da comissão eleitoral central de Belarus, colocou: "Se você se guiar apenas pelo relatório da Osce, você pode se desesperar. É preciso de algo com que se alegrar".

Lukashenko convidou os monitores ocidentais porque disse que estava confiante de que eles endossariam a eleição e esperava por melhores relações com o Ocidente, que impôs duras sanções a Belarus após a prisão de líderes da oposição em 2006.

Mas os monitores ocidentais foram duros em suas críticas, de forma que não causou surpresa o fato do noticiário da televisão estatal ter se concentrado principalmente nas equipes do Kremlin.

Até mesmo Makhmadaliyev, o monitor do Kremlin em Zhodino, apareceu na televisão.

"Nas seções eleitorais, nós notamos o bom humor entre as pessoas", disse Makhmadaliyev ao repórter. "Elas estão vindo eleger aqueles que mais merecem."

Após isso, ele partiu para sua próxima parada, passando por uma grande cédula de amostra que direcionava as pessoas a votarem no candidato de Lukashenko. George El Khouri Andolfato

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