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17/12/2008

Usando barcos de fibra de vidro, piratas somalis driblam navios de guerra

The New York Times
Jeffrey Gettleman
No Mar Arábico
O almirante Giovanni Gumiero está saindo em uma missão de caça a piratas.

Do convés de um destróier italiano que cruza as águas infestadas de piratas ao largo da costa da Somália, ele tem todos os instrumentos modernos à sua disposição - radar, sonar, câmeras de infravermelho, helicópteros, um canhão capaz de afundar um navio a 16 quilômetros de distância - para fazer frente a um problema que existe há séculos, e que remonta aos dias dos escaleres e tapa-olhos.

"A nossa presença deterá a ação deles", diz o almirante com confiança.

Mas os ardilosos bucaneiros dos mares da Somália não parecem sentir-se exatamente intimidados - ao contrário, tem-se a impressão de que eles só têm ficado mais espertos. Mais de dez belonaves da Itália, da Grécia, da Turquia, da Índia, da Dinamarca, da Arábia Saudita, da França, da Rússia, do Reino Unido, da Malásia e dos Estados Unidos participam da caçada.

E, mesmo assim, apenas nos últimos dois meses os piratas atacaram mais de 30 embarcações, driblando as patrulhas navais, atuando mais longe da costa e procurando presas maiores e mais lucrativas, incluindo um navio de cruzeiro norte-americano e um super-petroleiro saudita de 300 metros de comprimento.

Os piratas estão ajustando as suas táticas, atacando os navios com 20 a 30 barcos de madeira, como se fossem um enxame de abelhas, e ameaçando estrangular uma das mais movimentadas rotas de navegação do mundo, na entrada do Mar Vermelho.

Recentemente, autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU) calcularam que os piratas somalis embolsaram neste ano algo como US$ 120 milhões em pagamentos de resgates - uma soma astronômica para um país cuja economia foi destroçada por 17 anos de caos e guerra. Atualmente, algumas companhias de navegação estão modificando as rotas das suas embarcações a fim de evitar as águas da Somália, fazendo desvios de milhares de quilômetros em torno do Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.

O poder de fogo dos navios de guerra supera totalmente o dos piratas. Eles continuam navegando em barcos de fibra de vidro, e usam como armamentos fuzis de assalto e, quando muito, uns poucos lança-granadas-foguete (RPG). Um oficial italiano disse que persegui-los com um destróier de 150 metros e comprimento, repleto de mísseis terra-ar e torpedos, é como "perseguir com um caminhão uma pessoa que está de bicicleta".

Mas os piratas - fazendo jus à fama - não se mostram intimidados.

"Eles não são capazes de nos deter", afirmou Jama Ali, um dos piratas a bordo de um cargueiro ucraniano carregado de armamentos, que foi seqüestrado em setembro último e que encontra-se ainda em poder dos piratas.

Ele explicou como ele e os seus homens escondem-se atrás de uma rocha próxima à entrada do Mar Vermelho, e esperam que os grandes navios cinzentos armados passem, para só então atacar os lentos navios-tanques. Ainda que as belonaves estrangeiras capturem alguns membros da sua tripulação, Jama garante que não está preocupado. Ele afirma que os seus homens provavelmente receberiam como punição máxima uma carona gratuita de volta à praia, algo que já aconteceu diversas vezes.

"Nós conhecemos a lei internacional", afirma Jama.

Os diplomatas ocidentais dizem que a lei marítima pode tornar-se tão turva quanto as águas de certos mares. Em várias ocasiões neste ano a marinha dinamarquesa capturou homens suspeitos de serem piratas, apenas para desembarcá-los na costa depois que o governo dinamarquês decidiu que não tinha jurisdição para resolver o problema.

Os navios de guerra norte-americanos que cercam o cargueiro ucraniano seqüestrado interceptaram vários barcos pequenos que seguiam para o navio, mas deixaram os homens embarcar porque as autoridades dos Estados Unidos não desejavam colocar a tripulação seqüestrada em perigo.

A aparente impunidade enfurece especialmente um novo grupo de guardas de segurança particulares, que acabaram de atuar nos campos de batalha do Iraque e do Afeganistão, e que são contratados para conferir uma proteção à mais aos navios mercantes. Homens corpulentos de braços tatuados e cabeças raspadas tomando cerveja Heineken e conferindo a hora nos seus relógios são atualmente vistos com freqüência nas praias de Omã, Quênia e Djibuti. Eles têm idéias próprias a respeito de como lidar com os bandidos do mar.

"Devemos obrigá-los a andar na prancha", diz um guarda de segurança britânico.

Apesar da retórica dura, os guardas atuam desarmados (já que a maioria dos países não permite que eles tragam armas para os portos), de forma que são obrigados a enfrentar com mangueiras d'água piratas que portam metralhadoras.

Ou pior. Houve até um caso recente, segundo vários seguranças contratados, no qual membros de uma tripulação filipina jogaram tomates contra os piratas, em uma tentativa de impedir que eles escalassem o casco do navio. A tática não funcionou.

Os oficiais navais italianos dizem que as patrulhas anti-pirataria têm ajudado - os italianos já salvaram vários navios mercantes rodeados por barcos piratas. O destróier italiano faz parte de uma missão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que teve início em outubro.

"Mas a solução é contar com um governo bom e forte em terra", afirma Gumiero. "Não há dúvida de que esta é a única maneira de acabar com tal situação".

Mas um governo forte é algo que não existe na Somália. A epidemia de piratas não é um problema isolado, mas sim um sintoma do Estado fracassado da Somália -, um lugar repleto de armas, quadrilhas e criminosos, e que desde 1991 não conta com um governo central em funcionamento.

Muitos analistas dizem que a situação pode ficar ainda pior. As forças armadas etíopes, que têm sustentado um fraco e impopular governo de transição somali, diz que sairá do país dentro de um mês.

E o governo de transição, dividido por lutas selvagens, parece estar à beira do colapso. Militantes islâmicos com vínculos com a Al Qaeda poderão tomar o poder. A fome já está começando a atingir milhões de pessoas, muitas delas vivendo em tendas de plástico que não oferecem proteção contra o sol intenso ou as chuvas torrenciais.

As autoridades da ONU começam a adotar uma linha de atuação de crise, convocando reuniões de alto nível no Leste da África e em Nova York para discutir o problema dos piratas e a confusão da Somália, que é um problema ainda maior. Algumas autoridades da ONU defendem o envio de forças de paz ao país, mas nenhuma nação tem se prontificado a oferecer tropas.

Algumas autoridades norte-americanas sugeriram que os piratas sejam perseguidos até a costa, e os seus esconderijos sejam atacados. Até agora sabe-se muito bem onde ficam esses esconderijos, mas eles continuam intocados. Os líderes de transição somalis, ansiosos por qualquer ajuda, disseram que receberiam bem tais ações.

"Isso é um câncer, e está crescendo", diz Abdi Awaleh Jama, embaixador do governo federal de transição. "Temos que extirpá-lo definitivamente".

Em 2008, mais de cem navios foram atacados ao largo da costa da Somália, um número bem maior do que em qualquer outro ano. Os prejuízos econômicos acumulam-se, com seguros mais altos para as companhias de navegação, maiores custos com combustível devido aos desvios e novas despesas com segurança particular, isso para não mencionar os pagamentos de resgates multimilionários.

O governo egípcio, carente de verbas, poderá perder bilhões de dólares caso os navios do Oriente Médio e da Ásia deixem de usar o Canal de Suez, uma das maiores fontes de moeda estrangeira do governo egípcio.

Mas o fim da pirataria poderia ser uma catástrofe econômica - para muitos somalis. Hoje em dia o país não exporta quase nada, e as formas mais legítimas de negócio praticamente desapareceram.

Atualmente, clãs e vilas costeiras vivem da pirataria. As mulheres preparam pão para os piratas, homens e garotos fazem a guarda dos reféns, e outros atuam como batedores, pistoleiros, mecânicos, contadores e construtores de embarcações. Os comerciantes lucram bastante com a água, o combustível e os cigarros necessários para tais viagens oceânicas.

Os piratas são conhecidos na Somália como os melhores fregueses.

"Eles pagam US$ 20 por um frasco de perfume de US$ 5", diz Leyla Ahmed, uma comerciante de Xarardheere, um notário reduto de piratas na costa somali.

Especialistas em assuntos marítimos dizem que as operações navais levarão tempo. "É esperar e ver", diz Pottengal Mukundan, diretor do Birô Marítimo Internacional, em Londres. "É preciso que se leve em conta que aquela é uma grande área aquática", diz ele, referindo-se às várias centenas de milhares de quilômetros quadrados que atualmente são patrulhados por navios de guerra.

Além do mais, há a questão espinhosa referente ao que fazer com os piratas. Os oficiais italianos que integram as patrulhas anti-pirataria parecem desconfortáveis com a idéia de capturar de fato um pirata real vivo. Não existe sequer um aposento para prender piratas no destróier.

"O nosso principal objetivo é proporcionar uma passagem segura por essas águas", diz Fabrizio Simoncini, o capitão do destróier.

Até o momento, eles têm feito um trabalho decente neste aspecto, escoltando pelo menos oito navios humanitários com 30 mil toneladas de auxílio do qual a Somália necessita desesperadamente.

Recentemente, a marinha indiana anunciou ter prendido 23 piratas, embora não se saiba quantos dos suspeitos serão levados à justiça. Na semana passada, em Nairóbi, no Quênia, em uma conferência anti-pirataria, autoridades britânicas traçaram um plano para que a marinha capture piratas somalis e entregue-os aos tribunais quenianos.

Mas, segundo Kenneth Randall, reitor da Escola de Direito da Universidade do Alabama e especialista em direito internacional, "Qualquer país pode prender esses elementos e julgá-los no próprio território, segundo as leis nacionais aplicáveis. Estou de fato surpreso por as pessoas acharem que os fatos não são claros. A lei sobre pirataria é 100% clara", garante Randall.

Segundo ele, a lei internacional que tem centenas de anos define piratas como sendo criminosos que roubam no alto-mar. De acordo com Randall, como os crimes são cometidos em águas internacionais, todos os países têm não só a autoridade, mas também a obrigação, de apreender e julgar os piratas.

Os italianos dispõe nitidamente dos recursos. Na proa e nas amuradas, marinheiros italianos fortes patrulham o convés com metralhadoras. As telas de radar emitem sons e imagens. Os marinheiros falam ao rádio do destróier, instruindo os navios de carga próximos a enviar um SOS com as suas posições assim que avistem embarcações piratas.

Os italianos dizem que, no fundo, os piratas são criaturas do mar, não importa quantos navios de guerra os persigam. "Quando o mar está calmo, a lua brilhante e o tempo bom, é fácil perceber como os piratas sentem-se encorajados", diz Enrico Vignola, um tenente do navio.

O melhor momento para os visitantes do navio é o almoço. Os oficiais oferecem um banquete à base de massas caseiras, fatias finíssimas de berinjela condimentada, tâmaras enroladas em prosciutto e tiramisu, tudo regado a taças geladas de champanhe.

Ao que parece, quando os italianos caçam piratas, eles fazem isto com estilo. UOL

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