UOL Notícias Internacional
 

18/12/2008

Em uma operação extensa e complicada, um rosto é refeito

The New York Times
Lawrence K. Altman
Em Cleveland
Apenas a testa, pálpebras superiores, lábio inferior, arcada dentária inferior e maxilar são dela. O restante de seu rosto veio de um cadáver.

Em uma operação que levou 23 horas, cirurgiões de transplante deram um rosto quase que totalmente novo para uma mulher com danos faciais tão severos que ela não podia comer por conta própria nem respirar sem um buraco em uma traquéia, disseram médicos da Cleveland Clinic aqui, na quarta-feira.

O procedimento altamente experimental, realizado nas duas últimas semanas, foi o quarto transplante parcial de face do mundo, o primeiro do país, e a operação do gênero mais extensa e complicada até o momento. A dra. Maria Siemionow liderou a equipe cirúrgica, que se revezou na mesa de operação para que os médicos pudessem descansar, dormir e compartilhar sua perícia.

A identidade da mulher não foi revelada, nem a causa de seu ferimento ou a identidade do doador.

No final espera-se que a mulher possa comer, falar e respirar normalmente, até mesmo recuperar o olfato, disseram seus médicos em uma coletiva de imprensa. A sensação deverá retornar ao seu rosto em seis meses, e a maioria das funções faciais em aproximadamente um ano, levando à capacidade de sorrir após uma fisioterapia para ajudar a treinar os músculos para essa função.

Mas como a estrutura facial varia entre as pessoas, a mulher não deverá se parecer com sua doadora, disseram os médicos.

A mulher precisará tomar medicamentos anti-rejeição pelo resto de sua vida, mas as drogas não garantem o sucesso. Apesar de reações de rejeição parecerem mais comuns nos primeiros meses, elas podem ocorrer a qualquer momento. Os médicos freqüentemente podem reverter essas reações ajustando o regime de medicamentos.

A mulher já superou o primeiro obstáculo: ela não rejeitou o novo rosto. Os médicos disseram que ela está passando bem, mas enfatizaram que não podem prever o futuro, já que ela enfrenta complicações potenciais, como infecções e cânceres resultantes do tratamento imunossupressor.

A equipe da clínica disse que se o transplante vier a fracassar, ele seria substituído por um enxerto extraído de partes do corpo da mulher.

A mulher precisou do transplante devido à severa perda funcional causada pelo trauma. Ela só podia respirar por meio de um buraco em sua traquéia, por causa das cicatrizes do trauma e das cirurgias reconstrutoras anteriores.

Os cirurgiões realizaram múltiplos procedimentos reconstrutivos ao longo dos vários anos em que a mulher esteve sob cuidado deles, disseram os médicos, acrescentando que ficaram sem opções de tratamento convencionais para restaurar sua função facial.

"Nossa paciente era xingada e humilhada", disse Siemionow. "Crianças fugiam correndo."

Ela acrescentou: "Você precisa de um rosto para enfrentar o mundo". A operação foi terrivelmente complexa, disseram os médicos. Eles tiveram que integrar componentes funcionais como um nariz e as pálpebras inferiores, assim como tipos diferentes de tecidos, incluindo pele, músculos, estruturas ósseas, artérias, veias e nervos. Aproximadamente 496 centímetros quadrados de tecido foram transplantados da doadora.

"Esta não é uma cirurgia cosmética em qualquer sentido convencional", disse o dr. Eric Kodish, presidente do departamento de bioética da clínica, que fez parte da equipe que entrevistou e avaliou a compreensão pela paciente dos riscos do procedimento experimental.

Kodish disse que em um teste psicológico, foram feitas a ela perguntas como estas: é você ou outra pessoa na sua família que deseja que você receba um transplante facial? Como você se sente a respeito da perspectiva de viver com o rosto de uma pessoa morta?

Segundo as instruções científicas da clínica, disse Kodish, a paciente não foi autorizada a ver uma foto da doadora, em parte porque poderia levá-la a acreditar que se pareceria com a doadora.

O trauma custou à mulher a visão de seu olho direito, e a visão do olho esquerdo está comprometida. Antes do transplante, ela não conseguia distinguir os rostos de seus médicos.

Ao despertar da sedação pesada, o dr. Chad Gordon, um cirurgião plástico, disse que ela fez um sinal positivo com os polegares quando perguntada sobre como estava se sentindo. Enquanto se recupera na clínica, ela se comunica principalmente por meio da escrita.

Siemionow disse: "Eu tenho que dizer para vocês quão feliz ela ficou quando pôde passar ambas as mãos pelo rosto e sentir que tinha um nariz, sentir que tinha um maxilar".

Natural da Polônia, Siemionow, 58 anos, disse que começou a se preparar para o transplante facial há 20 anos. Sua pesquisa envolveu transplantes em animais e cadáveres e preocupações éticas.

Ao longo do caminho, o Royal College of Surgeons na Inglaterra, em 2003, e um comitê ético na França, em 2004, disseram em relatórios que os riscos da cirurgia ultrapassavam demais os benefícios naquela época. (Os britânicos atualmente estariam mais permissivos.)

Mas no final de 2004, um comitê de revisão institucional da Cleveland Clinic disse que um transplante facial era ético e possível, aprovando as instruções científicas de Siemionow para o procedimento experimental. Foi a primeira vez no mundo que um comitê de ética concedeu essa permissão.

Eticistas médicos disseram na quarta-feira que em uma cirurgia de transplante facial os riscos e benefícios ao paciente devem ser pesados cuidadosamente.

"Sem minimizar as dificuldades de sofrer uma desfiguração facial, mas uma pessoa pode viver uma vida longa e ser desfigurada", disse Stuart G. Finder, diretor do Centro para Ética no Atendimento de Saúde do Centro Médico Cedars-Sinai, em Los Angeles.

Mas os benefícios de um transplante de face não são apenas cosméticos, disse Finder, acrescentando: "A reparação da face pode ter conseqüências sociais significativas - como a capacidade de falar, ou a capacidade de comer, que podem ser recuperadas apenas por dispor de lábios".

No final de novembro de 2005, os cirurgiões realizaram o primeiro transplante parcial de face do mundo, em Amiens, França, em Isabelle Dinoire, 38 anos, que foi seriamente desfigurada por seu cão de caça labrador. Enquanto isso, Siemionow trabalhava com organizações de coleta de órgãos e tecidos para ajudar a encontrar um doador e entrevistava pacientes que contataram a Cleveland Clinic à procura de transplante facial. Ela disse que não recrutou pacientes para o transplante.

Um grande obstáculo foi encontrar doadores cujo sexo, raça, idade e tipo sangüíneo casassem com os dos recebedores potenciais. Procedimentos específicos de consentimento foram desenvolvidos.

Há cerca de quatro meses, a clínica fez um anúncio pedindo por doador porque os médicos tinham esgotado todas as outras opções de tratamento para a mulher. Quando o LifeBanc de Ohio identificou uma doadora, ele contatou Siemionow, que por sua vez contatou os outros membros da equipe de uma série de especialidades para colocar em ação o exercício bem-ensaiado.

O procedimento de transplante teve início às 17h30 de um dia recente não especificado, enquanto os médicos tentavam determinar que artérias e veias no pescoço da paciente, com cicatrizes do trauma e de cirurgias anteriores, poderiam receber o transplante.

Às 20 horas, os cirurgiões começaram a recuperar os tecidos faciais da doadora, dissecando cuidadosamente as artérias, nervos, tecido mole e ossos para assegurar uma boa irrigação sangüínea. Esse esforço levou nove horas e dez minutos.

Enquanto isso, os cirurgiões removiam os tecidos de cicatriz da mulher para abrir espaço para o enxerto facial.

Às 5h10 da manhã seguinte, os cirurgiões começaram a conectar os vasos sangüíneos da paciente aos vasos do enxerto. Quando o enxerto se tornou rosado e não mostrou sinais de rejeição imediata, eles prosseguiram na fixação do enxerto facial no rosto da mulher. Eles usaram microscópios para costurar artérias, veias e nervos do enxerto na cabeça da mulher. As orelhas e escalpo eram os próprios dela.

Às 16h30, a mulher tinha um novo rosto. George El Khouri Andolfato

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