UOL Notícias Internacional
 

18/12/2008

Uma cidade na Irlanda do Norte é um paraíso de consumo

The New York Times
Eamon Quinn
Em Newry (Irlanda do Norte)
Durante as décadas dos "Problemas" daqui, as longas filas de trânsito na fronteira irlandesa geralmente eram um sinal de que os militares britânicos estavam revistando os veículos estrada à frente. Mas atualmente as filas de veículos que deixam a estrada principal para o norte até esta cidade, dentro da Irlanda do Norte, não envolvem armas, mas manteiga: os consumidores do sul estão seguindo para o norte para gastar seus euros nos shopping centers e supermercados daqui.

Desde o estouro da crise financeira, o euro sofreu forte valorização frente à libra britânica, que circula na Irlanda do Norte, tornando os preços nas lojas do norte tão irresistíveis que os sulistas estão atravessando a fronteira em números recordes. Esta cidade pitoresca a 105 quilômetros ao norte de Dublin se tornou tão popular que emprestou seu nome ao fenômeno, o efeito Newry.

Newry sempre foi um centro comercial, mas desde o acordo de paz da Sexta-Feira Santa de 1998, que colocou fim a grande parte da violência, a cidade tem lucrado com sua localização, construindo vários shoppings centers. E com a desvalorização da libra, Newry se tornou o centro de compras mais badalado dentro das fronteiras abertas da União Européia, um local onde os consumidores armados com euros desfrutam de descontos que chegam em média a 30% ou mais.

Ao que parece, os únicos que se queixam do comércio além da fronteira são as autoridades políticas no sul economicamente carente, que lamentam a perda da receita do imposto sobre as vendas e questionam o "patriotismo" dos caçadores de pechinchas. O ministro das Finanças da Irlanda, Brian Lenihan, disse em uma recente entrevista na televisão irlandesa que ao comprarem na Irlanda do Norte, os sulistas estava "pagando os impostos de Sua Majestade" e não "pagando os impostos para o Estado em que vivem".

O paradoxo do questionamento do patriotismo pelos ministros irlandeses do principal partido político do governo, o Fianna Fail, que prega a unidade política e econômica irlandesa, não passou desapercebido para muitos no sul ou no norte. Em um recente domingo movimentado, patriotismo e consumo eram assuntos políticos quentes nos estacionamentos por toda Newry.

"Ainda é a Irlanda, é como eu vejo", disse Cerrie Byrne, uma professora de 24 anos do norte deDublin, que estava estacionando ao lado dos lotados shoppings de Newry. Considerações políticas a parte, Byrne esperava economizar mais de US$ 140 dos US$ 700 que ela e sua mãe pretendiam gastar em Newry.

Esvaziando um carrinho de compras de bebidas alcoólicas, ração para gato e um único pacote de batatas, Denis Connaughton, um carteiro de 59 anos que mora perto do aeroporto de Dublin, a cerca de uma hora de carro, desdenhou a conversa de patriotismo, dizendo que sua principal preocupação era com as multidões. "Disseram que ontem havia um congestionamento de mais de seis quilômetros", ele disse, falando sobre o trânsito. Ele acrescentou que os preços mais baixos fazem a irritação valer a pena.

Em alguns fins de semana os congestionamentos se estendem da colina até os amplos estacionamentos de Newry, do sul da principal estrada entre Dublin-Belfast até a bela travessia de fronteira em Ravensdale Glen. Ela antes era marcada por uma imensa base do exército britânico, que já foi desmontada para permitir um alargamento da estrada.

Newry, como muitas cidades de fronteira, passou por dificuldades durante os Problemas. A pequena cidade fica no fim do belo canal de Carlingford Lough, dominado de um lado pelas montanhas Mournes, que em uma famosa balada "deslizam para o mar". Do outro lado se erguem as Montanhas Cooley, que aparecem de forma central nas lendas celtas.

Mas a paisagem não está na mente dos motoristas, que circulam ao redor dos dois maiores shoppings em busca de vaga para estacionar. A maioria dos carros é do sul: um grande veículo com tração nas quatro rodas de um local a 48 quilômetros de distância está estacionado ao lado de carros de famílias de Dublin e dos condados ao redor, enquanto a grande van branca e o ônibus de turismo registrados em Monaghan, usados por turistas americanos no verão, evidentemente encontraram trabalho lucrativo fora da temporada.

No principal supermercado neste mês, as prateleiras estavam sendo esvaziadas. Os baldes dos agentes de caridade, que coletavam para uma banda marcial de uma cidade vizinha, estavam cheios principalmente de euros, não libras britânicas. Os compradores do sul realizam os cálculos para converter em euros os preços marcados em libras.

Uma recente pesquisa do varejo sugere que um entre quatro lares de condados tão distantes quanto Galway, no extremo oeste - na costa do Atlântico, a cerca de quatro horas de distância - compra hortifrutis no Norte da Irlanda. Para tornar a viagem ainda mais lucrativa para centenas de milhares de compradores do sul, os impostos sobre as vendas de alguns produtos foram reduzidos nas últimas semanas no norte, enquanto o governo em Dublin aumentou impostos sobre os produtos no sul.

Alan Trainor, 49 anos, um morador de Newry que trabalha no O'Neill's, uma loja de material esportivo que vende produtos da federação Gaelic Athletic Association, disse que algumas das camisas mais vendidas eram de condados como Kerry e Cork, no sul, e não de condados próximos, como Armagh ou Tyrone.

"Uma mulher me disse na semana passada que comprou uma garrafa de Bailey's Irish Cream por 9,95 euros em Newry", o equivalente a US$ 14,24, ele disse. "Ela me mostrou a garrafa que comprou em Cork, e custava 35 euros. Isso fala por si só. Ela percorria entre 650 e 800 quilômetros entre ida e volta. Deve valer a pena." George El Khouri Andolfato

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