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19/12/2008

China comemora reformas, mas riscos econômicos espreitam o país

The New York Times
Jim Yardley
Em Shenzhen (China)
O Partido Comunista organizou uma grande festa na quinta-feira (18/12), marcando o 30º aniversário da era de reformas que transformou a China em uma potência econômica global e que, com isso, modificou o mundo.

Em uma cerimônia triunfante no Grande Salão do Povo, em Pequim, o presidente Hu Jintao invocou Deng Xiaoping, que consolidou o poder em 1978 e deu início à política de "reforma e abertura". Hu enfatizou o foco constante do partido no desenvolvimento econômico. "Só o desenvolvimento faz sentido", afirmou Hu, citando Deng.

Mas, para além do campo da oratória, Hu e outros líderes chineses estão enfrentando agora uma nova era na qual o modelo econômico de Deng, baseado na exportação, e o seu controle político com mão de ferro enfrentam desafios sem precedentes. A demanda global por produtos chineses caiu, a intranqüilidade social aumenta no centro industrial do país e a China está lutando para encontrar uma nova fórmula que preserve a estabilidade e garanta o crescimento.

A alteração do quadro econômico é tão rápida - em novembro as exportações caíram pela primeira vez em sete anos - que Pequim está sendo obrigada a reavaliar abruptamente as suas prioridades. Até recentemente, Hu vinha tentando conter excessos como a poluição generalizada e a desigualdade econômica que representavam desafios ambientais e sociais ao desenvolvimento de longo prazo. Agora, essas prioridades parecem ter sido eclipsadas.

Em vez disso, os líderes estão reinstituindo as isenções tarifárias para os exportadores e reduzindo o valor da moeda chinesa para encorajar as exportações. Ao mesmo tempo, eles estão procurando maneiras de estimular a demanda doméstica e reduzir a dependência chinesa dos mercados estrangeiros que vêm sendo devastados pela crise financeira global.

Os reformistas chineses esperavam que o peso simbólico do aniversário da política de Deng e o brilho pós-olímpico do país pudessem estimular algum tipo de reforma política para combater a corrupção oficial e ajudar a reduzir as crescentes tensões sociais.

Mas, enquanto Pequim preocupa-se com greves e demissões em massa, até mesmo em algumas das suas áreas mais prósperas, a tolerância oficial em relação à dissidência política parece ter se reduzido. Neste mês, um dissidente famoso foi detido após ter redigido uma carta pedindo mais democracia. O editor de um dos principais jornais do país foi transferido de cargo após publicar artigos considerados politicamente provocadores.

"Precisamos nos aproximar dos benefícios da civilização política", disse Hu no seu discurso da quinta-feira, segundo a Reuters. "Mas jamais copiaremos o modelo do sistema político ocidental".

Se existe um lugar que simbolize a era de reformas na China, este lugar é Shenzhen, uma cidade concebida pela imaginação de Deng - e que agora está sofrendo particularmente com a crise econômica.

A comemoração política da quinta-feira foi marcada para coincidir com a data de uma reunião política de 1978, conhecida como Terceira Assembléia, que oficializou Deng como líder da Cina e introduziu a política de "reforma e abertura". Dois anos depois, Deng apontou para uma aldeia sonolenta de pescadores no litoral do sul da China, perto de Hong Kong, e ordenou que ela se tornasse a primeira "zona econômica especial" do país a fazer experiências com investimentos estrangeiros e manufaturas de exportação. Atualmente, Shenzhen é uma cidade de mais de dez milhões de habitantes cercada por milhares de fábricas.

Um distrito industrial próximo a Shenzhen, o Parque Industrial Fuqiao, é um retrato dos problemas econômicos que afligem a região. Várias pequenas fábricas do parque fecharam as portas nos últimos meses. Na Wang Jinda Industries, o nome da fábrica que adornava a entrada foi apagado depois que o diretor encerrou as atividades na semana passada. Dois clientes vieram até a fábrica para transportar produtos, apenas para encontrar as instalações vazias.

Enquanto isso, algumas fábricas que permaneceram abertas enfrentam dificuldades. Trabalhadores de uma fábrica de impressoras afirmaram que os gerentes pararam de recrutar novos funcionários em setembro, e que vários outros foram demitidos. Diversos funcionários dizem que os salários caíram significativamente, já que os gerentes reduziram a duração dos turnos. Alguns trabalhadores acusaram os gerentes de tentar deliberadamente reduzir os salários para obrigarem os funcionários a pedir demissão.

"Todos estão preocupados", diz Lin Baozeng, 26, que trabalha como caixa de uma cantina ao ar livre no parque industrial. O número de clientes da cantina, todos trabalhadores migrantes, caiu de 500 para 100.

"Se a situação da economia piorar, como conseguirei sustentar a minha filha?", pergunta Lin, enquanto a filha de três anos brinca ali perto.

Até o momento é difícil precisar a quantidade de fábricas que encerraram as atividades em Shenzhen e na vizinha província de Guangdong, o maior centro exportador do país. Guangdong já estava engajada em um esforço deliberado para elevar o valor dos produtos em um momento em que o crescimento dos custos trabalhistas e a maior regulação por parte do governo faziam com que algumas fábricas de exportação menores e mais baratas deixassem de dar lucros. Mas a recente queda das exportações está tendo um impacto que não fora antecipado. Mais de 7.000 fábricas de pequeno e médio porte fecharam as portas nos últimos meses. O prefeito de Shenzhen disse que, nos últimos meses, 50 mil pessoas perderam os empregos na cidade.

E há diversos sinais de que os problemas poderiam ser bem maiores. De forma geral, a economia da China continuará expandindo-se no ano que vem, mas alguns economistas dizem que o índice de crescimento pode cair para até 5% ou 6%, números bem menores do que os índices de dois dígitos registrados durante vários anos consecutivos.

A mídia estatal anunciou que 4,85 milhões de trabalhadores migrantes retornaram ao campo mais cedo, antes do feriado do Ano Novo Lunar, que será comemorado no próximo mês. Algumas províncias do interior já anunciaram subsídios para os trabalhadores desempregados que retornam. Na quinta-feira, a agência oficial de notícias do país, a Xinhua, anunciou que 6,5 milhões de trabalhadores migrantes poderão perder o emprego no ano que vem.

A resposta imediata da China é um grande programa de estímulo concentrado em projetos de infra-estrutura como ferrovias e portos. Os bancos estatais receberam ordens para facilitar o crédito, e nesta semana os impostos incidentes sobre imóveis empresariais foram abolidos para ajudar o combalido mercado imobiliário.

Tais medidas podem ser cruciais para fortalecer a economia chinesa e prevenir uma recessão global mais profunda. Mas as autoridades chinesas estão preocupadas com o impacto potencial de uma outra fase furiosa de desenvolvimento industrial capitaneado pelo Estado.

O programa governamental de estímulo baixado em resposta à crise financeira asiática de 1997-1998 permitiu à China evitar as recessões sofridas por outras nações vizinhas. Mas ele também estimulou investimentos enormes na indústria pesada, e este é um dos principais motivos pelos quais a China é atualmente a maior emissora mundial de gases causadores do efeito estufa.

Em um longo artigo de opinião na edição online do "People's Daily", Pan Yue, vice-ministro do Meio Ambiente, culpou os excessos do Ocidente pela crise global, e advertiu que a China corre o risco de se arruinar caso busque cegamente os modelos industriais ocidentais.

"A política de reforma e abertura da China obteve em 30 anos os ganhos econômicos de mais de cem anos no Ocidente. Porém, mais de cem anos de poluição ambiental no Ocidente materializaram-se na China em 30 anos", disse Pan. "A atual crise econômica global demonstra que se a China continuar seguindo a velha trilha da civilização industrial ocidental, só chegaremos a um beco sem saída".

Atualmente, a China é um lugar bem mais aberto e dinâmico do que o país no qual Deng interferiu pela primeira vez trinta anos atrás. Grande parte dessa mudança foi provocada por pessoas comuns procurando obter mais espaço na sociedade. Da mesma forma, uma boa parcela do sucesso econômico da China é derivado da energia empreendedora e do trabalho árduo da sua população.

Mas os líderes do Partido Comunista tem sido cauteloso quando se trata de conceder poder político: os sindicatos independentes e a oposição política continuam sendo ilegais.

"Precisamos promover a democratização na China", diz Yu. "Por outro lado, temos que promover a estabilidade social. Se tivéssemos uma eleição neste momento, poderíamos terminar como a Tailândia".

Alguns especialistas dizem que, na verdade, uma ação limitada para promover uma mudança política modesta poderia ser anulada pelos problemas econômicos.

"Uma questão real é determinar como a crise econômica afetará qualquer tipo de reforma política", diz Joseph Fewsmith, professor de estudos sobre política chinesa na Universidade de Boston. Ele diz que as autoridades chinesas poderão desacelerar deliberadamente a implementação de uma nova lei de reforma agrária aprovada neste outono para permitir que os agricultores possam transferir os seus direitos à terra.

"As pessoas preocupada com a estabilidade social agirão de forma muito lenta", diz Fewsmith. UOL

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