UOL Notícias Internacional
 

20/12/2008

Após anos de conflitos, a Caxemira reage à violência com eleições

The New York Times
Somini Sengupta

Em Bothoo, Caxemira
Mais de uma década antes dos ataques do mês passado em Mumbai, os combatentes do Lashkar-e-Taiba apareceram aqui, transformando esta aldeia cercada por pinheiros, na parte da Caxemira administrada pela Índia, em um esconderijo que se tornou conhecido como "sótão do gato".

Os moradores locais imediatamente reconheceram que os homens eram diferentes dos guerrilheiros caxemires que vieram antes deles. Esses combatentes eram na maioria da província do Punjab, no Paquistão. Eles eram tão bem armados e bem treinados quanto cruéis. Eles introduziram os atentados suicidas a bomba à Caxemira em 1999. No ano seguinte, eles atacaram um campo próximo do exército indiano, gravando os gritos dos soldados presos no interior e então tocando a gravação para os aldeões, que desfrutavam do sofrimento dos soldados.

Mas hoje, após anos pegos no meio de uma insurreição que foi esmagada brutalmente pelas forças indianas, os caxemires estão cansados de lutar. Os combatentes do Lashkar ainda cruzam a passagem traiçoeira pelas colinas do Paquistão, dizem as pessoas daqui, apesar de menos deles aparecerem. O vale de maioria muçulmana está mais quieto do que esteve em anos.

Nas últimas semanas, os caxemires chegaram a um divisor de águas, canalizando as queixas locais nas urnas de votação e comparecendo em número recorde para votar nas eleições estaduais, que tiveram início em 17 de novembro e terminaram na quarta-feira.

Os números de comparecimento ultrapassaram 60%, disse o escritório eleitoral estadual, e segundo os padrões caxemires a votação foi notavelmente livre de violência e coerção. Desta vez, os combatentes, em uma aparente concessão à fadiga dos caxemires, não ameaçaram aqueles que votaram. Neste distrito, o comparecimento foi de 59%.

Mas o fato dos caxemires comparecerem para votar não significa que abraçaram o governo indiano, como semanas de enormes protestos neste verão demonstraram amplamente. Eles continuam irritados com as restrições impostas pelas forças de segurança indianas, cujo retrospecto de direitos humanos na Caxemira há anos sofre críticas internacionais. Os caxemires estão votando para exigir coisas cotidianas: estradas, eletricidade, empregos. "O principal problema aqui é o desemprego", disse no mês passado Shafqat Shabir, 18 anos, que votou pela primeira vez na cidade mais próxima, Bandipore.

Ele e seus amigos participaram de uma manifestação anti-Índia, gritando "azadi", ou liberdade. A liberdade do domínio indiano, disse seu amigo, Afaq Hussain Mir, 22 anos, é "nosso direito de nascença".

Essa causa permanece essencial para o Lashkar, e ainda é a ferramenta mais eficaz de recrutamento do grupo. Formado há mais de duas décadas com a ajuda das agências de inteligência paquistanesas, o Lashkar tinha originalmente a missão de desafiar o domínio da Índia sobre este vale fértil.

À medida que as negociações de paz entre a Índia e o Paquistão prosseguem nos últimos anos, o Lashkar diminuiu acentuadamente seus ataques na Caxemira. Ao mesmo tempo, ele passou a atacar alvos maiores e mais importantes na Índia.

Os alvos incluem um centro de ciências em Bangalore, no sul, um templo hindu em Varanasi, no leste, e, o mais audacioso de todos, Mumbai, a capital financeira, onde o cerco de três dias matou 163 pessoas e 9 agressores. Apesar do Lashkar ter negado qualquer ligação com os ataques em Mumbai, um dos agressores sobreviventes, dentre pelo menos 10, disse que pertencia ao grupo e mencionou comandantes conhecidos do Lashkar como seus treinadores.

O elo com a Caxemira permanece forte. O homem que as autoridades indianas disseram ter sido o mentor dos ataques em Mumbai, Zaki ur-Rahman Lakhvi, já serviu como comandante aqui na Caxemira controlada pela Índia. Os moradores dizem que seu filho, conhecido como Qasim, estava entre os combatentes do Lashkar que mais recentemente se infiltraram pela fronteira. Em outubro de 2007, Qasim foi motor em um combate que durou toda a noite contra soldados indianos nos arredores de Bandipore.

A simpatia pelos guerrilheiros coexiste com o medo e a frustração. Quando os combatentes do Lashkar chegaram aqui, os moradores desceram ao mercado e compraram provisões para eles. Apesar de serem assassinos insolentes, disseram as pessoas daqui, os grupos do Lashkar foram hóspedes bem-comportados.

Eles não interferiam nas disputas locais, como faziam membros de outros grupos guerrilheiros. Eles não importunavam as mulheres. Eles nunca ordenaram que os homens e mulheres de Bothoo deixassem de rezar no templo de uma santa sufi, como faziam outros grupos radicais islâmicos, apesar de nunca rezarem lá.

Mas o povo pagou caro pela presença dos grupos. À medida que o Lashkar se estabelecia aqui, as forças de segurança indiana contra-atacaram, transformando esta aldeia remota em uma zona de guerra. Mulheres perderam seus maridos. Homens perderam seus membros. Por anos, ninguém esteve seguro.

Após o exército indiano estabelecer um campo no meio de Bothoo, disse o chefe da aldeia, ele implorou ao comandante Lashkar local que não atacasse. Se o Lashkar atacasse, disse o chefe da aldeia, ele temia que o exército retaliaria incendiando todo o local, como tinha feito em outros lugares.

O chefe da aldeia falou sob a condição de anonimato, por temer fazer inimigos; seu irmão foi levado pelos combatentes do Lashkar que o acusaram de ser um informante, e o esqueleto do homem foi encontrado 21 dias depois.

Para caxemires como Manzoor Ahmad Reshi, um carpinteiro, a perspectiva de mais combates inspira temor. Em 1995, o exército o baleou no braço direito, ele disse. Em 2002, os combatentes jaish o balearam, dessa vez no tornozelo esquerdo. Ele disse que já foi interrogado pelo exército oito vezes nos últimos 20 anos.

Ultimamente a aldeia anda quieta, mas os combatentes do Lashkar ainda rondam a mata ao redor do notório sótão do gato, disseram os aldeões. Eles carregam telefones por satélite e nunca estão sem um pente cheio de munição. Eles são destemidos a ponto da imprudência.

"O problema não desaparecerá", disse Manzoor Reshi. "A menos que haja uma solução política, ele diminuirá, mas não desaparecerá."

Mesmo hoje, a perda paira sobre estas casas de teto de zinco empoleiradas na colina. As lembranças permanecem cruas. Uma mulher na aldeia, Rosha Begum Reshi, disse que perdeu seu marido após os soldados indianos o terem acusado de ser um militante. Eles o arrastaram para fora da casa e o executaram.

Um homem, Nazir Ahmad Reshi, perdeu uma perna quando membros de outro grupo militante paquistanês, o Jaish-e-Muhammad, o balearam enquanto tentava salvar um vizinho da ira deles. Hoje, com 28 anos, ele anda de muletas pela sua casa e ao redor. Ele não pode trabalhar. Ele não pode deixar a aldeia.

Seu pai, Ghulam Reshi, magro e com raiva, falou com amargura sobre os combatentes que cruzaram a fronteira do Paquistão. Ele não se importa mais a qual grupo eles pertençam. Eles não são bem-vindos.

"Eles arruinaram a vida do meu filho", ele disse. "Nosso povo não cometeu essas atrocidades. Foi como se começassem a enviar assassinos condenados do outro lado."

Apesar dessa frustração, muitos ainda temem que sem uma solução política em breve para o conflito na Caxemira, os caxemires, especialmente os jovens, ficarão impacientes e apoiarão novamente a insurreição. George El Khouri Andolfato

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