UOL Notícias Internacional
 

20/12/2008

Um canto da Indonésia está afundando em um mar de lama

The New York Times
Seth Mydans

Em Renokenongo (Indonésia)
Por insistência de seus filhos, a cada semana ou duas, Lilik Kamina os leva de volta à sua aldeia abandonada para olhar para a lama.

"Olha, mãe, lá está nossa casa, lá está o pé de manga", ela disse que eles gritam. Mas não resta mais nada para ver, apenas um oceano de lama que enterrou esta aldeia e uma dúzia de outras ao longo dos últimos dois anos e meio.

A lama irrompeu aqui durante uma perfuração exploratória por gás natural, e se tornou um dos maiores vulcões de lama que já afetaram uma área habitada. Diferente de outros desastres que atormentam a Indonésia -terremotos, vulcões, tsunamis- este continua sem um fim a vista, e os especialistas dizem que o fluxo de lama poderá prosseguir por muitos anos ou décadas.

A lama quente continua borbulhando, se espalhando pelo interior, expulsando pessoas de suas casas, enterrando campos e fábricas. Ela forçou a mudança de estradas, pontes, uma linha ferroviária e um grande gasoduto.

Enquanto a terra expele a lama e o lago de lama cresce, a terra está afundando em até 12 metros por ano e poderá descer a profundidades de mais de 140 metros a apenas uma hora de carro da segunda maior cidade da Indonésia, Surabaya, segundo Richard Davies, um geólogo da Universidade Durham, no Reino Unido, que é um especialista em vulcões de lama.

Siti Maimunah, uma defensora ambiental, disse que as pessoas que moravam próximas começaram a adoecer, com cerca de 46 mil visitas a clínicas por problemas respiratórios desde a erupção de lama.

Siti, que é a coordenadora nacional da Rede de Defesa da Mineração da Indonésia, disse que o gás que foi expelido com a lama era tóxico e possivelmente cancerígeno. "Nós tememos que nos próximos 5 a 10 anos, as pessoas enfrentarão um segundo desastre com os problemas de saúde", ela disse.

As tentativas de conter o fluxo fracassaram.

Elas incluíram um esquema para despejar centenas de bolas gigantes de concreto na boca do vulcão; as bolas de concreto simplesmente desapareceram sem causar efeito. Um projeto para desviar parte da lama para o próximo Rio Porong levantou o temor de que o acúmulo de sedimentos no leito do rio poderia causar enchentes severas, possivelmente em Surabaya.

O desastre se tornou um embaraço para o presidente Susilo Bambang Yudhoyono, que enfrenta uma nova eleição no próximo ano, com os grupos de pessoas deslocadas fazendo manifestações na distante capital, Jacarta.

A empresa de prospecção que os críticos disseram que causou o desastre, a Lapindo Brantas, é indiretamente de propriedade da família de um dos homens mais ricos e influentes da Indonésia, Aburizal Bakrie, que é um grande apoiador financeiro do presidente Yudhoyono e atua em seu gabinete como ministro coordenador do bem-estar social.

As vítimas dizem que a indenização é lenta, com apenas uma parte dos fundos prometidos foi entregue até o momento. Sessenta mil pessoas fugiram de suas casas e muitas, como Lilik, agora vivem em abrigos próximos e no mercado.

Esta é uma classe particularmente em dificuldades de pessoas deslocadas, já que como vítimas do que está sendo chamado de desastre causado pelo homem, elas recebem pouca assistência do governo ou das agências internacionais de ajuda e em grande parte se viram sozinhas

"Nós vivemos sem esperança", disse Ali Mursjid, 25 anos, que estava na faculdade estudando para ser um professor antes do vulcão de lama o deixar na miséria. "Ninguém está disposto a nos ajudar."

Sua aldeia, Besuki, foi apenas parcialmente coberta de lama e agora é uma cidade fantasma de casas vazias e lama dura e rachada, onde crianças empinam pipas e gritam para ouvir os ecos de suas vozes.

A erupção de lama quente do chão ocorreu em 29 de maio de 2006, quando a Lapindo Brantas estava perfurando perto do distrito industrial de Sidoarjo. Seu túnel perfurou um aqüífero pressurizado a 2.700 metros de profundidade.

Os especialistas em vulcões de lama dizem que a perfuração e salvaguardas inadequadas no poço de sondagem provocaram a erupção de água, gás e lama, que continuam fluindo, a cerca de 100 mil metros cúbicos por dia.

A Lapindo diz ser uma vítima, culpando as vibrações de um grande terremoto que ocorreu dois dias antes, com um epicentro a 300 quilômetros de distância.

Após ouvirem as novas evidências sobre a erupção, 74 geólogos de petróleo que participaram de uma conferência em outubro, na Cidade do Cabo, concluíram que a perfuração foi a causa.

"Não há dúvida, as pressões no poço foram além do que era tolerável -e provocaram o vulcão de lama", disse Susila Lusiaga, a engenheira de perfuração que fazia parte da equipe de investigação indonésia, segundo um relatório apresentado na conferência pela Universidade Durham.

O debate em torno da responsabilidade limitou severamente os pagamentos, disse Elfian Effendi, o diretor executivo da Greenomics Indonesia, um grupo de defesa ambiental.

Após o pagamento de 20% de um pacote proposto de indenização, a Lapindo concordou neste mês em dar início a pagamentos mensais equivalentes a US$ 2.500 para 8 mil famílias que ela disse terem direito. Mas como parte da holding da família Bakrie, a Lapindo foi seriamente afetada pela atual crise financeira e alguns especialistas questionam se o valor total algum dia será pago.

Desde a primeira erupção em maio de 2006, ocorreram mais de 90 outras, a maioria pequena, mas algumas explosivas, disse Jim Schiller, um cientista político da Universidade Flinders, em Adelaide, Austrália, que publicou um estudo sobre o desastre.

Ele descreveu o que chamou de avanço da lama como em filme de horror, que continua sendo expelida do solo em momentos e locais inesperados. "Eu tenho imagens dela brotando na sala de estar das pessoas", ele disse.

A aldeia de Renokenongo foi enterrada durante a maior dessas erupções, em novembro de 2007, quando o peso da terra afundando estourou um grande gasoduto, matando 13 operários e lançando uma bola de fogo no céu.

Lilik, 30 anos, que é professor de pré-escola, disse que as visitas à antiga aldeia acalmam seus filhos, Icha Noviyanti, 11 anos, e Fiqhi Izzudin, 5 anos.

"As pessoas dizem que não é uma boa idéia levar as crianças lá, mas acho que é o oposto", ela disse. "Eu acho que é muito importante para elas ver sua casa e expressar sua raiva. Elas atiram pedras na lama e gritam, 'Lapindo!'" George El Khouri Andolfato

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