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21/12/2008

Jovens francos e furiosos se tornam uma força em Darfur

The New York Times
Neil MacFarquhar

No Campo Hamidiya (Sudão)
O xeque estava em pânico.

Os jovens agitados neste campo de refugiados no oeste de Darfur, jovens adultos e adolescentes que tradicionalmente se submeteriam à sua autoridade, souberam da sua presença em uma cerimônia da qual também participou uma autoridade do governo sudanês, seu antigo antagonista.

Temeroso de que os jovens o acusassem de traição, o xeque implorou para os representantes da ONU correrem em sua ajuda e assegurou que nem mesmo levantou a questão de uma concessão envolvendo a causa de seu povo.

Evelyn Hockstein/The New York Times 
Crianças refugiadas seguem para escola, muitas pela primeira vez, no campo de Hamidiya

Os jovens são conhecidos coletivamente como "shabab", a palavra para homens jovens em árabe. E eles se tornaram uma força política veementemente pró-rebeldes nos campos, para os 2,7 milhões de deslocados pelos anos de guerra entre o governo sudanês, dominado por árabes, e os rebeldes na região de Darfur, do Sudão.

Cada vez mais francos e furiosos a respeito de seu futuro incerto, a geração que amadureceu nos campos está desafiando os xeques tradicionais, abalando a antiga estrutura de autoridade de sua sociedade tribal e complicando os esforços para obtenção da paz.

"Eles são muito mais extremos que os xeques", disse o representante da ONU que comentou o episódio do xeque assustado, falando anonimamente para evitar colocar em risco sua própria aceitação junto aos shabab. "E eles são esquentados."

Onze xeques tribais nos arredores de Zalingei -onde Hamadiya é um dos cinco campos de refugiados que abrigam 120 mil pessoas- foram mortos desde o início de 2007. Um xeque foi encontrado com um prego martelado em sua testa. Outro foi baleado à queima-roupa. Os casos permanecem não resolvidos, mas a suspeita recai sobre os shabab.

"Os xeques e líderes tradicionais são influenciados pelo governo, de forma que os jovens não acreditam que os xeques ainda são leais à causa e ao povo de Darfur", disse Abdallah Adam Khater, um editor de Cartum e jornalista político de Darfur. A palavra influenciado é um eufemismo local para subornado.

A curto prazo, a ascensão dos shabab torna qualquer negociação de paz ainda mais emaranhada, à medida que os líderes rebeldes terão que manter um olho concentrado em seus eleitores mais inflamados, que são contrários a qualquer concessão ao governo. No campo Kalma, no sul de Darfur no ano passado, o grupo étnico fur se rebelou e expulsou todos os membros do clã zaghawa para punir seus lideres por terem assinado o primeiro acordo de paz com o governo. Os protestos, liderados pelos shabab, ajudaram a expulsar mais de 10 mil pessoas do campo. Eles também resultaram na morte de vários shabab ativistas. Apesar de shabab ser o nome usado para descrever os jovens darfurianos, eles não têm ligação com o grupo rebelde Shabab da Somália.

A longo prazo, os forasteiros também temem que um grupo militante coeso se organizará entre os muitos campos de Darfur, da mesma forma como ocorreu nos territórios palestinos e entre os refugiados afegãos. Os shabab, estridentes em sua política, observam atentamente em busca de qualquer sinal de concessão ao governo do presidente Omar Hassan al-Bashir, que está sendo procurado por um promotor internacional por acusações de genocídio e crimes de guerra contra o povo de Darfur. Autoridades humanitárias suspeitam da existência de cadeias nos campos, administradas com a ajuda dos shebab e que aplicam punições como chibatadas aos transgressores.

Em Zalingei, representantes da ONU passaram a dar aos xeques um aviso prévio de 24 horas antes de qualquer reunião fora dos campos, para que os xeques possam buscar a aprovação dos representantes eleitos dos shabab.

O chefe de polícia de Zalingei, um membro do clã fur que domina o campo, conta com parentes em seu interior. Mas quando ele vai a um casamento ou outro encontro de família, ele precisa vir com seu próprio carro, pois a visão de seu veículo oficial pode provocar um tumulto, disse o representante da ONU.

Durante uma recente visita ao campo Hamidiya por altos funcionários da ONU, Shafiq Abdullah, um líder shabab de 33 anos, criticou um repórter sudanês como sendo um fantoche de governo e ficou tão alterado que as forças de segurança da ONU o cercaram.

Abdullah apresentou quatro pré-requisitos antes que os shabab de qualquer campo possam concordar com negociações entre os rebeldes de Darfur e o governo: desarmamento das milícias do governo; indiciamento dos responsáveis por crimes de guerra, começando por Bashir; expulsão de qualquer um que tenha ocupado as terras roubadas dos agricultores deslocados e cumprimento de todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU para Darfur.

"Nós organizamos marchas de protesto contra qualquer um que diga que devemos negociar com o governo pelo bem de Darfur", disse Abdullah durante uma entrevista. "Eu falo em prol de nosso caso, mesmo que tenha que morrer." Os xeques não podem mais garantir que serão capazes de curvar homens como Abdullah.

"A estrutura tradicional de autoridade está começando a ruir", disse um diplomata ocidental em Cartum, a capital, com ampla experiência nos campos. "Os líderes rebeldes não conseguem mais controlar a população por intermédio dos xeques."

Com cerca de 80 mil residentes, Kalma está entre os campos maiores e mais voláteis. Quando um grupo de altos funcionários da ONU estava inspecionando uma estação de bombeamento de água ali, no final de novembro, Mohamed Ahmed Ismael, um jovem alto, magro e desengonçado de 20 anos, se inseriu com dificuldade entre eles.

"Nós não somos livres em Kalma" gritou Ismael, pronunciando suas palavras sílaba por sílaba em um inglês aprendido na escola do campo e gesticulando como o advogado que aspira se tornar. "Vejam nossos xeques; eles não são livres! A segurança pode entrar em Kalma quando quiser!"

O ensino nos campos, que geralmente pára na oitava série, expandiu até certo grau os horizontes para homens como Ismael. O inglês não era lecionado em suas aldeias agora arrasadas, por exemplo. Mas sua consciência ampliada também incitou seu ultraje a respeito dos erros cometidos contra eles e a respeito de sua falta de oportunidade.

"Não é possível chamá-los de um grupo uniforme com uma ideologia política, mas são todos raivosos", disse Khater, o jornalista. "Esse é o fator que os une."

Deixar os shabab se sentindo isolados, sem esperança no futuro, seria perigoso, ele acrescentou, já que os jovens podem "apoiar qualquer tipo de atos violentos".

A despesa de manutenção dos campos é fenomenal. Dos US$ 7 bilhões em doações que a ONU está buscando para ajuda de emergência em todo mundo em 2009, US$ 1 bilhão é destinado a Darfur.

Kalma, apesar de uma favela esquálida construída em grande parte de tijolos de barro, palha e lonas plásticas padrão da ONU, emana um certo ar de permanência. Um amplo mercado domina a via principal. Tanques metálicos reluzentes de armazenamento, que fornecem grande parte da água do campo, ficam sobre bases sólidas de concreto. O campo se estende por 16 quilômetros ao longo do trilho do trem e conta com seis mesquitas e oito cemitérios. Os moradores dizem que temem deixar seus limites para não se tornarem presas dos janjaweed -uma palavra que agora usam para descrever qualquer inimigo, não apenas as milícias aliadas do governo que causaram tanto caos em Darfur.

Os civis que fugiram para Kalma, quando foi aberto no início de 2004, estão prestes a iniciar seu sexto ano aqui. Os shabab se queixam de que a vida é monótona, os barracos em que vivem são miseráveis e que o campo é castigado constantemente pelo vento quente e empoeirado.

"Antes, nossos desejos eram simples no que se refere a educação, cultura -nós apenas pensávamos em agricultura", disse Adam Haroun Ahmed, 20 anos, que chegou ao campo com 15. "A colonização, a opressão, todas as coisas brutais que os janjaweed fizeram conosco provocaram uma mudança de nossa visão."

Quando lhe foi pedido que descrevesse sua velha aldeia, seus amigos de escola, se acotovelando ao seu redor, o fizeram mudar de idéia. "É algo do passado, quase imaginário", um deles gritou. Outro interveio, "é tão distante de nossa realidade que não queremos estar lá".

Em um esforço para ajudar a administrar a raiva dos jovens, alguns shabab, incluindo Ismael, foram empregados como policiais comunitários voluntários pela força de paz da ONU, para ajudar a combater a criminalidade no campo.

Os campos se tornaram zonas proibidas para o governo sudanês, o que ele considera irritante e leva a anúncios regulares de que os removerá -em uma violação de todos os padrões humanitários. O governo pinta os campos como santuários para os rebeldes e gangues criminosas que roubam carros e cultivam maconha.

As forças do governo tentaram uma batida à procura de armas em Kalma, em agosto passado, posicionando um grande número de soldados em cerca de 60 veículos. O sistema de alerta boca-a-boca do campo, algo que os shabab ajudaram a mobilizar, logo contava com milhares de moradores tomando as ruas para impedir a entrada deles. Os soldados abriram fogo, matando 33 moradores e ferindo pelo menos 70, segundo a ONU. As tropas do governo recuaram, mas prometeram tentar de novo.

Os campos de Darfur representam um desafio para o governo, não apenas por formarem um colar ao redor de várias cidades importantes. Ali Mahmoud, o governador do sul de Darfur e o homem que os representantes da ONU acreditam que ordenou a batida, disse estar despreocupado com a possibilidade de que os moradores jovens e altamente politizados dos campos possam se estabelecer em Nyala ou outras cidades.

"Eu não acho que será um problema no futuro", ele disse. "Algumas pessoas retornam para onde viviam antes e algumas não, talvez 20 a 25% não retornem. Nós podemos absorver todos eles na cidade."

Outros são menos otimistas. "O governo criou um barril de pólvora que não sabe desarmar", disse um diplomata ocidental em Cartum, com ampla experiência nos campos. George El Khouri Andolfato

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