UOL Notícias Internacional
 

23/12/2008

Friedman : China ao resgate? Não!

The New York Times
Thomas L. Friedman
Em Hong Kong
Eu não tinha idéia de que muitas daquelas pinturas a óleo penduradas nos quartos de hotéis e lares por todos os Estados Unidos são na verdade produzidas por apenas uma aldeia chinesa, Dafen, ao norte de Hong Kong. E não tinha idéia de que a colônia de artistas de Dafen - o principal centro mundial de produção em massa de obras de arte e imitações de obras-primas - foi devastada pelo estouro da bolha imobiliária americana. Mas eu deveria.

"Os proprietários de imóveis e hotéis americanos costumam ser os maiores consumidores das obras de Dafen", disse Zhou Xiaohong, vice-presidente da Associação da Indústria de Arte de Dafen, ao "Sunday Morning Post" de Hong Kong. "Quanto mais casas eram construídas nos Estados Unidos, mais paredes precisavam de nossas pinturas. Agora, nosso negócio congelou após o colapso do mercado imobiliário ocidental."

Dafen é apenas um entre um milhão de empreendimentos chineses e americanos que atualmente constituem o motor econômico mais importante do mundo - o que o historiador Niall Ferguson chama de "Chimérica", a parceria de fato entre os produtores e poupadores chineses e os gastadores e tomadores de empréstimo americanos. Essa parceria de 30 anos está prestes a passar por uma reestruturação radical em conseqüência da atual crise econômica, e o resultado terá um alto impacto sobre a economia global.

Afinal, foi a disposição da China de manter os dólares e títulos do Tesouro que ganhou exportando para os Estados Unidos que ajudou a manter baixas as taxas de juros destes, dando aos americanos o dinheiro que precisavam para continuar comprando calçados, televisores de tela plana e pinturas da China, assim como imóveis nos Estados Unidos. Os americanos então tomaram empréstimos dando esses imóveis como garantia para consumir ainda mais -um motivo para termos desfrutado de um aumento da riqueza sem um aumento da renda.

Essa divisão de trabalho não apenas nutriu nossas respectivas economias, mas também moldou nossa política. Ela permitiu ao Partido Comunista de governo da China dizer ao seu povo: "Nós garantiremos seus padrões de vida cada vez maiores, e em troca vocês se manterão de fora da política e nos deixarão governar". Assim, os líderes chineses puderam desfrutar de um crescimento de dois dígitos sem reforma política. E isso permitiu a sucessivos governos americanos, particularmente o atual, dizerem aos americanos: "Vocês podem ter armas e manteiga -hipotecas de risco sem entrada e sem pagamento de prestações por dois anos, consumo cada vez maior e duas guerras, sem aumento de impostos!"

E tudo funcionou - até que não mais.

Com o desemprego agora crescendo por todos os Estados Unidos, disse Stephen Roach, o presidente do Morgan Stanley Ásia, os americanos -"os consumidores mais endividados da história mundial"- não podem mais comprar tantas exportações chinesas. Nós precisamos poupar mais, investir mais, consumir menos e jogar fora a maioria de nossos cartões de crédito para nos resgatarmos desta crise.

Mas enquanto isso acontece, nós precisamos que a China pegue nossos cartões de crédito descartados e os distribua para seu próprio povo, para que possam comprar mais daquilo que a China produz e mais importados do restante do mundo. Essa é a única forma para Pequim sustentar o crescimento mínimo de 8% que precisa para manter o acordo político entre os líderes e liderados da China - além de compensar parte dos efeitos da desaceleração americana na economia global.

Mas, se aprendi algo aqui, é quão difícil será fazer isso. Todo o sistema e cultura da China pregam o poupar, não o gastar, e mudar isso exigirá uma imensa mudança "cultural e estrutural", disse Fred Hu, presidente da Goldman Sachs para a Grande China.

Na China, por exemplo, para comprar um imóvel residencial é preciso dar pelo menos 20% de entrada, e a média é de 40%. Se você tentar dar um calote na prestação, o banco virá atrás de seus bens pessoais. Além disso, a China não pode simplesmente desviar sua produção do mercado americano para seus próprios consumidores. Não muitos aldeões chineses desejam comprar pares de tênis d US$ 400 ou enfeites de árvore de Natal.

A China também não possui um verdadeiro Seguro Social, seguro-saúde ou seguro desemprego. Sem essa rede de segurança social, é difícil ver como os chineses deixarão de poupar grande parte de seu estímulo. "Você abre diariamente o jornal e fica sabendo dessa fábrica que fechou ou daquele fornecedor que quebrou", disse Willie Fung, cuja empresa, a Top Form International, é a maior fabricante de sutiãs do mundo. "O cuidado nunca é demais neste clima financeiro."

Assim, "o mundo não deve nutrir a falsa esperança de que a China poderá amortecer a desaceleração mundial", ao estimular enormemente sua demanda doméstica , disse Frank Gong, chefe de pesquisa para China do JPMorgan Chase. "O melhor que a China pode fazer é manter sua própria economia estável."

É um bom conselho. A China não vai nos resgatar e nem a economia mundial. Nós teremos que sair desta crise do modo tradicional: olhando para dentro de nós mesmos e voltando ao básico - a melhoria da produtividade americana, poupando mais, estudando com mais afinco e inventando mais coisas para exportar. Os dias de falsa prosperidade - eu tomo empréstimos baratos da China para construir uma casa, então uso essa casa para tomar empréstimos para comprar pinturas baratas da China para decorar minhas paredes, e todo mundo sai ganhando - acabaram. George El Khouri Andolfato

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