UOL Notícias Internacional
 

24/12/2008

No interior, os Hmong criam um lar

The New York Times
Simon Romero
Em Cacao, Guiana Francesa
Ly Dao Ly olhava para a floresta atrás de suas alamedas de árvores frutíferas tropicais, rambutã e cupuaçu, em uma tarde recente. Sob o sol equatorial, seus pensamentos vagaram para a guerra secreta no Sudeste asiático que o forçou a fugir para este posto remoto francês, décadas atrás.

"Algumas vezes, imagino que estou vendo as montanhas do Laos naqueles montes verdes", disse Ly, 50, agricultor e padeiro que nasceu na tribo montanhesa Hmong (pronuncia-se "mong"), que travou uma guerrilha patrocinada pela CIA contra o comunista Pathet Lao, no Laos, nos anos 60 e 70.

Quando os comunistas venceram a guerra em 1975, mais de 100 mil refugiados Hmong tornaram-se párias da guerra fria e foram reassentados no mundo todo em lugares como St. Paul, Minnessota; Fresno, Califórnia; Tailândia; França; Austrália e - silenciosamente, mas com sucesso- nesta antiga colônia-prisão no Nordeste da América do Sul.

Desde que chegaram, há mais de trinta anos, os Hmong, que são apenas cerca de 1,5% dos 210 mil habitantes da Guiana Francesa, prosperaram. Os refugiados e suas famílias, que não tinham um tostão, produzem até 80% das frutas e legumes vendidos neste Estado francês no exterior, que precisa importar os outros alimentos a altos custos da França ou do Brasil.

"A gente brinca que, se não fosse pelos Hmong, passaríamos fome neste lugar estranho", disse Mariângela Bragance, que foi do conselho municipal de Kourou, uma cidade próxima que se sustenta com as atividades em torno dos lançamentos de satélites no Centro Espacial da Guiana.

Há muito considerados párias no Laos e em outras partes do Sudeste asiático, os Hmong aqui são conhecidos por seu sucesso, que fica evidente em suas casas grandes com caminhonetes Peugeot e Toyota estacionadas na porta. Seus enclaves quase homogêneos em Cacao e duas outras aldeias, Javouhey e Regina, são diferentes de todo o continente.

Andando pelas estradas de chão de Cacao ouve-se Hmong, entremeado com um pouco de francês. Algumas mulheres vestem sarongues. Mercadores vendem tapeçarias mostrando a saga que os levou para esta floresta, depois de caminharem até os campos de refugiados na Tailândia, em meados dos anos 70, de seu lar montanhoso no Laos, antiga colônia francesa.

"Nossa filosofia foi usar a capacidade humana para nos sustentar", disse Ly Chao, 62, agrônomo Hmong que foi um dos fundadores dos assentamentos aqui, nos anos 70.

A França apostou que os refugiados Hmong, incluindo alguns que moravam nas cidades francesas, poderiam se desenvolver no interior, em um local que havia repelido esforços de colonização anteriores. "A aposta funcionou porque, depois de todos aqueles anos de guerra, estávamos prontos para fazer algo diferente", disse Ly, o agrônomo. "Estávamos até prontos para trabalhar a terra."

Os primeiros Hmong chegaram da França em 1977 e foram recebidos com protestos dos crioulos, um grupo étnico descendente dos escravos africanos, irritados com o que consideraram tratamento preferencial para um grupo étnico novo em uma área empobrecida. As autoridades francesas inicialmente davam aos Hmong algumas dúzias de francos por dia para sobreviverem.

Os colonos reuniram esses pagamentos para comprar fertilizantes e tratores. Lentamente, depois de anos de trabalho, os Hmong tornaram-se auto-suficientes. Eles agora produzem amplas quantidades de vegetais que antes eram escassos, como alface, e variedades tropicais de frutas, como o cupuaçu, que é oblongo de poupa branca, encontrado na bacia amazônica.

Eventualmente, as tensões diminuíram. "Os Hmong se mantinham entre eles e tiveram permissão para se aculturarem em seus próprios termos", disse Patrick Clarking, antropólogo da Universidade de Massachusetts, Boston, que estuda os Hmong na Guiana Francesa.

Enquanto os Hmong mantêm laços com parentes no exterior, eles enfatizam seu próprio lugar na diáspora. Por exemplo, eles se referem aos Hmong nos EUA como Vang Pao Hmong, pela influência do general exilado Vang Pao, 79, que mora na Califórnia e enfrenta acusações nos EUA de tramar para derrubar o governo do Laos.

Estudos acadêmicos mostraram que os Hmong daqui são mais robustos e menos pessimistas do que seus irmãos nos EUA, onde algumas comunidades tiveram dificuldades para se adaptar em cidade e subúrbios e foram afligidas por suicídios e problemas de saúde.

"Sentimos saudades do Laos, é claro, e eu tenho um irmão que diz que é agradável viver em Omaha", disse Ly May Ha, 50, esposa de Ly Dao Ly. Juntos, eles assam croissants e baguetes para vender em Cacao, quando o sol nasce sobre a aldeia todos os dias. Mais tarde, eles cuidam de seus pomares e currais de pecari, um tipo de porco selvagem que é uma carne apreciada aqui.

"Nossa vida é neste lugar, onde somos livres para sermos nós mesmos", diz ela.

Os ritmos da existência aqui parecem bem distantes das cidades onde muitos Hmong se estabeleceram, nos EUA ou na França. Nos finais de semana, jovens jogam petanca, um jogo que, como a bocha, consiste de jogar bolas de metal em um alvo. Os mais velhos, com suas garrafas de Heineken, vangloriam-se de caçadas de pecaris e tapires na floresta.

Como em qualquer aldeia pequena, alguns mais jovens reclamam do tédio e do isolamento. Hmong Lee, 40, que morou na França por dez anos antes de voltar, decidiu se estabelecer em um lugar entre a fazenda fundada por seus pais e o movimento de uma cidade européia. Ele agora trabalha em uma loja de móveis na capital, Cayenne.

"Isto não é Paris, mas quem quer Paris quando o sol brilha aqui e somos livres para sermos Hmong?", disse ele sobre seu canto obscuro da América do Sul. Deborah Weinberg

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