UOL Notícias Internacional
 

24/12/2008

Palestinos trabalham para sacudir a Cisjordânia de volta à vida

The New York Times
Isabel Kershner e Ethan Bronner
Em Belém (Cisjordânia)
Eles estão novamente fazendo fila às centenas, segurando velas - espanhóis, russos, cingaleses - para descer até a antiga gruta onde a tradição diz que Jesus nasceu. Fora da Praça da Manjedoura, uma árvore municipal brilha com enfeites e os fios de telefone apresentam estrelas cintilantes dentro do espírito das Festas.

Pode parecer óbvio que nos dias que antecedem o Natal, esta cidade, que vive nos corações dos cristãos de todo o mundo, se torne um ímã de turistas. Mas há apenas seis anos a Igreja da Natividade foi cenário de um impasse de cinco semanas entre as tropas israelenses e militantes palestinos armados. Até hoje, chegar a Belém exige a passagem por um posto de controle israelense sob a sombra da enorme barreira de separação de Israel.

Mas há mais turistas em Belém neste ano do que em qualquer outro momento em uma década, e a presença deles sinaliza algo além do espírito natalino: a vida para os palestinos da Cisjordânia, apesar de permanecer opressiva e desafiadora, parece estar passando por uma melhoria substancial, mesmo que frágil.

Tanto as autoridades israelenses quanto palestinas relatam crescimento econômico para as áreas ocupadas entre 4% e 5%, e uma queda na taxa de desemprego de pelo menos três pontos percentuais. Os israelenses relatam que em 2008, os salários aqui cresceram mais de 20% e o comércio 35%. A atmosfera melhor quase dobrou o número de turistas em Belém e provocou um aumento de quase 50% em Jericó.

Mas não são apenas os turistas. O Centro da Pequena Empresa de Belém, financiado com ajuda alemã, está funcionando há oito meses e está ocupado ajudando pequenas empresas de artes gráficas a melhorar seu software e artesãos a melhorar seu marketing.

"Foi o melhor ano desde 1999", disse Victor Batarseh, o prefeito de Belém. "Nossos hotéis estão cheios, enquanto há três anos não havia quase ninguém. O desemprego está abaixo de 20%. Mas ainda estamos sob ocupação."

E tudo isso em um ano em que a economia global está afundando em uma taxa alarmante.

Politicamente, como notou o prefeito, há pouca mudança real. Um ano de negociações com Israel está se aproximando do fim sem um acordo sobre o Estado palestino.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, cujo mandato termina oficialmente em 9 de janeiro, disse que convocará novas eleições nos próximos meses. O Hamas diz que ele deve deixar o cargo em 9 de janeiro e que nomeará um presidente paralelo caso não o faça, gerando preocupações de maior instabilidade. Israel tem suas próprias eleições em fevereiro, o que aumenta a incerteza.

Para a Autoridade Palestina, o equilíbrio entre anunciar avanços e manter as críticas às políticas de Israel é delicado - especialmente com o líder da oposição conservadora israelense, Benjamin Netanyahu, liderando nas pesquisas eleitorais e defendendo uma ênfase na "paz econômica".

Os palestinos dizem que uma economia estável por si só não trará a paz, que o conflito exige uma solução política.

Ainda assim, as forças palestinas estão protegendo as principais cidades, as tropas israelenses recuaram - apesar de prosseguirem nas batidas noturnas contra suspeitos de serem militantes- e Israel está dizendo que deverá aliviar significativamente as restrições à circulação dos palestinos pela Cisjordânia, um pré-requisito para um maior crescimento econômico.

Um alto oficial israelense no norte da Cisjordânia disse que 4 mil cidadãos árabes-israelenses viajam para fazer compras na área a cada fim de semana, e que 115 novas lojas abriram na cidade de Tulkarm nos últimos quatro meses.

Até mesmo em Nablus, uma cidade volátil de 200 mil habitantes que foi submetida a uma operação de segurança israelense particularmente sufocante, o clima está começando a mudar. Um shopping center brilhante, de propriedade da prefeitura e em construção desde 1999, finalmente foi inaugurado neste ano.

Ahmed Ayed, 22 anos, dirige uma loja de moda feminina ali. Com cabelo longo e cavanhaque, ele disse que a loja, a sexta em Nablus de uma rede de propriedade de seu pai, abriu há meio ano; de lá para cá, uma sétima abriu nas proximidades.

Ziad Anabtawi, presidente do Anabtawi Group, que inclui empresas de importação, distribuição e investimento, disse que a economia palestina está muito mais saudável hoje do que nos anos 90, quando dependia dos trabalhadores que trabalhavam em Israel, com sua entrada totalmente dependente da boa vontade israelense. Hoje, ela envolve grandes empresas de investimento e banqueiros palestinos.

A cidade velha de Nablus, conhecida como casbah, era até recentemente uma zona de risco onde palestinos armados freqüentemente entravam em choque com as forças israelenses. Em uma tarde recente, grupos de mulheres relaxavam, fumando e fazendo piquenique, em uma casa de banho turca histórica, a Shefa Hamam.

Um reduto do movimento Fatah de Abbas, Nablus também se tornou uma fortaleza do Hamas. Candidatos amplamente associados ao Hamas venceram as eleições para o conselho local aqui em 2005, conquistando 13 das 15 cadeiras.

Mas a prosperidade, dizem os empresários, depende da remoção por Israel dos principais postos de controle erguidos em 2002, uma medida que considerava necessária para impedir a circulação dos homens-bomba.

Por seis anos, os palestinos não puderam dirigir carros particulares para entrar ou sair de Nablus sem autorização especial. Os militares israelenses dizem que isso está prestes a mudar. Dentro de poucas semanas, o exército está planejando permitir aos palestinos dos distritos de Nablus e Jenin, no norte da Cisjordânia, irem em seus próprios carros para o sul, sem permissões especiais e com apenas inspeções aleatórias.

"Nós estamos dispostos a assumir mais riscos à medida que a atividade terrorista hostil diminui", disse o coronel Benny Shik, um alto oficial militar israelense na Cisjordânia.

Adly Yaish, o prefeito de Nablus, disse que ouviu falar das mudanças propostas e as chamou de "um bom começo".

Mas o caminho à frente está repleto de armadilhas. Os militares israelenses enfatizam que todas as mudanças podem ser revertidas. E as medidas israelenses para reprimir o Hamas às vezes podem ser desajeitadas e contraproducentes. Tanto Anabtawi quanto Yaish passaram algum tempo sob detenção israelense no ano passado, por causa da suspeita de terem laços financeiros com o Hamas. Os juízes israelenses ordenaram a soltura deles.

Na Cisjordânia, o Hamas está atualmente subjugado, com seus homens armados profundamente escondidos, seus líderes políticos nas prisões israelenses e seus representantes nas autoridades locais, os que ainda estão soltos, seguindo diligentemente as regras da Autoridade Palestina.

O governador de Belém, Salah Tamari, um defensor da coexistência há décadas, disse que o Hamas enfraqueceu na Cisjordânia depois que as pessoas viram como a vida ficou dura em Gaza. Mas o que ele realmente teme é um futuro com Israel, apesar de seus anos de amizade com israelenses.

Em seu escritório, as cortinas à sua direita foram fechadas para impedir a visão da colina de Har Homa, um enorme subúrbio judeu cuja construção ele foi contrário nos anos 90.

"Os israelenses são paranóicos por causa de seu passado, enquanto os palestinos são paranóicos por causa de seu presente", disse Tamari. "Mas estamos condenados a viver juntos ou abençoados a viver juntos, dependendo do seu ponto de vista. É verdade que a economia está melhorando levemente. Mas fora isso, eu temo que muito pouco está ficando mais fácil." George El Khouri Andolfato

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