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24/12/2008

Plano para a floresta brasileira guarda traços da visão de Chico Mendes

The New York Times
Alexei Barrionuevo
No Rio de Janeiro
Há vinte anos, um seringueiro e militante ambientalista brasileiro foi morto em sua casa no Estado do Acre por fazendeiros que se opunham a seus esforços para salvar a floresta tropical amazônica.

Depois de sua morte aos 44 anos, Francisco Alvez Mendes, mais conhecido como Chico, tornou-se o mártir de uma idéia que só agora está ganhando apoio aqui: de que o valor da floresta em pé pode ser maior do que o valor da floresta queimada e derrubada em nome do desenvolvimento.

Este mês, o Brasil deu o que os ambientalistas esperam seja um grande passo para a realização da visão de Mendes. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva introduziu metas ambiciosas para reduzir o desmatamento e as emissões de dióxido de carbono num país que é um dos principais emissores desse gás causador do efeito estufa.

O plano promete transformar o Brasil num ator mais influente nas discussões sobre as mudanças climáticas globais, ajudando a pressionar os Estados Unidos e a União Européia para um acordo de cortes de emissões e a evitar os efeitos adversos da mudança climática. Poderia também encorajar mais comprometimento por parte dos países ricos que querem pagar o Brasil para preservar a floresta pelo bem de toda a humanidade.

Mas alguns ambientalistas questionam se as novas metas, que reduziriam o desmatamento do Brasil em 72% até 2017, são atingíveis num país que mostrou poucos sinais no sentido de reajustar seu modelo de desenvolvimento enquanto grande fornecedor de alimentos para o mundo, especialmente em meio a uma crise econômica global.

Para atingir a primeira fase das metas, o Brasil teria de reduzir o desmatamento em 20% no ano que vem, para menos de 10.400 quilômetros quadrados. Este seria o menor índice anual já registrado no Brasil, diz Paulo Adario, diretor de campanha pela Amazônia no Greenpeace do Brasil.

A economia do Brasil é centrada na exportação de produtos agropecuários, como soja e carne, e de commodities como o minério de ferro.

"O modelo brasileiro é o de ser fornecedor de alimentos para o mundo e um grande fornecedor de etanol", diz Adario. "A economia continuará a se movimentar para a mesma direção. Não há mágica no Brasil".

A ênfase na produção de alimentos foi responsável pela maior parte do desmatamento na Amazônia, disse ele.

No final dos anos 60 e 70, o governo militar encorajou famílias sem terra a se estabelecerem na região. A construção de estradas, a especulação imobiliária e os fazendeiros vieram em seguida, e as florestas diminuíram num ritmo cada vez mais rápido.

A queima e a decomposição das árvores produzem dióxido de carbono, um dos gases causadores do efeito estufa.

Mendes organizou os seringueiros para confrontar os fazendeiros e voou para fora do país para confrontar os financiadores das estradas. Seus esforços para deter a exploração de madeira numa área destinada a uma reserva florestal levaram-no à morte. Desde seu assassinato, em 22 de dezembro de 1988, mais de 20 reservas foram criadas, protegendo mais de 8 milhões de acres.

Mendes foi um dos primeiros defensores da idéia de que os povos que vivem na floresta podem sobreviver dos recursos florestais sustentáveis, e não do benefício econômico único do corte das árvores.
O financiamento de carbono, a compensação aos moradores da floresta por buscarem atividades sustentáveis, forneceria um incentivo a mais, que é essencial dada à incerteza dos mercados para a borracha natural e outros produtos florestais que não a madeira.

"A idéia de que nós do primeiro mundo ajudaremos a pagar pelo serviço climático é um desenvolvimento importante e representa o cerne do conceito que Chico Mendes e outros como ele ajudaram a criar", diz Richard H. Moss, chefe dos programas de mudança climática no World Wildlife Fund em Washington.

Os assassinatos de Mendes e da irmã Dorothy Stang, uma freira católica de 73 anos que foi morta a tiros em 2005 por ter erguido a voz contra o desmatamento na Amazônia, aumentou a pressão internacional sobre o Brasil para encontrar formas de limitar o desmatamento da floresta sem sacrificar o desenvolvimento.

"O Brasil sempre esteve na defensiva no que diz respeito à questão da mudança climática", diz Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente brasileiro. "E agora o país mudou completamente, aprovando um plano mais ousado do que o da Índia e da China".

Minc disse que o plano ajudará a responder à demanda de alguns dos países mais desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos, que disseram que não concordariam em firmar metas de emissões até que os países menos desenvolvidos que produzem quantidades significativas de gases de efeito estufa fizessem o mesmo.

O desmatamento produz mais de um quinto do dióxido de carbono gerado pelo ser humano segundo algumas estimativas. Cerca de 75% das emissões de carbono do Brasil vêm do desmatamento, diz Minc.

O plano brasileiro diminuiria essas emissões drasticamente, evitando que cerca de 4,8 bilhões de toneladas de dióxido de carbono sejam emitidas até 2018. Alguns ambientalistas argumentam que acordos que envolvem a compensação pela proteção da floresta poderiam enfraquecer os acordos climáticos de várias maneiras. Eles também dizem que o plano deixa as metas mais difíceis para o governo que virá depois do de Lula. Seu mandato termina em 2010.

Ainda assim o plano é visto por alguns cientistas e especialistas em clima como um grande passo adiante. "Pela primeira vez temos objetivos bem claros para redução do desmatamento", diz Walter Vergara, principal climatologista do Banco Mundial para a América Latina.

A recessão global poderia acabar diminuindo a demanda por bens agrícolas.

E poderia também reduzir o influxo de tecnologia necessária para tornar as indústrias mais eficientes, além de limitar o auxílio de governos estrangeiros como a Noruega, Suécia e Alemanha, cujos pagamentos ajudariam a preservar a floresta. Até agora, esses países não sugeriram que reduziriam suas contribuições, disse Minc.

"A recessão global e a crise climática não necessariamente têm de ser adversárias, com uma competindo pelos recursos da outra", disse Minc. Eloise De Vylder

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