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27/12/2008

Um renascimento islâmico na Bósnia testa a frágil postura secular da nação

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Sarajevo, Bósnia-Herzegóvina
Treze anos após uma guerra na qual 100 mil pessoas foram mortas, a maioria muçulmanos, a Bósnia está passando por um renascimento islâmico.

Mais de meia dúzia de novas madrassas, ou escolas religiosas, foram construídas nos últimos anos, ao mesmo tempo em que surgiram dezenas de mesquitas, incluindo a Rei Fahd, um amplo complexo de US$ 28 milhões com um centro cultural e esportivo.

Antes da guerra, mulheres plenamente cobertas e homens com barbas longas eram quase inexistentes. Hoje, são comuns.

Muitos aqui saúdam o renascimento muçulmano como uma afirmação saudável da identidade em um país multiétnico, onde os muçulmanos correspondem a quase metade da população.

Mas outros alertam sobre um crescente choque cultural entre o Islã conservador e o secularismo declarado em um Estado já frágil.

Há dois meses, homens usando capuz atacaram participantes de um festival gay em Sarajevo, arrancando algumas pessoas dos veículos e espancando outras enquanto cantavam: "Morte aos gays!" e "Allahu Akbar!" Oito pessoas ficaram feridas.

Os líderes religiosos muçulmanos se queixam de que o evento, que coincidiu com o mês sagrado do Ramadã, foi uma provocação. Os organizadores disseram que buscavam promover os direitos da minoria e não queriam ofender ninguém.

Na capital cosmopolita, onde os bares há muito superam em número as mesquitas, a educação religiosa muçulmana foi introduzida recentemente nas pré-escolas públicas, levando alguns pais muçulmanos seculares a se queixarem de que a separação entre Mesquita e Estado estava sendo violada.

Os muçulmanos da Bósnia praticam um Islã moderado que remonta à conquista otomana, no século 15. Sociólogos e líderes políticos dizem que o despertar religioso é, em parte, uma conseqüência da guerra e do acordo de Dayton intermediado pelos americanos, que colocou um fim a ela, dividindo o país em uma Federação Croata-Muçulmana e uma República Sérvia.

"Os sérvios cometeram genocídio contra nós, estupraram nossas mulheres, nos tornaram refugiados em nosso próprio país", disse Mustafa Efendi Ceric, o grão-mufti e principal líder espiritual da comunidade muçulmana da Bósnia.

"E agora nós temos uma Constituição tribal que diz que temos que compartilhar o poder político e a terra com nossos assassinos", ele disse. "Nós, muçulmanos bósnios, ainda nos sentimos sitiados na cidade de Sarajevo."

Esse ressentimento é evidente. À medida que vários milhares de fiéis entravam na imponente Mesquita Rei Fahd em uma recente sexta-feira, um homem jovem estava sentado do lado de fora vendendo uma popular revista muçulmana conservadora com o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, na capa.

"Hussein, Sua América Matará Muçulmanos?" perguntava a manchete, usando o segundo nome de Obama, um motivo de orgulho para muitos muçulmanos daqui.

A identidade religiosa e nacional há muito se fundiram na Bósnia multirreligiosa.

Era uma tradição nas aldeias se referir aos vizinhos por sua religião - muçulmano, ortodoxo, católico, em vez de bósnio, sérvio ou croata.

Na construção de uma nação que ocorreu após Dayton, esta prática se tornou mais forte.

Em Sarajevo, uma cidade predominantemente muçulmana, dezenas de ruas com nomes de revolucionários comunistas foram rebatizadas com nomes de heróis muçulmanos, e os partidos políticos que realçam a identidade muçulmana ganharam grande eleitorado.

Os croatas católicos e sérvios ortodoxos, por sua vez, se agarram às suas próprias identidades culturais e religiosas. A freqüência à igreja está em ascensão; na República Sérvia, até mesmo ministérios e departamentos de polícia possuem seus próprios santos padroeiros.

Muharem Bazdulj, vice-editor do jornal "Oslobodenje", a voz da Bósnia liberal e secular, disse temer o crescimento do wahabismo, o movimento sunita conservador originado na Arábia Saudita e que busca remover as influências estrangeiras e corruptoras.

Os analistas dizem que as organizações financiadas pelos sauditas investiram cerca de US$ 700 milhões na Bósnia desde a guerra, freqüentemente em mesquitas.

O wahabismo chegou por meio de centenas de guerreiros do mundo árabe durante a guerra e com os agentes de caridade e ajuda humanitária árabes desde então, apesar dos sociólogos destacarem aqui que a maioria dos muçulmanos bósnios ainda acredita que não há lugar para o Islã na vida pública.

Dino Abazovic, um sociólogo de religião da Universidade de Sarajevo, que recentemente conduziu uma pesquisa detalhada envolvendo 600 muçulmanos bósnios, disse que 60% defendem a manutenção da religião como um assunto privado; apenas uma pequena minoria reza cinco vezes por dia.

Ainda assim, episódios violentos ocorreram. No início deste ano, após uma explosão em um shopping center na cidade de Vitez ter matado uma pessoa e ferido sete, Zlatko Miletic, chefe da polícia uniformizada do Ministério do Interior da Federação Croata-Muçulmana, alertou que um grupo na Bósnia ligado ao salafismo, um movimento islâmico sunita ultraconservador, estava inclinado ao terrorismo.

Todavia, Ceric, o grão-mufti, disse que o wahabismo não tem futuro na Bósnia, apesar de mais pessoas estarem abraçando a religião.

"As crianças estão jejuando no Ramadã, freqüentando a mesquita mais que seus pais", ele disse. "Nós sofremos uma desislamificação por 40 anos durante a época de Tito, de forma que é natural que as pessoas agora estejam abraçando a liberdade de expressar sua religião."

Alguns críticos do mufti argumentam que ele permitiu que a religião penetrasse na vida cívica.

Vedrana Pinjo-Neuschul, que vem de um lar sérvio e muçulmano, tem liderado a luta contra as aulas islâmicas nas pré-escolas públicas por toda a Sarajevo. Os pais podem retirar seus filhos das aulas religiosas, mas Pinjo-Neuschul, cujo marido é parte judeu, católico e sérvio, disse que a política estigmatizaria as crianças não-muçulmanas.

Ela recentemente retirou seus dois filhos pequenos de uma pré-escola pública e reuniu 5 mil assinaturas contra a política, que também é criticada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, o grupo com sede em Viena que monitora a democracia. "Eu não quero explicar ao meu filho de 4 anos, Sven, que está apaixonado por Esma, sua colega de classe muçulmana, por que eles repentinamente estão em salas diferentes", ela disse em um centro comunitário judeu em Sarajevo. "Ninguém tem o direito de separá-los."

Ela disse que já foi importunada por radicais islâmicos na rua e que recebeu e-mails de ódio em árabe. "Há pessoas que querem transformar a Bósnia em um Estado muçulmano."

Mustafa Effendi Spahic, um proeminente intelectual liberal muçulmano e professor da Madrassa Gazri Husrev-beg, foi ainda mais longe, chamando a introdução do ensino religioso na pré-escola de "um crime contra as crianças".

"O Profeta diz para ensinar as crianças a se ajoelharem como muçulmanos apenas após os 7 anos de idade", disse Spahic, que foi aprisionado sob o comunismo por ativismo islâmico. "Ninguém tem o direito de fazer isso antes porque é uma afronta à liberdade, à imaginação e à diversão no mundo da criança."

Milorad Dodik, o primeiro-ministro da República Sérvia da Bósnia, se referiu a Sarajevo como a nova "Teerã", e fala sobre um "Islã político e uma luta contra pessoas que não compartilham a mesma visão".

Mas os líderes muçulmanos e a maioria dos analistas ocidentais daqui rejeitam essas afirmações, dizendo que não correspondem à realidade secular da Bósnia e que são parte de uma tentativa dos nacionalistas sérvios de justificar a subjugação brutal dos muçulmanos durante a guerra tanto por sérvios quanto croatas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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