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28/12/2008

Conservando energia com a "tecnologia da casa passiva"

The New York Times
Elisabeth Rosenthal
Em Darmstadt (Alemanha)
Quem olha de fora não vê nada de incomum na fileira de casas novas de belo estilo, nas cores cinza e laranja, no distrito de Kranichstein. As casas têm guirlandas nas portas e são enfeitadas com luzes de Natal que piscam sob um chuvisco gelado. Mas essas residências são parte de uma revolução de design: não há válvulas de fluxo de ar, pisos frios, e ninguém precisa ficar sob os cobertores até que a lareira se acenda. Na verdade, nem lareira há.

Na casa de Berthold Kaufmann, existe, de fato, um radiador como reserva de emergência na sala de estar - mas ele não está sendo usado. Mesmo nas noites mais frias na região central da Alemanha, a "casa passiva" de Kaufmann e de outros que adotaram este design obtêm todo o calor e água quente necessários a partir de uma quantidade de energia suficiente para fazer funcionar um secador de cabelos.

"Você não precisa pensar na temperatura - a casa simplesmente se ajusta", explica Kaufmann, enquanto observa a filha de dois anos, que come uma salsicha na espaçosa sala de estar, cujas portas de vidro dão para um pátio. Kaufmann diz que a sua nova casa utiliza cerca de um doze avos da energia consumida para o aquecimento da residência dos seus pais, uma construção que tem mais ou menos o mesmo tamanho.

Arquitetos em diversos países, na tentativa de atender aos novos padrões de eficiência energética, como aquele estabelecido pela Liderança em Design Ambiental e Energético, dos Estados Unidos, estão projetando casas com melhor isolamento e dispositivos mais eficientes. Eles também estão utilizando fontes alternativas de energia, como painéis solares e turbinas eólicas.

O conceito de casa passiva, lançado de forma pioneira nesta cidade de 140 mil habitantes que fica próxima a Frankfurt, aborda o desafio sob um ângulo diferente. Utilizando um isolamento extremamente espesso e portas e janelas complexas, o arquiteto cria uma casa envolta por uma "casca" selada, de forma que a quantidade de calor que escapa e de frio que entra é diminuta.

Isso significa que uma casa passiva pode ser aquecida não só pelo sol, mas também pelo calor gerado por aparelhos elétricos e até mesmo pelos corpos dos ocupantes.

Há várias décadas, tentativas de criar casas seladas aquecidas pelo sol fracassaram, por causa do ar estagnado e do mofo. Mas as novas casas passivas utilizam um engenhoso sistema de ventilação central. O ar quente que sai movimenta-se lado a lado com o ar limpo e frio que entra, realizando uma troca de calor que possui uma eficiência de 90%.

"O mito anterior era de que, para ficar aquecido, você precisava contar com aquecimento. A nossa meta é criar uma casa quente sem demanda energética", explica Wolfgang Hasper, engenheiro do Instituto Passivhaus, em Darmstadt. "Não se trata de usar pulôveres grossos, desligar o termostato e ajustar válvulas de entrada de ar. A idéia é sentir-se confortável com o uso de menos energia, e fazemos isto por meio da reciclagem do calor".

Existem cerca de 15 mil casas passivas no mundo, sendo que a vasta maioria foi construída nos últimos anos em países de língua alemã e na Escandinávia. A primeira casa passiva foi construída aqui em 1991 por Wolfgang Feist, um físico local, mas a difusão da idéia foi vagarosa devido à barreira da língua. Os cursos e a literatura referentes ao assunto eram em sua maioria alemães, e até mesmo agora os componentes só são fabricados em massa nesta parte do mundo.

Esta indústria prospera na Alemanha - por exemplo, escolas em Frankfurt são construídas com esta técnica - e ela está se disseminando. A Comissão Européia está promovendo a construção de casas passivas, e o Parlamento Europeu propôs que as novas construções atendam aos padrões estabelecidos para casas passivas até 2011.

O Exército dos Estados Unidos, que está presente há muito tempo nesta parte da Alemanha, está cogitando construir quartéis com a tecnologia de casas passivas. "A conscientização está disparando; é difícil atender a todos os pedidos", diz Hasper.

Nabih Tahan, um arquiteto da Califórnia que trabalhou na Áustria durante 11 anos, está terminando a construção de uma das primeiras casas passivas nos Estados Unidos para a sua família em Berkeley. Ele dirige um grupo de 70 arquitetos e engenheiros da região conhecida como Bay Area que trabalham no sentido de encorajar a adoção mais generalizada desses padrões. "Esta é uma receita energética que faz sentido para a população", diz Tahan. "Por que não reutilizar este calor que você obtém gratuitamente?".

Porém, ironicamente, quando os inspetores da Califórnia examinavam a casa de Berkeley para determinar se ela atendia aos códigos "verdes" de construção (ela atendia), ele não obteve reconhecimento pelo permutador de calor, um dispositivo que ainda é incomum nos Estados Unidos. "Quando pensamos a respeito dos padrões das casas passivas, passamos a olhar para as construções de uma forma diferente", diz ele.

Construções que são classificadas como hermeticamente fechadas podem parecer sufocantes (para atingir o padrão, a construção precisa passar pelo "teste da corrente de ar", demonstrando que perde uma quantidade mínima de ar sob pressão). Na verdade, as casas passivas possuem muitas janelas - embora uma quantidade muito maior dessa janelas seja voltada para o sul e não para o norte - e todas elas podem ser abertas.

No seu interior, uma casa passiva transmite uma sensação um pouco diferente em relação às casas convencionais, da mesma forma que dirigir um carro elétrico é diferente de guiar um automóvel movido a gás. Há uma espécie de uniformidade de ar e temperatura característica de uma espaçonave. O ar de fora passa todo por filtros HEPA antes de entrar nos aposentos. O piso de concreto no porão não é frio. As paredes e o ar têm basicamente a mesma temperatura.

Ao examinar-se com atenção, percebem-se diferenças técnicas: quando as janelas são abertas, é possível ver as camadas de vidro e gás, bem como as vedações elaboradas nos cantos. Uma tubulação pequena e sanfonada perto do teto da sala de estar traz ar puro. No porão não há nenhuma caldeira, mas sim aquilo que parece ser uma enorme caixa térmica de isopor, contendo o permutador de calor.

As casas passivas não necessitam de intervenções humanas, mas a maioria dos arquitetos acrescenta a elas um regulador com três posições, que pode ser desligado para as férias, ou ligado para a circulação de ar durante uma festa (embora o morador possa simplesmente abrir as janelas.). "Descobrimos que é muito importante que as pessoas sintam que são capazes de influenciar o sistema", diz Hasper.

As casas podem ser demasiadamente radicais para aqueles que apreciam experiências como a de tomar um chocolate quente em uma cozinha fria. Mas para outros não há problema algum. "Cresci em um casarão velho cuja temperatura era sempre dez graus inferior à faixa confortável, de forma que eu quis fazer algo diferente", diz Georg W. Zielke, que construiu aqui a sua primeira casa passiva, para a sua família, em 2003, e que atualmente não projeta outros tipos de construção.

Na Alemanha, as casas passivas têm um preço 5% a 7% superior ao das casas convencionais. Com a crescente popularidade e uma gama cada vez maior de componentes extras atraentes, essas residências têm se tornado mais baratas.

Mas as janelas e os sistemas de ventilação por troca de calor sofisticados necessários para que as casas passivas funcionem de forma apropriada não são fáceis de se encontrar nos Estados Unidos. Assim, é provável que a construção de casas passivas nos Estados Unidos, pelo menos inicialmente, seja mais cara.

Além do mais, é mais difícil adaptar a construção popular de residências nos Estados Unidos a um padrão: as construções residenciais não costumam ter sistemas embutidos de ventilação de nenhum tipo, e as janelas de correr são difíceis de vedar hermeticamente.

A casa passiva original de Feist - uma construção branca quadrada com quatro apartamentos - tem a aparência de um projeto de ciência, conforme a intenção inicial. Mas as novas casas passivas vêm em vários formatos e estilos. O Passivhaus Institut, fundado uma década atrás, continua realizando pesquisas, ensinando arquitetos e testando residências para determinar se elas atendem aos padrões. Atualmente o instituto possui filiais no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Mesmo assim, mesmo na Europa existem obstáculos para a adoção mais generalizada das casas passivas.

Como uma casa passiva que funcione bem precisa da interação entre a construção, o sol e o clima, os arquitetos têm que ter cuidado quanto à seleção do local. O aquecimento da casa passiva pode não funcionar em um vale sombreado na Suíça, ou em uma rua urbana que não conte uma face voltada para o sul. Os pesquisadores estão procurando determinar se o conceito funcionará em climas mais quentes - nos quais o permutador de calor poderia ser usado no sentido inverso, a fim de manter o ar frio no interior da residência e impedir a entrada de ar quente.

E aqueles que desejam mansões passivas poderão ficar desapontados. Vedar formas compactas é uma tarefa simples, mas é difícil aquecer e isolar termicamente casas muito grandes.

A maior parte das casas passivas proporciona uma área de aproximadamente 46 metros quadrados por pessoa, um espaço confortável, embora não exageradamente grande. Hasper diz que as pessoa que desejam centenas ou milhares de metros quadrados por pessoa devem procurar um outro design.

"Na minha opinião, se uma pessoa acha que precisa de tanto espaço para viver... Bem, temos aqui uma discussão diferente", conclui Hasper. UOL

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