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02/01/2009

Novas fortunas têm um custo espiritual para comerciantes turcos

The New York Times
Por Sabrina Tavernise
Colaborou Sebnem Arsu
Em Istambul
Os empresários religiosos da Turquia passaram anos construindo impérios vendendo cortinas, balas e sofás. Mas enquanto muçulmanos praticantes vivendo no país secular mais formal do mundo, eles nunca foram aceitos pela elite da sociedade.

Agora esse grupo tornou-se a própria elite, e a Turquia, um país mais aberto religiosamente. Isso levou um partido político inspirado no Islã ao poder e ajudou a transformar a Turquia na sétima maior economia da Europa.

E enquanto outras sociedades muçulmanas lutam contra os radicais, a classe mercantil religiosa da Turquia está lutando, por sua vez, com os ricos.

"Os muçulmanos aqui costumavam ser testados pela pobreza", diz Sehminur Aydin, uma empresária muçulmana praticante e filha de um magnata da indústria manufatureira. "Agora são testados pela riqueza".

Alguns dizem que os turcos religiosos estão falhando no teste, e parecem ver a atual crise econômica como uma lição para os que se entregaram aos piores excessos do consumismo, retratados pelo trabalho de um decorador de interiores turco: um banheiro com torneiras incrustadas de cristais Swarovski, um quarto com piscina, e um sofá com controle remoto que é içado até o teto na hora das orações.
"Conheço pessoas que estouraram seus cartões de crédito", diz Aydin.

Mas além da crise, não importa quão severa, existe a realidade: hoje a classe rica religiosa tem poder na Turquia, um fenômeno novo que apresenta desafios não apenas para a antiga elite secular, mas também em relação ao que os bons muçulmanos pensam sobre si mesmos.

O dinheiro está no cerne das mudanças que transformaram a Turquia. Em 1950, o país era em grande parte uma sociedade agrária, com 80% de sua população vivendo em áreas rurais. Sua economia era fechada e moedas estrangeiras eram ilegais. Mas um ministro com idéias avançadas, Turgut Ozal, abriu a economia. Agora a Turquia exporta bilhões de dólares em bens para outros países europeus, e cerca de 70% de sua população mora nas cidades.

Os turcos religiosos ajudaram a colocar novos governantes no poder, mas por muitos anos eles foram segregados pela elite social. Isso ajuda a explicar porque muitos fazem um esforço tão desesperado para provarem seu valor, diz Safak Cak, um decorador de interiores com muitos clientes ricos e religiosos. "É por causa da forma como os rotulávamos", diz ele. "Olhávamos para eles como pessoas negras".

Cak estava se referindo à grande divisão de classes da Turquia. A classe alta urbana, geralmente conhecida como Turcos Brancos, comandou o poder político e econômico no país durante décadas. Eles viam a si mesmos como transmissores dos ideais seculares de Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da Turquia. Eles se sentiram ameaçados pela ascensão da classe mercantil rural e religiosa, principalmente de seu representante político, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

"A antiga classe não estava preparada para dividir o poder econômico e político", disse Can Paker, presidente da Fundação de Estudos Sociais e Econômicos Turcos, instituto de pesquisa de Istambul. "A nova classe está compartilhando dos mesmos hábitos, como dirigir um Mercedes, mas também continua usando lenços na cabeça. A antiga classe não suporta isso".

"'Eles eram camponeses', pensam, diz Paker. "'Por que estão entre nós?'". Aydin, 40, que usa um lenço na cabeça, enfrentou essa atitude há pouco tempo em um dos bairros mais chiques de Istambul. Uma mulher a chamou de "fundamentalista suja" quando Aydin tentou devolver o lixo que a mulher havia jogado pela janela do carro.

"Se você estiver dirigindo um bom carro, eles olham para você e apontam", diz Aydin. "A vontade é dizer: 'Eu me formei na escola francesa, assim como você', mas depois de um tempo, você não sente mais que tem de provar seu valor".

Ela não precisa disso.

Seu pai começou vendendo cortinas. Agora ele é dono de um dos maiores negócios de utilidades domésticas da Europa. Aydin cresceu tendo dinheiro, com gostos nada diferentes das pessoas da classe antiga. Ela mora numa casa moderna, elegante, com piscina, num condomínio. Seu filho freqüenta uma escola particular de prestígio. Formada em administração, ela gerencia cerca de 100 pessoas num hospital particular fundado por seu pai. O lenço na cabeça a proíbe de ser contratada por um hospital estadual.

Seu marido, Yasar Aydin, dá de ombros. "Em qualquer lugar, os ricos não gostam dos recém-chegados", disse ele. Daqui a uma década, esses preconceitos terão acabado, diz ele.

Os empresários descrevem a si mesmos como muçulmanos com uma ética de trabalho protestante, e dizem que trabalhar duro aprofunda a fé.

"Não podemos nos deitar sobre nosso petróleo como os países árabes", disse Osman Kadiroglu, cuja família é dona de uma grande companhia de balas na Turquia, com fábricas no Azerbaijão e na Algéria. "Não há saída exceto produzir".

As fortunas foram acumuladas, formando novos modelos de consumo.
Istambul, a capital econômica da Turquia, é quarta cidade do mundo com o maior número de bilionários, segundo a última lista da Forbes.
Carros de luxo passeiam por suas ruas. Os shoppings, 80 na última contagem, estão se proliferando.

"Agora, infelizmente, há um gosto pelo luxo, consumo excessivo e conforto, vaidade, exibicionismo e ganância", diz Mehmet Sevket Eygi, um colunista de jornal de 75 anos de idade, que escreveu bastante sobre os muçulmanos e a riqueza.

Um conceito islâmico chamado "israf" proíbe consumir mais do que o necessário, mas o limite não é claro, o que deixa os muçulmanos ricos se questionando se carros de luxo podem ser compensados por doações, um princípio central do Islã.

"Você tem dinheiro, mas você compra tudo o que quer?" disse Recep Senturk, um sociólogo do Centro de Estudos Islâmicos em Istambul. "Ou você mantém uma vida humilde? Esse é o debate que acontece na Turquia agora".

O Islã exige que os ricos dêem uma porção de sua renda para os pobres.
No Império Otomano, isso pagou por tudo, desde hospitais até pratos quebrados por empregadas nas casas ricas.

Doações para a Deniz Feneri, uma das maiores organizações beneficentes da Turquia, aumentaram quase 100 vezes entre 1999 e 2006, quando chegaram a US$ 62 milhões.

Até a arquitetura das casas leva a caridade em conta. Cak descreveu uma casa multimilionária cujo projeto incluía uma cozinha de tamanho industrial onde diariamente se preparava comida para ser distribuída por caminhões.

Aydin, por sua vez, sustenta 25 famílias. O problema na verdade não é encontrar um lugar para rezar num dia movimentado fora de casa (vestiários de shopping funcionam), mas ser verdadeiramente caridoso e colocar os outros em primeiro lugar quando o ritmo de vida frenético empurra para outra direção. Ela se atém às tradições, como os feriados muçulmanos, ferrenhamente.

"O mundo está mudando, mas eu não quero perder isso", disse.

(Tradução: Eloise De Vylder) Eloise De Vylder

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