UOL Notícias Internacional
 

07/01/2009

Israel impede os repórteres de olharem a guerra de perto

The New York Times
Ethan Bronner
Do The New York Times
Em Jerusalém
Três vezes nos últimos dias, um pequeno grupo de correspondentes estrangeiros foi informado a comparecer na travessia de fronteira para Gaza. Os repórteres seriam autorizados a cobrir pessoalmente a guerra israelense contra o Hamas, de acordo com uma decisão da Suprema Corte contra a proibição israelense de entrada dos jornalistas em Gaza, há dois meses.

Toda vez eles eram impedidos por motivos de segurança, apesar de funcionários de ajuda humanitária e outros cidadãos estrangeiros serem autorizados a cruzar a fronteira. Na terça-feira, os repórteres foram informados a não se darem ao trabalho de vir.

E assim, pelo 11º dia da guerra de Israel em Gaza, várias centenas de jornalistas que estão aqui para a cobertura, aguardavam em grupos, distantes do contato direto com qualquer combate ou sofrimento palestino, mas com pleno acesso aos comentaristas políticos e militares israelenses ávidos em lhes mostrar o sul de Israel, onde os foguetes do Hamas aterrorizam os civis. Um grande número de grupos privados financiados principalmente por americanos estão ajudando a guiar a imprensa ao redor de Israel.

Como todas as guerras, esta aqui se trata em parte de relações públicas. Mas diferente de qualquer guerra na história de Israel, nesta aqui o governo está buscando o controle total da mensagem e da narrativa por motivos políticos e de estratégia militar.

"Isto é resultado do que aconteceu na guerra de 2006 no Líbano contra o Hizbollah", disse Nachman Shai, um ex-porta-voz do exército que está escrevendo uma tese de doutorado sobre a diplomacia pública de Israel. "Na época, a imprensa estava por toda parte. Suas câmeras e gravadores registraram as discussões entre os comandantes. As pessoas falavam ao vivo na televisão. Isso ajudou o inimigo e confundiu e desestabilizou a frente doméstica. Hoje, Israel está tentando controlar mais estreitamente a informação."

A investigação pós-guerra no Líbano, requisitada pelo governo, relatou que o exército descobriu que quando os repórteres eram autorizados a ingressar no campo de batalha no Líbano, eles atrapalhavam as operações militares ao se colocarem em perigo e fazer perguntas.

A major Avital Leibovich, uma porta-voz do exército, disse: "Se um jornalista é ferido ou morto, então é responsabilidade do Comando Central". Ela disse que o governo está tentando proteger Israel do disparo de foguetes e "não lidar com a mídia".

Além dessas considerações táticas, há uma política. Daniel Seaman, diretor do escritório de imprensa do governo de Israel, disse: "Qualquer jornalista que entra em Gaza se torna uma folha de parreira para a organização terrorista do Hamas, e não vejo motivo para ajudarmos nisso".

Os repórteres estrangeiros negam que seu trabalho em Gaza está sujeito a censura ou controle pelo Hamas. Incapazes de enviar repórteres estrangeiros para Gaza, a imprensa internacional tem contado com os jornalistas palestinos baseados lá para a cobertura.

Mas ao que parece, muitos israelenses aceitam a avaliação de Seaman e não se incomodam com as restrições, apesar dos repetidos protestos da Associação da Imprensa Estrangeira de Israel, inclusive na terça-feira.

Uma manchete na edição de terça-feira do "Yediot Aharonot", o jornal diário mais vendido do país, expressou muito bem a visão popular sobre o assunto. Em um artigo descrevendo a cobertura em geral negativa até o momento, especialmente na imprensa européia, um erro ortográfico intencional em uma palavra hebraica transformou a manchete "Mídia Mundial" em "Mentirosos Mundiais".

Esta postura tem contado com a ajuda da imprensa israelense, cujos artigos estão repletos de "sentimentos de superioridade moral e um senso de catarse após o que foi sentido como uma contenção indevida diante dos ataques pelo inimigo", segundo um estudo sobre os primeiros dias da cobertura da guerra pela imprensa por um grupo liberal mas não-partidário, chamado Keshev, o Centro para a Proteção da Democracia em Israel.

A Associação da Imprensa Estrangeira está lutando há semanas para colocar seus membros em Gaza, primeiro apelando às autoridades do governo e no final levando seu caso até a mais alta corte do país. Na semana passada, os ministros acertaram um acordo com a organização, no qual pequenos grupos seriam autorizados a entrar em Gaza quando fosse seguro o bastante para que as travessias fossem abertas por outros motivos.

Até o momento, toda vez que a fronteira foi aberta, os jornalistas não foram autorizados a entrar.

Na terça-feira, a associação de imprensa divulgou uma declaração dizendo: "A negação sem precedente de acesso a Gaza para a imprensa mundial representa uma séria violação da liberdade de imprensa, colocando o Estado de Israel na companhia de um punhado de regimes ao redor do mundo que regularmente impedem os jornalistas de fazerem seu trabalho".

Ao mesmo tempo que os repórteres têm menos acesso a Gaza, o governo criou uma nova estrutura para moldar sua mensagem pública, assegurando que porta-vozes das principais áreas do governo se reúnam diariamente para assegurar que todos cantem segundo a mesma partitura.

"Nós estamos tentando coordenar tudo o que tem a ver com a imagem e conteúdo do que estamos fazendo, para assegurar que o que for ao ar, seja um ministro, ex-professor ou ex-embaixador, saiba o que ele está dizendo", disse Aviv Shir-On, vice-diretor geral de mídia do Ministério das Relações Exteriores. "Nós temos temas de discussão e tentamos disseminar nossas idéias e mensagens."

Os israelenses dizem que a guerra está sendo reduzida nas telas de televisão de todo o mundo a uma história simplista: um país apoiado pelos americanos, com uma máquina militar impressionante, combatendo uma força guerrilheira de terceiro mundo, levando a um punhado de israelenses mortos contra 600 palestinos mortos.

Os israelenses e aqueles que os apóiam acham que estas descrições rápidas não explicam o contexto vital do que está acontecendo - anos de disparos de foguetes terroristas contra civis passaram sem ser respondidos e uma mensagem precisa ser enviada aos inimigos de Israel, a de que isso não será mais tolerado, eles disseram. A questão da proporcionalidade, eles acrescentam, é um argumento falso, porque comparar número de mortos não oferece qualquer ajuda na medição de justiça e legitimidade.

Há outras formas de interpretar o contexto deste conflito, é claro. Mas os diplomatas sabem que se os jornalistas tiverem a opção de cobrir morte e cobrir contexto, a morte vencerá. Logo, em uma guerra que consideram necessária, mas que é pouco compreendida, eles decidiram manter a imprensa distante da morte.

John Ging, um irlandês que dirige as operações da Agência das Nações Unidas para a Ajuda aos Refugiados Palestinos, entrou em Gaza na segunda-feira enquanto os jornalistas eram mantidos de fora. Ele disse aos repórteres palestinos em Gaza que a política era um problema.

Ele disse: "Para que a verdade possa sair, os jornalistas têm que entrar".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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