UOL Notícias Internacional
 

10/01/2009

Latinos nos EUA são vítimas de agressões motivadas por ódio racial

The New York Times
Anne Barnard*
Em Patchogue, Estado de Nova York (EUA)
Carlos Orellana, um trabalhador da construção civil nascido no Equador, conta que caminhava do trabalho para casa nesta pequena cidade de Long Island em 14 de julho do ano passado, quando cerca de doze adolescentes em bicicletas o jogaram no chão e a seguir o espancaram, gritando: "Volte para o México".

Orellana, 39, diz que desmaiou, e, quando acordou, percebeu que tinham levado os seus sapatos e US$ 20. Ele telefonou para a polícia e disse que reconhecia alguns dos adolescentes, que agrupam-se com frequência na Main Street (a rua principal da cidade). Mas as fotos de delinquentes que a polícia mostrou a ele não ajudaram. A polícia classificou o caso como "second-degree robbery" (roubo mediante o uso da força), e ninguém foi preso.

Ataques como o denunciado por Orellana têm chamado atenção depois que Marcelo Lucero, um outro imigrante equatoriano, foi morto a facadas em 8 de novembro do ano passado perto da Main Street. Os procuradores dizem que sete adolescentes de 16 e 17 anos, em sua maioria moradores do bairro de Medford, atacavam Lucero quando um deles investiu contra a vítima com uma faca. Tais ataques consistiam em um passatempo tão comum para eles que os jovens, que alegaram inocência, utilizaram um termo casual e derrogatório para classificá-lo: "beaner hopping" (o termo preconceituoso, faz uma alusão aos "hopping beans", ou "feijões saltadores mexicanos", e é usado pelos adolescentes transviados para definir "ataques contra latinos"). Um dos jovens disse às autoridades policiais: "Eu não faço isso com muita frequência. Talvez apenas uma vez por semana".

Esses incidentes não são novidade para os latinos de Patchogue, que afirmam que os assédios, as agressões e os espancamentos regulares fazem com que vivam com medo. O "New York Times" ouviu 11 latinos que relataram 13 ataques do gênero, nove deles ocorridos nos últimos dois anos.

Mas a polícia do Condado de Suffolk diz que, para ela, isso é novidade.

"Não percebemos essa tendência", disse em uma entrevista no mês passado Richard Dormer, comissário de polícia do condado. "E isso nos preocupa".

Orellana é um dos vários moradores que acreditam que Lucero atualmente estaria vivo caso a polícia tivesse levado mais a sério os crimes contra os latinos e reconhecido esses ataques como os sintomas de um problema maior. Embora alguns imigrantes latinos expliquem que relutam em denunciar os crimes porque estão no país ilegalmente e temem discriminação, eles e as pessoas que defendem os seus direitos acreditam que a polícia só não enxergou um padrão problemático porque não quis.

"Já falei para as pessoas que as autoridades locais estavam esperando que um branco matasse um latino ou um latino matasse um branco", diz Orellana. "Eles continuam nos atacando e roubando, e nada muda. Teve que haver a morte, e a vítima foi Lucero".

Os promotores que atuam no caso dizem que, no dia do assassinato, os adolescentes indiciados pelo ataque contra Lucero perseguiram um outro latino e atiraram em outro com uma BB gun (arma de ar comprimido que dispara projéteis metálicos). Mas os problemas tiveram início muito antes da morte de Lucero. E, segundo os relatos das vítimas, um número bem maior de adolescentes está envolvido nos ataques.

No mês passado, jornalistas do "New York Times" conversaram com 11 latinos que descreveram detalhadamente os ataques dos quais foram vítimas ou testemunhas. As agressões descritas por eles encaixam-se em um padrão: grupos de adolescentes - frequentemente de cidades vizinhas - perambulam por Patchogue e atacam latinos sem que haja qualquer provocação por parte destes últimos.

Segundo os entrevistados, os grupos são compostos em sua maioria de adolescentes brancos, mas às vezes incluem agressores negros ou latinos, ou garotas que observam as ações. Não foi possível comprovar independentemente as histórias contadas por eles. Alguns possuem números dos protocolos de queixas na polícia ou contas hospitalares: a maioria não tem documentação alguma.

O "New York Times" apresentou aos policiais do Condado de Suffolk detalhes de cada relato. Dormer disse que a polícia está conduzindo profundas investigações de vários casos que foram apresentados a ele, mas recusou-se a tecer comentários sobre casos individuais.

Os imigrantes afirmam que têm uma parcela da responsabilidade, porque alguns deles não prestaram queixas de ataques anteriores. Muitos temem a polícia porque estão no país ilegalmente; alguns fornecem nomes falsos; outros não sabem como funciona o sistema de justiça penal nem como documentar os contatos mantidos com a polícia. Grupos de defesa dos direitos dos imigrantes dizem que a polícia muitas vezes alimenta um ciclo de desconfiança ao indagar de forma inapropriada a situação das vítimas perante as leis de imigração. A polícia nega a acusação.

Mas a maioria daqueles que falaram ao "New York Times" disse que eles, ou uma testemunha, telefonaram para a polícia. Vários disseram que os policiais receberam as informações e pediram a eles que tentassem identificar os criminosos em fotos. Mas cinco homens que foram vítimas de ataques raciais acreditam que a polícia não abordou os casos com a seriedade que se fazia necessária. Um deles afirmou que um policial lhe disse que não poderia prender menores de 18 anos; um outro disse que a polícia o desencorajou a preencher um formulário formal de queixa; e um terceiro contou ter visto uma vítima ser presa depois que os agressores disseram aos policiais que foi o latino que deu início à briga.

Em 3 de dezembro do ano passado, o grupo de defesa de direitos dos latinos Hispanics Across America e a Igreja Congregacional de Patchogue convidaram as vítimas a comparecerem à igreja para relatar casos a defensores dos direitos humanos e autoridades, incluindo a polícia, o procurador-geral distrital, o FBI e o Departamento de Justiça. A maioria dos homens da comunidade latina ouvida pelo "New York Times" narrou os fatos também na igreja. Orellana contou a sua história, e no dia seguinte a polícia levou mais fotos de criminosos à casa dele. Desta vez, ele identificou vários dos agressores.

Segundo ele, um dos criminosos, Jeffrey Conroy, um atleta bastante conhecido na escola secundária foi acusado de esfaquear Lucero.

O advogado de Conroy, William Keahon, diz que Conroy não atacou Orellana, acrescentando que a cobertura da imprensa pode ter distorcido a memória da vítima.

No início de dezembro, Dormer ordenou ao departamento de polícia que investigasse milhares de registros de queixas apresentados no ano passado no 5º Distrito Policial, que inclui Patchogue, "para verificar se há algo que nos passou despercebido", disse ele, acrescentando: "Não somos tão ingênuos a ponto de achar que não está ocorrendo nada de errado".

Ainda que o departamento conte com o CompStat, um sistema computadorizado que ajuda a identificar padrões criminosos, a polícia pode ter deixado de perceber uma determinado padrão caso os policiais tenham registrado incidentes similares de forma inconsistente, como "desordem", "informação policial" ou "assédio", afirma Dormer. Ele disse que os policiais receberão novas diretrizes para o registro de queixas.

Foster Maer, conselheiro para questões litigiosas do grupo de assistência legal a latinos LatinoJustice PRLDEF, afirma que o problema é mais profundo. "Há algo de errado sob o ponto de vista sistêmico", diz ele.

Fernando Mateo, presidente da Hispanic Across America, concorda: "Havia um determinado padrão, e os policiais o conheciam".

A LatinoJustice pediu que autoridades federais investiguem a conduta dos policiais, e o procurador-geral do Condado de Suffolk está investigando mais de dez queixas de violência praticada contra imigrantes.

A Main Street de Patchogue tem prédios de tijolos vermelhos e uma creche que toca a música natalina "Noite Feliz" tão alto que dá para ouvi-la no interior dos veículos que passam por ela com os vidros fechados. Ao contrário de ruas principais de outras cidades, que foram dizimadas pelas grandes redes de lojas, a de Patchogue ainda funciona com um autêntico centro tradicional de cidade.

Um motivo pelo qual a Main Street ainda está viva é a movimentação de pedestres imigrantes, que instalaram-se nos quarteirões em torno do centro da cidade. Mas esse fluxo migratório colocou Patchogue no centro de um debate doloroso.

Segundo as autoridades, devido à imigração a população latina de Long Island aumentou 70% de 1990 e 2000, de acordo com dados do censo, e desde então cresceu ainda mais rapidamente.

Em meio a tais mudanças, as tensões aumentaram, e, em alguns casos, a violência irrompeu. Em 2000, dois homens que fingiram ser donos de construtoras sequestraram dois trabalhadores de Farmingville e os espancaram até a morte com uma barra de ferro. Em julho de 2003, um grupo de adolescentes ateou fogo à residência de uma família mexicana em Farmingville. Steve Levy, o administrador executivo do condado, usou como plataforma política uma proposta de adoção de leis duras contra a imigração ilegal, e foi reeleito em 2007 com 96% dos votos. Em 2004, ele tentou impor uma regra que obrigasse a polícia a checar a situação dos estrangeiros no que se refere às leis de imigração, mas abandonou o plano depois que um sindicato policial argumentou que isso faria com que os imigrantes tivessem medo de falar com a polícia.

No decorrer dos anos, os imigrantes, atraídos pelo preço relativamente acessível das moradias, instalaram-se em Patchogue, uma cidade de 12 mil habitantes de população tradicionalmente branca. Desde 2003, a proporção de alunos latinos na Escola Distrital de Patchogue-Medford aumentou de 4% para 24%.

Paul V. Pontieri Jr., o prefeito de Patchogue, diz acreditar que o debate sobre a imigração retratou os imigrantes como "animais" e estimulou os crimes cometidos por indivíduos que veem os novos estrangeiros como "material descartável". Ele afirma que alguns moradores culparam os recém-chegados e os custos para assimilá-los pelos orçamentos austeros que resultaram na imposição de cortes financeiros nas escolas de segundo grau.

"É comum que durante as refeições os jovens falem sobre como uma viagem escolar que aguardavam foi cancelada", diz o prefeito. "Nós, como adultos, precisamos balizar as nossas conversas de maneira diferente".

Porém, as autoridades de Patchogue perceberam de fato a presença de adolescentes ameaçadores, a ponto de no verão passado terem adotado uma diretriz segundo a qual os policiais podem confiscar bicicletas que trafegam nas calçadas. Além disso, policiais desarmados foram colocados na biblioteca municipal, onde os imigrantes são frequentemente assediados.

Dormer diz que a polícia se empenhou em solucionar o problema antes da morte de Lucero, tendo organizado reuniões comunitários e ensinado espanhol básico aos policiais. Mas, segundo ele, nenhum morador informou a polícia a respeito do tamanho do problema na região de Main Street.

Após o assassinato, Dormer transferiu um comandante hispânico para o cargo de chefia do 5º Distrito Policial, designou uma patrulha composta de policiais que falam espanhol para atuar a pé em Patchogue e nomeou o sargento Lola Quesada, nascido no Equador, para o cargo de oficial de ligação entre a polícia e a comunidade. Ele afirma que o departamento investigará qualquer novo relato de negligência policial.

Em 22 de setembro de 2007, Sergio Yanza estava sentado na varanda com amigos na varanda da sua casa em Evergreen Street quando um grupo de 16 a 20 adolescentes com idades entre 13 a 18 anos aglomerou-se na rua em frente à sua casa. Eles jogaram pedras e galhos - e, mais tarde, achas pesadas de lenha - contra Yanza e seus convidados, subiram e pularam no seu carro e gritaram ofensas pesadas a pessoas "espanholas".

Os jovens fugiram antes da chegada da polícia. Atingido na cabeça por uma pedrada, Yanza, 38, foi levado ao hospital onde levou oito pontos. Ele não recebeu da polícia nenhum documento sobre a ocorrência e não sabe o que foi feito do caso. A polícia recusou-se a fazer comentários.

Carlos Angamarca, um trabalhador da construção civil que veio do Equador, diz que ele e amigos foram atacados no verão de 2007 por um grupo de jovens brancos que os agrediram com socos e chutes. Ele suplicou a uma mulher que passava de carro que ligasse para a polícia, mas ela deu risadas. Angamarca conta que, poucos minutos depois, viu os jovens entrando no carro dela e fugindo.

"É como uma caçada", afirma Angamarca. A polícia mostrou-lhe fotos de criminosos fichados, mas ele não conseguiu reconhecer ninguém.

Em 11 de julho do ano passado, cinco ou seis adolescentes cercaram Mauro Lopez, um equatoriano de 45 anos, em uma rua escura de Patchogue. Eles o atacaram com um spray contendo um líquido que provoca ardor nos olhos, chutaram-no, morderam a sua orelha e o espancaram com bastões e tacos de beisebol. Ele roubaram US$ 300 dólares, os seus documentos, roupas e sapatos. Mais tarde a polícia passou em uma viatura e viu Lopez quase inteiramente nu agachado em uma calçada. Ele conta que os policiais falaram com ele do carro em espanhol. Mas Lopez teve medo, e respondeu: "Sem problemas", e a seguir foi para casa. Ele acredita que a polícia não percebeu os seus ferimentos.

A polícia abriu uma investigação depois que Lopez registrou uma queixa sobre o ataque no mês passado. Os policiais afirmam que Lopez lhes disse que o carro estava a um quarteirão de distância, e que não sabem se o equatoriano conversou com algum policial naquela noite.

Lopez conta que tratou dos ferimentos em casa, embaraçado e sozinho. "Eu tive vontade de engolir a mim mesmo", diz ele. Cinco meses depois, ele ainda padece de dores de cabeça e tem a visão embaçada. Ele não conseguiu mais trabalhar.

*Lindsey McCormack, Jack Styczynski e Karen Zraick contribuíram para esta matéria.

Tradução: UOL

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