UOL Notícias Internacional
 

10/01/2009

No Cairo, cresce a inquietação em torno do conflito em Gaza

The New York Times
Michael Slackman*
No Cairo (Egito)
Dentro da mesquita Al Azhar, um centro milenar de ensino religioso, o pregador criticava os judeus na sexta-feira (09/01). Do lado de fora, as tropas de choque da polícia formavam fileiras, apoiadas por canhões de água e dezenas de policiais à paisana, posicionados para impedir que os fiéis tomassem as ruas para protestar contra a guerra em Gaza.

"Irmãos muçulmanos", disse o pregador nomeado pelo governo, o xeque Eid Abdel Hamid Youssef, "Deus infligiu à nação muçulmana um povo com o qual Deus se enfureceu e ao qual amaldiçoou, os transformando em porcos e macacos. Eles mataram profetas e mensageiros e semearam a corrupção na Terra. Eles são os mais malignos na Terra".

Enquanto a guerra em Gaza chega ao seu 14º dia, os governos árabes sentiram sua legitimidade contestada com uma virulência incomum. A cada dia que passa, a cada palestino que morre, a popularidade do Hamas e de outros movimentos radicais cresce ainda mais nas ruas árabes, enquanto a dos líderes árabes no poder despenca.

Em nenhum outro lugar no mundo árabe a distância entre as ruas e o governo é tão grande quanto aqui no Egito, que tem um acordo de paz com Israel e se recusa a permitir o livre trânsito de bens e pessoas por sua fronteira com Gaza, uma decisão que é atacada por líderes árabes e islâmicos e é profundamente perturbadora para muitos egípcios.

E assim o governo do presidente Hosni Mubarak pareceu se apoiar em sua fórmula padrão para preservação da autoridade na Oração de Sexta-Feira, empregando suas forças de segurança para manter a calma na rua e em instituições religiosas do governo como Al Azhar, buscando apaziguar o sentimento público, neste caso uma reação contra os judeus em resposta a Gaza.

"A pressão está crescendo no Egito", disse Abdel Raouf el-Reedy, um ex-embaixador egípcio nos Estados Unidos. "Como é possível manter o embaixador israelense aqui? Como é possível manter o embaixador egípcio em Israel? Como é possível ainda exportar gás para Israel apesar da ordem judicial para suspensão? O sistema está na defensiva. A opinião pública está claramente do lado do Hamas."

O clima nas ruas do Cairo é sombrio. Há uma presença pesada de segurança. Tropas de choque armadas estão reunidas do lado de fora de organizações profissionais, como o Sindicato dos Médicos, que são freqüentemente dirigidas por membros alinhados com a Irmandade Muçulmana, o movimento islâmico oficialmente ilegal, porém tolerado. Veículos de transporte de tropas congestionam as pequenas travessas da cidade.

Em três dias de entrevistas realizadas aqui, as pessoas parecem abatidas com as críticas públicas feitas contra seu país, decepcionadas com o fracasso de seu próprio governo em ajudar os palestinos e doentes com as mortes de centenas de palestinos, muitos deles combatentes, mas também muitas mulheres e crianças. Repetidas vezes, os egípcios disseram que sentem que os únicos em que podem confiar são os radicais islâmicos -não seu governo.

"O trabalho da Irmandade Muçulmana lhe dá credibilidade", disse Heba Omar, 27 anos, que coletou cerca de US$ 4 mil juntos aos seus vizinhos para doar para uma caridade controlada pelos membros da irmandade. "Eles fazem o que podem em momentos de crise."

Na quinta-feira, três jovens olhavam em meio à garoa para as águas cinzentas do Nilo, com livros escolares debaixo do braço, com jaquetas fechadas até o queixo por causa do frio do inverno. "É claro que estamos tristes", disse Muhammad Atef, em uma voz baixa e desanimada. "Não podemos fazer nada. Não há nada em nossas mãos."

Atef e seus colegas de escola, Hazem Khaled e Ramy Morsy, todos com 19 anos e estudando para serem eletricistas, estavam caminhando ao longo do Nilo, do lado oposto à imponente torre que abriga o Ministério das Relações Exteriores do Egito.

Os diplomatas que estão lidando com a crise estão em Nova York, na ONU. Mas os jovens disseram que estão olhando para outro lugar em busca de uma chance de ajudar os palestinos. "Os islamitas são muito próximos de nós", disse Atef.

"São pessoas em que podemos confiar", disse Khaled.

"Nós confiamos nas organizações islamitas", disse Morse.

Conversas como esta têm ajudado a pressionar o Egito a mudar sua posição em relação à Gaza, se não suas políticas de fato. Quando a guerra teve início, o ministro das Relações Exteriores, Ahmed Aboul Gheit, atacou o Hamas, o acusando de ter incitado a violência ao não dar ouvidos aos alertas de Israel para que suspendesse os disparos de foguetes.

O Egito adotou uma posição semelhante em 2006, acusando o Hezbollah de ter provocado Israel e provocado a campanha de bombardeio contra o Líbano, ao capturar dois soldados israelenses em 2006. Mas agora, como daquela vez, o governo mudou rapidamente de posição diante do ultraje público.

"Mubarak perdeu a credibilidade, não apenas no mundo árabe, mas também no Egito", disse Fahmy Howeidy, um escritor egípcio com inclinação islamita cujo trabalho costumava ser publicado no principal jornal controlado pelo governo, o "Al Ahram".

O Egito buscou rapidamente recuperar sua posição ao promover uma iniciativa de cessar-fogo. Ela fracassou e a pressão está novamente crescendo. Especialistas políticos e militares daqui disseram que as autoridades estão buscando fortalecer o Fatah, a facção secular palestina, que foi expulsa pelo Hamas e agora está encarregada da Cisjordânia. Mas eles temem que à medida que prosseguem os combates, sua relutância em ajudar o Hamas resultará no oposto. O Fatah poderá ser minado e o Hamas fortalecido.

"Eu não acho que o Fatah poderá voltar para Gaza", disse Reedy. "Esta é a ironia do poderio militar de Israel. Ele não eliminará o Hamas. O Hamas sobreviverá na mente das pessoas."

Para as pessoas comuns, as preocupações do Estado empalidecem diante do desejo de ajudar a deter o derramamento de sangue. Na Oração de Sexta-Feira, que serve como um nexo entre religião e política para os muçulmanos, os principais estudiosos islâmicos no Oriente Médio pediram para os muçulmanos de todo o mundo se unirem sob a bandeira do Islã para ajudar. E os pregadores ouviram seu pedido, freqüentemente se voltando contra Israel, o povo judeu, os Estados Unidos e Mubarak.

"A verdade sobre os judeus é que mataram profetas e mensageiros, romperam pactos e promessas entre eles e outras nações", disse Ilyas Ait Siarabi, durante seu sermão em uma mesquita de bairro em Argel. "E eles buscam derramar o sangue e matar as almas de velhos, mulheres e crianças fracas inocentes."

Na Al Azhar controlada pelo governo, no Cairo, o xeque Yousef encerrou seu sermão pedindo por unidade. "Irmãos muçulmanos, a divisão atual entre os muçulmanos é o que os enfraquecem e permite que os inimigos os atinjam", ele disse, com sua voz reverberando pelos alto-falantes montados do lado de fora da mesquita. "O que temos que fazer, irmãos muçulmanos, é nos unirmos e fortalecermos nossas frentes externas e internas."

Antes do início do serviço religioso, uma mulher se levantou em frente ao setor das mulheres -homens e mulheres rezam em áreas separadas da mesquita- e pediu a todos que permanecessem após seu encerramento. Ela disse que queria que as mulheres criassem uma parede para proteger os homens, que planejavam protestar, de serem levados ou agredidos pela polícia. Quando a cerimônia terminou, uma mulher se ergueu e gritou: "Abram a fronteira, abram a fronteira".

Um policial gritou para que todos partissem e a congregação saiu para a rua repleta de seguranças e tropas de choque. A manifestação não ocorreu.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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