UOL Notícias Internacional
 

11/01/2009

A biografia epopéica de Gabriel García Márquez

The New York Times
Por Tomas Eloy Martínez
Da última vez que vi Gerald Martin, em março de 2007, ele já estava há 15 anos trabalhando na biografia de Gabriel García Márquez.

"Alguém leu alguma linha desse livro?", costumava provocá-lo o escritor colombiano. "Ou, pelo menos, alguém conhece alguém que já leu uma linha desse livro?"

Martin me contou que Mercedes Barcha, a esposa de seu biografado, que sempre o havia tratado muito bem, parecia um pouco farta.

"Com certeza ela deve se perguntar: 'Como esse sujeito vem durante tantos anos e não escreve nada?' Mas, sabe, na semana que vem vou entregar aos editores o original terminado".

Houve, desde então, algumas mudanças: o livro, que havia chegado às 2.500 páginas, acaba de ser publicado na Inglaterra numa versão reduzida a 664 páginas. Bill Swainson, editor da Bloomsbury, anunciou no México que o livro também sairá em maio nos Estados Unidos. América Latina e Espanha deverão esperar até a segunda metade de 2009. As primeiras críticas dizem que a riqueza dos testemunhos acumulados por Martin em sua titânica pesquisa intimidará a qualquer outro biógrafo que trate de seguir seus passos.

Dos mais de 300 entrevistados, alguns já estão mortos e outros não abrem suas agendas generosamente: o líder cubano Fidel Castro, o ex-primeiro ministro da Espanha Felipe González e vários presidentes colombianos encabeçam a lista, junto aos escritores Carlos Fuentes do México, o peruano Mario Vargas Llosa e o colombiano Álvaro Mutis.

Já Mercedes se declarou cansada dos biógrafos e Carmen Balcells, a agente literária de García Márquez, foi das mais difíceis de convencer. Os dois filhos, os irmãos e as irmãs, seus amigos, tradutores, discípulos, detratores, estudiosos - ninguém ficou de fora da curiosidade de Martin.

"Não sou o biógrafo autorizado de Gabo [apelido de Gabriel García Marquez]", resume. "Minha situação real é a de um biógrafo tolerado.
Ele autorizou que seus contatos falassem comigo, mas não tive acesso a sua intimidade nem me deu nenhum papel. Disse-me, por exemplo, que deixou de escrever cartas porque elas eram publicadas nos jornais ou então vendidas, porque logo depois de 'Cem Anos de Solidão' seus originais eram negociados por um valor incrível. Entretanto, não imagino uma biografia mais autorizada que esta. Não poderia ter feito essa pesquisa sem o seu consentimento. Poucos poderiam passar duas semanas de tempos em tempos, ao longo de 15 anos, em Cartagena, no México, em Havana. Ninguém mais vai entrevistar sua mãe, porque ela morreu. É improvável que Fidel Castro volte a conversar por tantas horas sobre Gabo".

A história, que já é uma lenda, começa no pequeno povoado de Aracataca, no Caribe colombiano, quando o primeiro dos 11 filhos de Luisa Santiaga Márquez e do telegrafista Gabriel Eligio García veio ao mundo em meio a uma tempestade. Depois desse nascimento de novela, Gabo teve uma infância nutrida de histórias que o transformariam "num pobre tabelião que copia o que lhe deixam sobre a escrivaninha", segundo disse a Martin.

Durante os sete anos que esteve sob os cuidados do coronel Nicolás Márquez, veterano da guerra dos Mil Dias, escutou os relatos mais inverossímeis sobre as guerras civis do século 19 e acalentou sua imaginação no circo e no cinema. A avó, Tranquilina Iguarán, foi um manancial de superstições; as tias lhe trouxeram seus próprios contos familiares e múltiplos desvios de uma realidade já por si exuberante.

Em outras ocasiões já contei que quando "Cem Anos de Solidão" foi publicado em Buenos Aires, em 1967, só duas pessoas esperavam o autor no aeroporto de Ezeiza - seu editor Francisco Porrúa e eu - e que dez dias mais tarde, quando foi embora, a multidão que o acompanhava era tão caudalosa que não pudemos nos despedir.

Martin descreve a fratura que o livro produziu na vida de García
Márquez: "Sentiu um alívio que o percorria em múltiplos níveis e numa centena de direções diferentes, um alívio em todos os esforços, angústias, fracassos e frustrações de sua vida; uma liberação e uma auto-afirmação encarnadas na criação extraordinária que ele sabia - ele sabia - que seria uma obra única, possivelmente imortal."

Agora que publicou seu livro, Martin percebeu que "a vida e a carreira extraordinárias de Gabriel García Márquez valeram o investimento de um quarto dos meus anos". A idéia, entretanto, não foi dele.

Martin é um acadêmico inglês, especializado em literatura latino-americana, autor de uma excelente edição anotada de "O Senhor Presidente", do escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias e, sobreutdo, um professor e crítico para quem uma biografia não passava pela imaginação. Quando um editor inglês sugeriu que ele escrevesse a de García Márquez, Martin descobriu que a idéia o atraía.

As vidas dos escritores costumam ser pobres em peripécias e o maior desafio dos biógrafos é olhar - e contar - o que acontece por dentro dos autores e que depois se derrama, transfigurado, em suas obras. Não foi esse o caso de Martin.

"É incrível como esse homem viveu", disse. "Os lugares: na Colômbia, obviamente em Aracataca, em Cartagena, em Barranquilla, em Bogotá; morou em Nova York, na França, na Espanha, em Cuba, na Venezuela, e é claro, no México. E os momentos: Em 1948 ele esteve a poucos metros de onde mataram Jorge Gaitán; em 1959 chegou a Cuba três semanas depois da revolução. Só esteve quatro meses em Nova York como correspondente para a Prensa Latina, mas foram os meses da Baía dos Porcos. Creio que haja muito poucos escritores tão vinculados a sua época como ele".

García Márquez já era uma celebridade mundial quando Martin se lançou a sua busca em Cuba, disposto a começar seu trabalho. Buscou a proteção de Alquimia Peña, diretora da Fundação do Novo Cinema Latino-Americano. Enquanto Alquimia esperava a ocasião para apresentá-los, Martin ficou sabendo por acaso do endereço do escritor em Havana e se apresentou em sua casa com a convicção de um vendedor de bíblias ou - como ele disse agora - movido talvez pelo pavor de renegociar sua passagem pela Aeroflot. Só pude deixar uma mensagem.

Devolveram com uma pequena nota ao pé: "Meu Mercedez Bens vai buscá-lo. Tem 10 minutos de entrevista".

O escritor assegurou ao biógrafo que os seres humanos têm três vidas:
"a pública, a privada e a secreta". A primeira e boa parte da segunda estão expostas com inteligência neste livro e entreabrem as portas para uma intimidade zelosamente guardada.

"Interessa-me explorar como as ficções de Gabo refletem sua vida de modo indireto", disse Martin. "Sua experiência aparece exposta a tal ponto em seus livros que cada um deles é, a seu modo, uma autobiografia encoberta".

A terceira vida, por sua vez, continua secreta. Na obra de Martin não há o menor indício das fraquezas sobre as quais o autor jamais quis falar e nem uma só palavra sobre o que ele se negou a mostrar.

Há 40 anos o escritor argentino Jorge Luís Borges afirmou que a obra mais importante de um escritor é a imagem que deixa de si mesmo na memória dos homens. García Márquez sempre teve uma consciência exata de sua importância histórica e até algumas de suas conversas incidentais diante de amigos estão povoadas de frases que parecem ditas para serem impressas. Não deixou nenhum gesto ou vírgula por acaso.

"Antes que eu mesmo o fizesse, Gabo percebeu que é o biógrafo que tem a última palavra", assinalou Martin. "Mas ainda assim, tenho a estranha sensação de que eu sou só um instrumento e que, inconscientemente, o que eu escrevi é o retrato que Gabo me ditou".

(Tomás Eloy Martínez é autor de "La Novela de Perón", "Santa Evita", "El Vuelo de la Reina", que ganhou na Espanha o prêmio Alfaguara de Novela, e de "El Cantor de Tango". Foi nomeado recentemente pelo primeiro Prêmio Internacional Man Booker, um prêmio bianual em reconhecimento a toda sua obra. Seus livros foram traduzidos para mais de 30 idiomas. É diretor do programa de Estudos Latino-americanos na Universidade de Rutgers e realiza viagens freqüentes como escritor e jornalista).

(Tradução: Eloise De Vylder)

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