UOL Notícias Internacional
 

11/01/2009

Detroit vai em direção à eletricidade; os motoristas seguirão?

The New York Times
Por Bill Vlasic
Em Dearborn, Michigan
(Lindsay Brooke contribuiu com a reportagem em Detroit)
Dentro da Ford Motor Co., o plano era chamado de Projeto M - a construção do protótipo de um carro totalmente elétrico, movido a bateria em apenas seis meses.

Quando começou no verão passado, a iniciativa foi considerada uma tarefa extremamente difícil pela pequena equipe de executivos e engenheiros designada para cumpri-la. Afinal, a indústria de automóveis pode levar anos para desenvolver um veículo.

Mas a Ford estava sentindo-se pressionada pelos competidores, e decidiu que não poderia dar-se o luxo de ficar para trás na corrida veloz para colocar carros elétricos nas concessionárias.

"Francamente, acho que é um risco não fazer isso", disse William C. Ford Jr., presidente executivo da companhia, numa entrevista. "Está claro que a sociedade está indo por esse caminho".

Com certeza, a Ford e outras indústrias automobilísticas estão
apostando bilhões de dólares nessa nova direção, numa época em que mal
podem pagar por isso e quando Detroit está passando pelo escrutínio do
governo depois da ajuda de US$ 17,4 bilhões para a GM e Chrysler.

No extenso Salão do Automóvel de Detroit, normalmente um templo para
os brutos cavalos de potência, as companhias automobilísticas
competirão esta semana para estabelecer suas credenciais verdes e
elétricas. No domingo, quando abre o salão, a Ford anunciará os planos
para seu veículo elétrico, incluindo seu objetivo de começar a
vendê-lo em 2011.

São apostas arriscadas. Não há garantias de que os consumidores -
apesar de toda a preocupação com o aquecimento global, a dependência
do petróleo estrangeiro e os preços imprevisíveis da gasolina -
comprarão carros elétricos suficientes. Eles podem se deter, por
exemplo, diante dos limites de autonomia do carro para percorrer
longas distâncias com apenas uma carga da bateria.

Mas as companhias poderiam conseguir alguma ajuda do presidente-eleito Barack Obama. Ele disse que está comprometido em promover os carros ecológicos, e pode propor incentivos para encorajar os consumidores e empresários a comprá-los.

A Ford planeja fazer apenas 10 mil veículos elétricos por ano no início - muito pouco para os padrões de Detroit - para testar o mercado com cautela.

Ainda assim, o interesse de Obama, e a variedade de projetos da Ford e outras companhias, convence alguns ambientalistas de que a indústria está levando a sério os carros elétricos.

"Acho que os dias dos motores de gasolina estão contados, mesmo que não saibamos quanto tempo eles ainda têm", diz Daniel Becker, chefe da Safe Climate Campaing (Campanha Salve o Clima), que faz parte do Centro para Segurança Automotiva, grupo de defesa dos direitos dos consumidores em Washington.

A corrida pela produção de carros elétricos está ganhando velocidade e competidores. A Toyota, que até agora estava concentrando seus
esforços em modelos híbridos, mostrará o conceito de um carro movido a bateria na exibição de Detroit. O diretor executivo da Nissan, Carlos Ghosn, prometeu vender um modelo elétrico nos Estados Unidos e no Japão já no ano que vem.

Duas indústrias japonesas, a Mitsubishi e a Fuji Heavy Industries, companhia associada à Subaru, também estão testando carros elétricos. E a Chrysler, a mais problemática das três companhias, prometeu produzir seu primeiro carro elétrico em 2010.

A tendência para os carros elétricos também parece estar incentivando os investimentos na produção de baterias avançadas nos Estados Unidos. A GM anunciará planos no salão de automóveis para construir uma fábrica nos Estados Unidos para montar baterias avançadas para seu modelo Chevrolet Volt, que espera começar a vender no ano que vem.

Os executivos da indústria automobilística dos EUA alertaram que sem fornecedores internos o país poderia se tornar potencialmente dependente das baterias fabricadas na Ásia, assim como depende do petróleo do Oriente Médio e outros lugares.

"As baterias são muito caras para os fabricantes de carros a menos que sejam produzidas em uma determinada quantidade", disse Brett Smith, analista do setor no Centro para Pesquisa Automotiva em Ann Arbor, Michigan. "Mas elas não podem ser produzidas em quantidade até que as companhias façam um grande investimento na fabricação".

A forte demanda dos consumidores também tem de fazer parte dessa equação. E ainda não está claro se os consumidores ficarão confortáveis com a ideia de comprar um carro elétrico, ou se esses veículos terão preços competitivos em relação aos modelos movidos a gasolina.

A Ford não revela quanto custará seu carro elétrico. O Chevrolet Volt deverá custar em torno de US$ 40 mil.

"É o momento certo para dar esse passo, mas seria presunção tentar prever como estará o mercado", diz Derrick M. Kuzak, diretor mundial de desenvolvimento de produtos da Ford.

Até agora, os consumidores se mostraram inconstantes em relação ao quanto se preocupam com a economia de combustível. Quando os preços da gasolina subiram para mais de US$ 4 por galão no ano passado, as vendas do carro híbrido líder do mercado, o Prius, aumentaram tão rápido que a Toyota não conseguiu acompanhar o ritmo na montagem. Mas a demanda diminuiu quando os preços da gasolina caíram para menos de US$ 2 por galão.

Analistas da indústria também observam que os modelos elétricos poderiam ser mais difíceis de vender do que os híbridos, que têm um motor à gasolina para auxiliar e recarregar as baterias, livrando-os da necessidade de serem plugados na tomada.

A maior parte dos possíveis modelos elétricos precisa ser carregada por várias horas para cobrir um dia de uso do carro. A Ford estima que seu carro precisará de pelo menos seis horas de carregamento para viajar 100 milhas (160 quilômetros). O Volt pode fazer 64 milhas movido somente à bateria, e tem um pequeno motor à gasolina que alimenta um gerador para estender seu alcance.

Os americanos, em média, dirigem menos de 56 quilômetros por dia, de acordo com as últimas estatísticas nacionais, e a indústria deve jogar com esse fator em suas campanhas publicitárias. Com tantas famílias com dois carros na garagem, elas podem ver os carros elétricos como uma escolha atrativa para viagens curtas e saídas rápidas.

Uma forma de eliminar a preocupação de ficar parado com uma bateria descarregada é permitir aos consumidores trocá-las durante a viagem. A empresa Better Place, de Palo Alto, Califórnia, está trabalhando com a Nissan e outras manufatureiras para montar estações para fornecer
trocas rápidas de bateria ou postos de recarga no Japão, Israel, Dinamarca e outros lugares. A companhia também assinou parcerias no Havaí e na Califórnia.

"O que vai determinar o mercado não será a duração das baterias, mas a distribuição da infra-estrutura para fornecer energia", diz Shai Agassi, diretor executivo da Better Place.

As primeiras tentativas de construção de veículos elétricos da indústria automobilística dos EUA aconteceram no final dos anos 90, quando a GM introduziu o EV-1. O carro, que esteve disponível em pequena quantidade apenas através de leasing, foi retirado de produção antes de construir uma base da adeptos (apesar de um documentário de 2006 sobre o EV-1 - "Quem Matou o Carro Elétrico?" - ter desenvolvido seguidores por conta própria).

A maior parte das grandes companhias automotivas tem anos de experiência com carros híbridos e seus sistemas elétricos. Apesar de o Projeto M da Ford ter começado no ano passado, os executivos disseram que a companhia estava indo nessa direção desde o começo da década. A Ford começou a vender o Escape, seu veículo utilitário esportivo híbrido, em 2004.

Ford lembra-se de quando ele costumava dirigir uma caminhonete elétrica experimental Ranger para o trabalho todos os dias. "A razão pela qual usamos a Ranger era que toda a parte de trás ficava cheia de baterias de chumbo-ácido", diz ele.

A criação de baterias menores e mais avançadas feitas de íons de lítio também permitiu às companhias de carros desenvolverem modelos que se parecem muito mais com veículos convencionais e tem o mesmo comportamento.

A Ford e seu fornecedor e parceiro, a empresa canadense Magna International, construíram o protótipo do Projeto M no corpo de um Ford Focus compacto. Eles estão planejando um desenho diferente para o produto final quando for ao mercado em dois anos.

As expectativas modestas para as vendas iniciais se refletem no plano da Ford para introduzir o carro no salão de automóveis no domingo. Eles não usarão o gelo seco de costume, holofotes e música alta.

Em vez disso, haverá um simples anúncio durante uma coletiva de imprensa, e o carro ficará estacionado na rua em frente ao centro de convenções, disponível para que os jornalistas façam pequenos testes de direção no centro de Detroit.

(Tradução: Eloise De Vylder)

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