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14/01/2009

Meninas afegãs desafiam ataque terrível se recusando a suspender os estudos

The New York Times
Dexter Filkins
Em Kandahar (Afeganistão)
Certa manhã há dois meses, Shamsia Husseini e sua irmã estavam caminhando pelas ruas lamacentas até a escola local de meninas, quando um homem encostou de moto ao lado de Shamsia e lhe fez uma pergunta que parecia comum.

"Vocês vão para a escola?"

Então o homem arrancou a burca da cabeça de Shamsia e borrifou ácido no rosto dela. Cicatrizes, irregulares e descoloridas, agora se espalham pelas pálpebras de Shamsia e grande parte de sua bochecha esquerda. Atualmente sua visão fica borrada, o que lhe dificulta a leitura.

Mas se o ataque com ácido contra Shamsia e 14 outras pessoas - alunas e professores - visava aterrorizar as meninas a permanecerem em casa, parece que ele fracassou completamente.

Hoje, quase todas as meninas feridas estão de volta à Escola para Meninas de Mirwais, incluindo Shamsia, cujo rosto foi tão gravemente queimado a ponto de ter sido enviada para o exterior para tratamento. Talvez ainda mais notável, foi o fato que quase todas as outras alunas nesta comunidade profundamente conservadora também voltaram - cerca de 1.300 ao todo.

"Meus pais me disseram para continuar indo a escola mesmo se fosse morta", disse Shamsia, 17 anos, em um pausa após a aula. A mãe de Shamsia, como quase todas as mulheres adultas na área, não sabe ler e nem escrever. "As pessoas que fizeram isso comigo não querem que as mulheres tenham instrução. Eles querem que continuemos estúpidas."

Nos cinco anos desde que a Escola para Garotas de Mirwais foi construída aqui pelo governo japonês, ela parece ter provocado uma espécie de revolução social. Enquanto o Taleban aperta seu laço ao redor de Kandahar, as garotas vão para a escola toda manhã. Muitas delas caminham mais de três quilômetros desde suas casas de tijolos de barro no alto das colinas.

As garotas entram na escola murada, muitas delas vestindo trajes que cobrem da cabeça aos pés, conversando, se divertindo e rindo de formas que são inconcebíveis do lado de fora -para garotas e mulheres de qualquer idade. Mirwais não tem fornecimento regular de eletricidade, não tem água encanada e nem ruas pavimentadas. As mulheres são raramente vistas, e quando são elas aparecem em burcas que deixam seus corpos sem forma e tornam seus rostos invisíveis.

Logo, foi particularmente assustador em 12 de novembro, quando três pares de homens em motos começaram a rondar a escola. Uma das duplas usou um borrifador, outro uma pistola d'água e outra um jarro. Elas atingiram 11 meninas e quatro professores ao todo; seis foram parar no hospital. Shamsia foi quem sofreu o pior.

Os ataques pareciam ser obra do Taleban, o movimento fundamentalista que está lutando contra o governo e a coalizão liderada pelos americanos. Proibir as meninas de estudar foi um dos símbolos mais notórios do regime do Taleban antes de ser derrubado em novembro de 2001.

A construção de novas escolas e assegurar que as crianças -especialmente as meninas- as frequentassem era um dos principais objetivos do governo e dos países que contribuíram para a reconstrução do Afeganistão. Alguns dos estudantes na escola de Mirwais estão no final da adolescência ou já são jovens adultos, frequentando a escola pela primeira vez. Mas ao mesmo tempo, na guerra de guerrilha que se desdobra no sul e leste do Afeganistão, o Taleban transformou as escolas em um de seus principais alvos.

Mas quem exatamente esteve por trás do ataque com ácido é um mistério. O Taleban negou qualquer participação nisso. A polícia prendeu oito homens e, pouco depois, o Ministério do Interior divulgou o vídeo da confissão de dois deles. Um deles disse que foi pago por um oficial do Diretoria de Interserviços de Inteligência, a agência de inteligência paquistanesa, para realizar o ataque.

Mas em uma coletiva de imprensa na semana passada, Hamid Karzai, o presidente afegão, disse que não houve envolvimento paquistanês.

Uma coisa é certa: nos meses que antecederam o ataque, o Taleban ingressou na área de Mirwais e no restante dos arredores de Kandahar. Logo, cartazes começaram a aparecer nas mesquitas locais.

"Não deixe suas filhas irem à escola", dizia um deles.

Nos dias que se seguiram ao ataque, a Escola para Meninas de Mirwais permaneceu vazia; nenhum dos pais deixava suas filhas se aventurarem para fora de casa. Foi quando o diretor, Mahmood Qadari, foi trabalhar.

Após quatro dias olhando para salas de aula vazias, Qadari convocou uma reunião com os pais. Centenas compareceram à escola -pais e mães- e Qadari implorou para que permitissem o retorno de suas filhas. Após duas semanas, algumas poucas voltaram.

Então Qadari, cujas três filhas vivem no exterior, incluindo uma nos Estados Unidos, pediu o apoio do governo local. O governador prometeu um maior policiamento, uma ponte para atravessar uma estrada movimentada próxima e, mais importante, um ônibus. Qadari convocou outra reunião e disse aos pais que não havia mais motivo para manter suas filhas em casa.

"Eu lhes disse, se vocês não enviarem suas filhas para a escola, então o inimigo vence", disse Qadari. "Eu lhes disse para não cederem às trevas. Educação é a forma de melhorar nossa sociedade."

Os adultos de Mirwais não precisaram de muita persuasão. Nem o ônibus, nem a polícia e nem a ponte se materializaram, mas as meninas começaram a comparecer assim mesmo. Agora apenas duas dúzias de meninas perdem aulas regularmente; três delas são meninas que foram feridas no ataque.

"Eu não quero ver as meninas sentadas desperdiçando suas vidas", disse Ghulam Sekhi, um tio de Shamsia e de sua irmã, Atifa, 14 anos, que também foi queimada.

Apesar de toda a incerteza do lado de fora de seus muros, a escola de Mirwais está cheia de vida. Suas 40 salas de aula estão tão lotadas que aulas também são dadas no pátio em quatro tendas, doadas pela Unicef. O Ministério da Educação afegão também está construindo um prédio permanente.

Nos últimos dias a escola passou pelo período de provas. Em uma sala, uma aula de geografia, uma professora fazia uma série de perguntas enquanto suas alunas escutavam e escreviam as respostas no papel.

"Qual é a capital do Brasil?" perguntou a professora, chamada Arja, andando de um lado para outro.

"Agora, quais são suas maiores cidades?"

"Quantas vezes os Estados Unidos são maiores do que o Afeganistão?"

Em uma carteira na primeira fila, Shamsia, a garota com o rosto queimado, pensava nas perguntas enquanto escondia sua maior cicatriz com a mão. Ela se abaixou na direção do papel, esfregou os olhos e escreveu algo.

Os médicos disseram para Shamsia que seu rosto poderá precisar de cirurgia plástica para que tenha chance das cicatrizes desaparecerem. É um sonho distante: a aldeia de Shamsia não tem nem mesmo fornecimento regular de eletricidade e seu pai é inválido.

Após a aula, Shamsia se misturou com as outras garotas, circulando, rindo e brincando. Ela parecia não consciente de sua desfiguração, até começar a recontar o caso.

Ela disse: "As pessoas que fizeram isso não sentem a dor dos outros".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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