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15/01/2009

Autoridades chinesas que apostam em cassinos veem sua sorte chegar ao fim

The New York Times
Mark Mcdonald
Em Macau
Como prefeito de uma pequena cidade no interior da China, Li Weimin começou de forma bem inocente, apostando em cassinos próximos em Macau, em jogos que tinham nomes como Cinco Dragões, Cozinha Chinesa e Gato da Fortuna Super Feliz.

Mas ele logo começou a apostar em outros jogos, e quantias maiores, financiando as suas viagens cada vez mais frequentes aos cassinos esfuziantes com dinheiro do orçamento municipal e de várias empresas imobiliárias que estavam sob seu controle.

"Era fácil para mim pegar emprestado ou desviar dinheiro desses lugares", disse Li, de 43 anos, no seu julgamento, segundo o jornal estatal "China Daily". Ele acabou perdendo US$ 12 milhões e foi condenado a 20 anos de prisão.

Li faz parte do grupo cada vez maior de lideranças do Partido Comunista e autoridades governamentais que, segundo os promotores do governo, saqueiam as verbas públicas, as reservas de companhias e os tesouros municipais para tentar a sorte em Macau, que faz fronteira com a província de Guandong.

Muitos dos maiores perdedores foram mandados para a prisão, e pelo menos 15 foram executados. Alguns suicidaram-se. Os escândalos tornaram-se uma fonte de profundo embaraço para o governo chinês, que agora começou a controlar os vistos de viagem para Macau.

Embora o jogo continue sendo ilegal na China comunista, ele é o oxigênio de Macau, que Portugal devolveu à China em dezembro de 1999. O pequeno território, que desde 2004 experimentou um aumento enorme das obras de construção vinculadas à indústria turística voltada para o jogo, depende dos cassinos para 75% da sua arrecadação fiscal.

Sendo atualmente o maior mercado de cassinos do mundo, Macau conta com uma renda anual derivada desta atividade que supera a de Las Vegas e a de Atlantic City somadas. Entre os seus 31 cassinos está o maior do mundo, o Venetian Macau.

Segundo especialistas daqui, grande parte dessa prosperidade encontra-se agora ameaçada, não só pela crise econômica global, mas também pela repressão ao jogo por parte do governo. A questão é tão sensível na China que no decorrer do último mês o governo e os líderes do partido recusaram mais de dez pedidos de entrevistas sobre o assunto.

Uma autoridade de Chongqing, o diretor do departamento local de propaganda do Partido Comunista, foi acusado de apropriar-se de US$ 24 milhões em dinheiro público. Juntamente com um colega de trabalho, ele gastou pelo menos a metade do dinheiro no Casino Lisboa, segundo a agência de notícias chinesa "Xinhua".

As autoridades chinesas que apostam aqui perdem dinheiro principalmente no bacará, o jogo preferido em Macau, mas também no blackjack, no pôquer e em um jogo de dados chamado Peixe-Camarão-Caranguejo. E embora muitos sejam apostadores neófitos, eles apostam com frequência milhares de dólares em uma só cartada.

Um estudo feito em 2008 com 99 jogadores da China revelou que 59 tinham algum tipo de vínculo com o Estado: 33 eram autoridades governamentais, 19 eram diretores graduados de empresas estatais e sete eram caixas de empresas do governo. Esses indivíduos são tipicamente do sexo masculino, têm entre 30 e 49 anos de idade e moram em áreas da China próximas a Macau.

Segundo o estudo, que foi realizado por Zeng Zhonglu, professor do Instituto Politécnico de Macau, as autoridades do governo revelaram ter perdido em média US$ 2,7 milhões cada um. Os gerentes estatais perderam em média US$ 1,9 milhão cada, e os caixas uma média de US$ 500 mil. A maioria disse que as suas carreiras de apostador duraram menos de quatro anos, até que fossem descobertos.

As perdas que eles sofreram nas mesas de jogos levaram pelo menos dez companhias à falência. Um editorial do jornal "Diário da Juventude de Pequim" disse que a prática de jogos de azar pelas autoridades públicas "ameaça a segurança do tesouro nacional", embora não se saiba ao certo a quantidade de dinheiro público que já foi dissipada nos cassinos.

"Duvido que mesmo o governo chinês saiba", diz Desmond Lam, um especialista sobre Macau e apostadores chineses que atualmente é pesquisador da Universidade do Sul da Austrália. "Mesmo assim, é provável que esta cifra seja bastante substancial, ficando, até o momento, na casa de centenas de milhões de dólares. E, caso se inclua o dinheiro que não foi detectado, deve ser uma quantia muito maior".

A China tentou repetidamente reprimir as apostas por parte de autoridades públicas, mas nunca teve grande sucesso até que surgiu a ideia da limitação dos vistos. As novas regulamentações de vistos, que entraram em vigor no verão passado, obrigam as autoridades chinesas a limitarem-se a apenas uma viagem a cada três meses, e por um período máximo de sete dias. Segundo analistas e estudiosos do fenômeno, a medida vem sendo bastante efetiva.

"Este tem sido um problema muitíssimo sério, mas agora a situação melhorou", afirma Zeng, autor do estudo sobre os jogadores. "O governo da China mantém um controle rígido sobre as autoridades que visitam Macau".

Mas as restrições também contribuíram para acabar com o boom vivido por Macau, algo que ficou evidente na última segunda-feira, quando as ações dos cassinos de Macau despencaram para um quinto do valor depois que Pequim anunciou que manteria o controle sobre os vistos. Os preços das ações das companhias caíram em média mais de 80% em relação aos valores registrados no ano passado.

Gerentes de cassinos, operadores de agências de turismo e proprietários de lojas, restaurantes e hotéis dizem que estão sentindo os efeitos daquilo que Samuel Yeung, o gerente do famoso Hotel Lisboa, chama de "o controle cada vez mais rígido por parte da China continental".

As rendas derivadas das apostas estão despencando e as lojas de artigos de luxo andam vazias. Obras de hotéis e prédios de apartamentos imponentes podem ser vistas abandonadas pela metade. Milhares de trabalhadores da construção civil e funcionários dos cassinos foram demitidos. No mês passado, no Venetian, a metade dos gondoleiros cantantes do "Grande Canal" coberto foi demitida abruptamente.

"O governo está dizendo que Macau está indo rápido demais e precisa andar mais devagar", diz Davis Fong, professor de administração e diretor do Instituto de Estudos de Jogos Comerciais da Universidade de Macau. Ele citou um congelamento dos novos projetos e as regulações mais rígidas aplicadas aos cassinos do território.

É como se o ouro de Klondike, no Yukon, estivesse acabando.

"A crise global não está tendo tanto efeito assim sobre Macau. O que está provocando o maior impacto sobre o território são as restrições à emissão de vistos", explica Anil Daswani, uma analista de Hong Kong que acompanha as tendências da indústria de jogos de azar para o Citigroup. "Sem dúvida havia capital demais entrando em Macau, e o governo chinês está tentando esfriar a economia. Mas isto é, sem dúvida alguma, preocupante. Os volumes das apostas caíram substancialmente".

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