UOL Notícias Internacional
 

15/01/2009

Falar sobre raça? Relaxe, não tem problema

The New York Times
Sarah Kershaw
A conversa desajeitada geralmente começa com algo como, "Você parece o Tiger Woods".

Ou, "Seu sobrenome é Rice - tem algum parentesco com Jerry? Condoleezza?"

Em momentos mais ousados, talvez após alguns drinques em uma festa, um conhecido branco poderia dizer a George Rice, 45 anos, que ele é birracial: "Você não parece tão negro. Eu não tenho preocupações com você".

No que Rice chama de "cotidiano" das relações raciais, suas interações com os brancos podem ser afetadas e tensas, mesmo quando não há um racismo claro.

Até mesmo a esposa de Rice, Becca Knox, 43 anos, que é branca, disse que apesar de ser casada com um negro há seis anos, encontrar um modo confortável de falar sobre raça com pessoas de outras raças, particularmente afro-americanos, que seja sensível, mas não incômoda, franca mas não ofensiva, ainda é "uma luta e processo constantes".

Mas nos últimos meses, tanto Rice quanto Knox, que vivem em Washington, notaram um leve alívio nestes exemplos daquilo que os psicólogos chamam de "ansiedade inter-racial" entre negros e brancos. Isso se deve porque agora há um quebra-gelo onipresente: Barack Obama.

"Há um condução mais fácil para a conversa sobre raça se ela começar com Barack Obama", disse Rice, o diretor executivo da Associação das Autoridades de Comunicação de Segurança Pública - Internacional, um grupo de profissionais de manutenção da lei. "Na minha experiência nos últimos meses, está mais fácil porque começará com quem ele é, as diferenças entre seus pais, com o que ele teve que lidar."

Em seu único grande discurso sobre relações raciais durante a campanha, em meio ao furor em torno dos comentários de seu antigo pastor, Obama repreendeu qualquer um ingênuo a ponto de pensar que "podemos superar nossas divisões raciais em um único ciclo eleitoral, ou com uma única candidatura". Ele alertou que raça é algo na história e vida americanas "que nós nunca realmente lidamos para resolver".

Mas na pessoa de um presidente eleito que é filho de um pai africano e de uma mãe branca, Obama parece ter inspirado muitos a dar um passo na estrada de melhores relações - a conversa.

Discussão inter-racial sobre o assunto da raça parece ter se tornado mais comum, e um tanto menos carregada, com a ascensão de Obama, segundo historiadores, psicólogos, sociólogos e outros especialistas em relações raciais, assim como vários negros e brancos entrevistados por todo o país.

"Toda esta exposição a este afro-americano que foge do estereótipo de fato mudou -ao menos temporariamente- o que está na ponta da língua", disse E. Ashby Plant, uma psicóloga da Universidade Estadual da Flórida e autora de um novo estudo examinando o impacto de Obama nas posturas dos brancos. "Pode ter implicações muito importantes."

No estudo de Plant, foram feitas a 400 estudantes universitários brancos em Wisconsin e na Flórida, entre a indicação de Obama e sua eleição, perguntas como: "Qual é a primeira coisa que lhe vem à mente quando você pensa nos afro-americanos?"

O estudo não publicado apontou que as respostas revelavam pouca evidência de preconceito contra o negro, contrastando enormemente de muitos estudos anteriores (incluindo um de Plant) que mostravam que cerca de 80% dos brancos tinham algum grau de preconceito.

As pesquisas registraram um maior otimismo entre os americanos em relação ao futuro das relações raciais. Um dia após a eleição de Obama, uma pesquisa Gallup revelou que 67% dos americanos acreditavam que uma solução para os problemas raciais entre negros e brancos no final seria encontrada. O Gallup disse que faz as mesmas perguntas há quatro décadas e que uma pesquisa na metade do ano passado também refletiu um maior otimismo do que antes. As pesquisas não levaram em consideração a raça dos entrevistados. Uma nova pesquisa "New York Times/CBS", em julho, mostrou uma diferença acentuada entre negros e brancos em um assunto semelhante: quase 60% dos entrevistados negros disseram que as relações raciais eram em geral ruins, enquanto apenas 34% dos brancos concordaram.

Psicólogos e sociólogos há muito traçaram um elo entre a quantidade de ansiedade que ocorre nas interações inter-raciais e a exposição prévia de alguém a pessoas de outra raça; um princípio guia de dessegregação que poderia ajudar a desintoxicar as relações raciais, deixando os brancos mais confortáveis com os negros na vida cotidiana.

Christophe E. Jackson, 28 anos, um candidato negro a Ph.D. em biologia na Universidade do Alabama, em Birmingham, que também está buscando um diploma de medicina, lembrou que no passado ele tinha conversas desconfortáveis com os estudantes brancos e colegas sobre a ação afirmativa. Ele acreditava que muitos brancos achavam que ele levava vantagem e às vezes eram diretos ao dizê-lo. Mas a campanha e eleição de Obama parecem ter mudado essa percepção.

"Antes de Obama, havia sempre esta coisa - 'Ele é um doutor negro'", disse Jackson. "Mas agora eu vou ser um médico que por acaso é negro. Esta é a percepção agora, o que é realmente bom."

Ao mesmo tempo, alguns afro-americanos se disseram céticos de que a presidência de Obama possa reduzir significativamente o desconforto entre as raças, ou diminuir a frequência de suas próprias interações às vezes dolorosas com os brancos. Alguns disseram que a simples estrela do presidente eleito, a crescente sensação de ele é visto pelos brancos como um indivíduo que transcende a raça - um Michael Jordan ou uma Oprah Winfrey - faria pouco para melhorar as relações raciais.

"Eu acho que eles verão Obama como um astro", disse Gilda Squire, 39 anos, que é dona de uma empresa de relações públicas em Manhattan. "Isso já começou, no meu entender. Sim, nós estamos celebrando o evento histórico e é um grande feito, eu sei. Mas em termos do cotidiano, eu não sei."

"Eu me lembro das pessoas dizendo que Michael Jordan 'não é realmente negro'", acrescentou Squire. "É como Obama suplanta a raça. E isso não significa que a Gilda Squire que vive em Nova York não terá que lidar com questões de racismo todo dia."

Denene Millner, 40 anos, que é negra e se mudou do norte de Nova Jersey para uma cidade pequena fora de Atlanta há três anos, tem debatido com seu marido, que também é negro, se a presidência de Obama amenizará a comunicação inter-racial. Ele acha que sim, ela acha que não. Ela freqüentemente experimenta o que os psicólogos chamam de "daltonismo estratégico" por parte dos brancos, mesmo entre seus amigos, que podem ficar tão desconfortáveis falando sobre raça que acham que evitar o assunto totalmente é a abordagem mais sensível - como não descrever os afro-americanos como negros nas conversas.

"Eu não suporto quando as pessoas sentem que precisam tomar cuidado com o que falam perto de mim", disse Millner, um colunista da "Parenting Magazine" e escritora. Recentemente, uma amiga branca de Nova Jersey lhe fez uma visita; Millner queria promover uma noite de cinema onde exibiria seus filmes negros favoritos. Ela deu início a uma discussão sobre as diferenças entre filmes negros ruins ("Uma Festa no Ar" está no topo de sua lista) e os bons ("Além dos Limites" é o seu favorito), mas sua amiga branca ficou nervosa e embaraçada.

"Ela adquiriu uns 40 tons de vermelho", disse Millner, que disse que posteriormente temeu ter sido direta demais. "Esta é uma experiência de aprendizado para nós duas."

Dois estudos sobre o daltonismo estratégico feitos por pesquisadores da Universidade Tufts e da Escola de Administração e Negócios de Harvard (o primeiro apareceu no "The Journal of Personality and Social Psychology", em outubro, o segundo na revista "Developmental Psychology", em setembro) concluíram que os brancos, incluindo crianças com até 10 anos, podem tentar evitar falar sobre raça com os negros, ou mesmo reconhecer as diferenças raciais, para não parecerem preconceituosas.

Os estudos também revelam que os negros veem a tática como evidência de preconceito.

"Realmente ainda há algumas questões ligadas ao legado histórico de raça e racismo neste país, e não podemos lidar com elas de modo sério se tivermos esta hipersensibilidade sempre que o assunto surge", disse Elisabeth Lasch-Quinn, uma professora de história da Escola Maxwell da Universidade de Syracuse e autora de "Race Experts: How Racial Etiquette, Sensitivity Training, and New Age Therapy Hijacked the Civil Rights Revolution".

Obama "foi muito cuidadoso ao não deixar que sua candidatura usasse essas mensagens habituais sobre raça, para que realmente defendesse algo diferente", acrescentou Lasch-Quinn. "Isso sacode o status quo porque aqui temos alguém que está disposto a falar sobre raça, mas não fala disso do modo habitual. Assim que temos uma pessoa fazendo isso, nós agora temos um modelo para como outras pessoas podem fazê-lo."

Durante sua campanha, Obama quase que totalmente evitou o assunto da raça, como fizeram os outros candidatos, mantendo um entendimento tácito entre os líderes nacionais que remonta ao encerramento da era dos direitos civis, de que raça é um assunto explosivo demais para discussão pública. A única exceção foi o discurso de março passado, no qual Obama foi forçado a defender as declarações inflamadas do reverendo Jeremiah A. Wright Jr.

Obama descreveu o país como ainda profundamente tomado pela raiva negra e ressentimento branco, especialmente nas gerações mais velhas, que podem não se expressar livremente entre colegas de trabalho ou amigos da raça oposta, mas que dão vazão aos seus sentimentos quando se sentem seguros entre membros da própria raça.

No final, Obama foi eleito com 43% do voto branco e 95% do voto negro.

A atriz e dramaturga Anna Deavere Smith, cujo trabalho frequentemente se concentra nas relações raciais, disse que ficou animada com o fato da vitória histórica não ter feito parecer que o problema racial nos Estados Unidos foi resolvido, e pelas pessoas de raças diferentes ainda estarem buscando descobrir como falar umas com as outras. Ela se sentiu encorajada, ela disse, pela idéia de que a eleição de Obama aparentemente aliviou um pouco da tensão inter-racial, acrescentando: "Mas não acho que seja obra apenas do homem branco. Muitas pessoas de cor ainda nutrem grandes ansiedades em relação aos brancos".

Na manhã seguinte após a eleição, Kristin Rothballer, 36 anos, que vive em San Francisco, deu um beijo de despedida em sua parceira no trem enquanto o tomava para o trabalho. Uma mulher negra sentada ao lado dela se virou e disse que lamentava que a Proposta 8, a emenda que proíbe o casamento gay no Estado, provavelmente seria aprovada.

"Nós demos as mãos", lembrou Rothballer. "E eu disse: 'Bem, eu realmente quero parabenizar você porque temos um presidente negro e isso é incrível'."

"Nossa conversa então quase se tornou sobre o fato de estarmos tendo a conversa", ela disse.

Algo a levou a pedir desculpas à mulher negra pela escravidão.

"Para duas estranhas viajando de trem para Oakland terem essa conversa sobre raça, não seria possível se Obama não tivesse sido eleito", ela disse. "Eu sempre me senti aberta com meus colegas, mas dizer para uma estranha no trem, 'Ei, sinto muito pela escravidão', esse tipo de coisa simplesmente não acontece."

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h29

    0,32
    3,290
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h32

    -0,44
    62.982,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host