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16/01/2009

Família e advogado temem pela integridade física de repórter que jogou sapatos em Bush

The New York Times
Timothy Williams
Em Bagdá (Iraque)
Mais de um mês se passou desde que um repórter de televisão iraquiano jogou os seus sapatos no presidente Bush durante uma entrevista coletiva à imprensa que foi organizada para ressaltar aquilo que Bush chamou de uma iniciativa norte-americana bem sucedida de pacificação do Iraque.

O jornalista, Muntader al-Zaidi, 29, que foi imediatamente detido, só teve permissão para receber dois visitantes - e nenhum desde 21 de dezembro, de acordo com aqueles que o conhecem. A família e o advogado de al-Zaidi dizem não saber onde ele está encarcerado e afirmam que estão muito preocupadas com a integridade física do jornalista, já que não têm permissão para falar com ele por telefone.

Na quinta-feira (15/01), Dhiyaa al-Saadi, o advogado de al-Zaidi, disse ter visto recentemente registros médicos que são parte do processo judicial de al-Zaidi. Segundo ele, os registros reforçam a alegação dos jornalistas de que foi espancado e torturado após a sua prisão pela equipe de segurança do primeiro-ministro iraquiano, Nouri Kamal al-Maliki, em 14 de dezembro.

Al-Saadi disse que dois relatórios médicos feitos por médicos do governo em um período de sete dias após a prisão de al-Zaidi descreveram hematomas que cobriam o rosto e o corpo do repórter, mas que eram especialmente severos nas pernas e nos braços; a falta de um dente; um corte profundo no nariz; e aquilo que parecia ser uma marca de queimadura na orelha.

Al-Saadi contou que não permitiram que ele retirasse os registros do escritório do juiz que investiga o caso, de forma que a existência dos documentos não pôde ser verificada independentemente. Mas a descrição dos ferimentos de al-Zaidi condiz com aquilo que um dos irmãos do jornalista disse ter visto após uma visita à prisão no mês passado.

Uday al-Zaidi, 33, o irmão do jornalista, afirmou na quinta-feira que teme que al-Zaidi, que pode ser condenado a até sete anos de prisão por crime de agressão contra um chefe de Estado visitante, não saia nunca mais da cadeia.

"Não sei qual é o paradeiro dele", disse Uday. "Mas tenho certeza que irão matá-lo na prisão".

Mas Fadhil Mohammed Jawad, o assessor legal de al-Maliki, disse na quinta-feira que al-Zaidi não foi torturado e receberá um julgamento justo.

"Judicialmente, o Iraque é justo e a lei lidará com este caso com justiça", afirmou Jawad.

O julgamento de al-Zaidi havia sido marcado para 31 de dezembro, mas foi adiado a pedido do advogado dele, que está tentando obter uma acusação mais leve que implique em uma pena de prisão mais curta. Ainda não foi estabelecida uma nova data para o julgamento.

O episódio dos sapatos ocorreu durante uma coletiva à imprensa com Bush e al-Maliki na altamente fortificada Zona Verde de Bagdá. Al-Zaidi levantou da sua cadeira, arremessou um sapato contra Bush e gritou, "Este é um presente dos iraquianos; este é um beijo de despedida, seu cachorro!".

Al-Zaidi lançou o seu outro sapato contra Bush antes de ser contido pelos guardas de segurança. Os dois sapatos não acertaram o alvo. As pessoas presentes no local viram al-Zaidi ser espancado enquanto era retirado da sala pelos guardas.

No Iraque, jogar um sapato contra alguém é considerado um insulto grave. Mas a impopularidade de Bush neste país fez com que al-Zaidi tornasse-se uma celebridade instantânea e um herói popular, não apenas no Iraque, mas também em outras regiões do mundo árabe.

Porém, al-Maliki ficou altamente embaraçado devido ao episódio, e, vários dias depois, ele afirmou que al-Zaidi foi obrigado a agir daquela forma por um homem que o primeiro-ministro descreveu como um "cortador de cabeças" - aparentemente, uma referência a um membro do grupo extremista sunita Al Qaeda na Mesopotâmia, conhecido por decapitar pessoas.

No entanto, a família de al-Zaidi tem insistido que o repórter não possui vínculos com nenhum grupo político, e que ele agiu daquela forma somente devido à sua oposição à invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003.

Desde que foi preso, o jornalista só foi visto por poucas pessoas, incluindo o advogado e o irmão, em duas visitas distintas em 21 de dezembro.

Pedidos subsequentes de visita foram negados ou ignorados pelo governo e o judiciário.

Não se sabe quem é o responsável por autorizar visitas a al-Zaidi. Embora Jawad, o consultor legal do primeiro-ministro, diga que tais questões são resolvidas pelo juiz de investigação e o advogado do suspeito, um porta-voz do juiz afirmou que o assunto está reservado "ao poder executivo".

Durante uma entrevista por telefone, Abdul Sattar al-Biriqdar, o porta-voz do Alto Conselho Judicial, que administra o sistema judicial iraquiano, afirmou que Dhiyaa al-Kinani, o juiz de investigação, não sabia que o advogado e os familiares de al-Zaidi tentaram várias vezes visitá-lo na prisão.

No início, al-Biriqdar negou conhecer o paradeiro de al-Zaidi, mas mais tarde disse que o repórter está em um centro de detenção iraquiano na Zona Verde administrado pela Brigada Bagdá, uma unidade militar subordinada ao gabinete do primeiro-ministro.

Al-Biriqdar afirmou que quem desejar ver al-Zaidi tem permissão para isso.

Mas durante uma visita recente ao complexo, um guarda do exército iraquiano mandou um jornalista que solicitou uma visita ir embora imediatamente. O guarda afirmou ainda que é "perigoso" tentar ver al-Zaidi.

O soldado, que não se identificou, disse não saber se al-Zaidi está preso no local.

Na quinta-feira, uma mensagem de e-mail para al-Maliki solicitando uma visita a al-Zaide não foi respondida.

Al-Biriqdar, o porta-voz para assuntos legais, disse que não falou nada ao juiz de investigação a respeito de ter sido torturado ou espancado na prisão. Ele afirmou ainda que durante uma visita a al-Zaidi no mês passado não viu nenhum sinal de abuso físico.

"O juiz de investigação disse que não viu sinais de tortura ou espancamento", afirmou al-Biriqdar. "Muntader não disse que foi espancado e não pediu para ser examinado por uma equipe médica".

Mas alguns dias após visitarem o preso, tanto o advogado de al-Zaidi quanto o seu irmão, Uday, disseram que durante as suas respectivas visitas ficou claro que al-Zaidi foi vítima de espancamento.

*Riyadh Mohammed, Alissa J. Rubin, Atheer Kakan e Suadad al-Salhy contribuíram para esta matéria.

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