UOL Notícias Internacional
 

17/01/2009

Um Bush melancólico dá adeus à nação

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg
Em Washington (EUA)
O presidente George W. Bush deu adeus ao povo norte-americano na noite da última quinta-feira, declarando no seu discurso final à nação que, embora tenha enfrentando alguns contratempos durante os seus oito turbulentos anos, "seguiu a sua consciência e fez o que achou que era certo".

O discurso de 13 minutos, feito no Salão Leste da Casa Branca perante uma plateia de 200 pessoas, incluindo 50 convidados e membros do gabinete do presidente, constitui-se em um final melancólico para um governo que, segundo o próprio Bush, nem sempre atingiu os resultados planejados.

"Assim como todos os outros que ocuparam este cargo antes de mim, eu experimentei contratempos", disse Bush, em uma cadência firme. "Há coisas que eu faria diferentemente se tivesse uma chance. Mas eu sempre agi tendo em mente os melhores interesses do nosso país".

O discurso foi a última aparição pública de Bush até a próxima terça-feira, quando ele passará o Salão Oval para o seu sucessor, Barack Obama. É possível que Obama não tenha visto o discurso. Exatamente às 20h, quando Bush começou a discursar, Obama saiu da Blair House - a casa para os hóspedes presidenciais que fica em frente à Casa Branca, na qual ele e a família estão hospedados - e seguiu para um restaurante próximo.

Bush deixa atrás de si duas guerras não terminadas e uma economia em crise, e ele advertiu no seu discurso que há tempos duros pela frente. O presidente que tomou posse prometendo ser um "unificador e não um divisor", mencionou as profundas divisões partidárias que marcaram os seus oito anos no cargo. Mas Bush disse esperar que o povo norte-americano recorde-se dele como sendo um homem que manteve-se fiel aos seus princípios.

"Você pode não concordar com algumas decisões difíceis que eu tomei", afirmou Bush. "Mas espero que concorde que eu tive a disposição para tomar decisões difíceis".

Se Bush está emocionado com a ideia de deixar a presidência, ele não deixou que isto transparecesse, talvez por que estivesse rodeado de pessoas que o admiram e com as quais sente-se confortável. Alguns dos seus predecessores fizeram o discurso de despedida no Salão Oval. Mas o conselheiro de Bush, Ed Gillespie, disse que o presidente "desejava estar com o povo" no seu último momento sob os holofotes.

Além da mulher de Bush, Laura, do vice-presidente Dick Cheney e de outros membros graduados do governo, o Salão Leste estava cheio de norte-americanos comuns cujas vidas tocaram Bush. Pessoas como Arlene Howard, que deu ao presidente o distintivo policial do seu filho, que morreu nos ataques ao World Trade Center, e Judea Pearl, pai de Daniel Pearl, o jornalista do "Wall Street Journal" que foi morto por terroristas no Paquistão.

Descrevendo-se como "cheio de gratidão", Bush falou rapidamente a respeito de algumas políticas que ele vê como realizações do seu governo: a sua medida educacional No Child Left Behind (Nenhuma Criança Deixada para Trás), a legislação que proporciona aos beneficiários do Medicare acesso a medicamentos que só podem ser adquiridos mediante receita médica e a sua campanha para o combate à Aids em todo o mundo. Mas o tema principal foi o momento que definiu a sua presidência, os ataques terroristas de 11 de setembro.

"À medida que os anos foram passando, a maioria dos norte-americanos foi capaz de retornar a uma vida bem semelhante ao que era antes do 11 de setembro. Mas eu não. Todas as manhãs recebia relatórios sobre as ameaças à nossa nação. E eu jurei que faria tudo ao meu alcance para nos manter seguros".

Ele prosseguiu, lembrando algumas das decisões decorrentes daquele juramento: a criação do Departamento de Segurança da Pátria e de "novos instrumentos para monitorar os movimentos dos terroristas" - instrumentos que, de acordo com os defensores das liberdades civis, são inconstitucionais. Ele não mencionou a autorização de técnicas truculentas de interrogatório, outra decisão que está entre as mais controvertidas e divisivas da sua presidência.

"Existe um debate legítimo a respeito de várias dessas decisões", disse Bush. "Mas não se pode questionar muito os resultados delas. Os Estados Unidos passaram mais de sete anos sem que houvesse outro ataque terrorista no nosso solo".

Ao fazer o seu discurso, Bush seguiu uma tradição de discursos de despedida que remonta à época de George Washington e que teve continuidade, mais recentemente, com os presidentes Ronald Reagan e Bill Clinton (o pai de Bush, George H.W. Bush, não fez discurso de despedida). O discurso de Reagan, em particular, foi profundamente pessoal, cheio de referências melancólicas aos Estados Unidos como sendo uma "cidade brilhante no topo de uma colina", uma frase criada por John Winthrop, um governador colonial de Massachusetts.

Mas, ao contrário de Reagan, que deixou o cargo com um alto índice de popularidade, Bush sai como um dos presidentes mais impopulares dos tempos modernos. Talvez por saber disso, ele fez um discurso relativamente curto e focado, com poucos arroubos de retórica.

Bush falou com pessimismo sobre os desafios que a nação enfrentará nos anos que estão por vir, e advertiu os norte-americanos, dizendo que é necessário que estes resistam à tentação de fecharem-se para o mundo e não abandonem a sua iniciativa de política externa, a chamada "agenda da liberdade", cujo objetivo é promover a democracia em todo o mundo.

"Se os Estados Unidos não liderarem a causa da liberdade, esta causa não será liderada", afirmou Bush. "Eu falei muitas vezes a vocês sobre o bem e o mal. Isso fez com que alguns sentissem desconforto. Mas o bem e o mal estão presentes neste mundo, e não pode haver acordo entre os dois".

Bush partirá na sexta-feira para Camp David, o retiro presidencial nas Montanhas Catoctin, no Estado de Maryland. Ele passará o fim de semana com a família e alguns amigos, incluindo Condoleezza Rice, a secretária de Estado; Joshua B. Bolten, o chefe de gabinete da Casa Branca; e Stephen J. Hadley, o assessor de Segurança Nacional.

Na quinta-feira, pouco antes do discurso de Bush, a Casa Branca divulgou a sua agenda para a terça-feira, o dia da posse de Obama. Na linguagem tipicamente formal dos documentos do gênero emitidos pela Casa Branca, a agenda retratou perfeitamente a transição do presidente Bush para o cidadão Bush nas seguintes passagens:

11h30 - O PRESIDENTE e a senhora Bush participam da cerimônia de juramento do 44º presidente dos Estados Unidos da América.

13h25 - O EX-PRESIDENTE fala na cerimônia de despedida, no Hangar Número Seis da Base da Força Aérea em Andrews.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h29

    0,32
    3,290
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h39

    -0,42
    62.992,72
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host