UOL Notícias Internacional
 

17/01/2009

Um voo assustador, inúmeros dramas humanos

The New York Times
Por Michael Wilson e Russ Buettner
Em Nova York (EUA)
Alguns passageiros gritaram, outros esconderam a cabeça entre os joelhos, e muitos rezaram sem parar, "Deus, perdoe os meus pecados". Mas um homem chamado Josh, que estava sentado no corredor da saída de emergência, fez exatamente o que se deve fazer mas poucas pessoas fazem: puxou o cartão com as medidas de segurança e leu as instruções para abrir a porta de emergência.

O voo 1549 da US Airways colidiu com o rio Hudson da mesma forma que uma lancha bate na superfície depois de saltar sobre uma onda - com um baque de bater os dentes e estremecer os nervos, que deixou a cabine em silêncio. Foi como se todos estivessem esperando alguém gritar de dor, mas ninguém gritou.

Então Josh se levantou. "Alguém tentou puxar a porta para dentro", lembra-se outro passageiro, "e ele disse, 'Não, você tem que jogá-la para fora'. Então ele a girou e empurrou'."

Então começaram os minutos mais agonizantes do episódio que o governador David A. Paterson descreveu como um milagre sobre o Hudson.

Foi uma aterrissagem perfeita e um fim perfeito: todos sobreviveram.
Mas do momento em que o avião atingiu a água até o momento em que a última pessoa chegou à terra firme, inúmeros dramas humanos se desenrolaram.

Amizades começaram sobre uma asa gelada. Heróis cavaleirescos surgiram ao lado de cotoveladas egoístas, num momento que um dos passageiros descreveu como uma "desordem organizada" e outro chamou de "pânico controlado". Havia tensão, cooperação e até mesmo pura comédia, conforme mais de uma dúzia de passageiros relataram em entrevistas em Nova York, Charlotte, Carolina do Norte e outros lugares no dia seguinte ao acidente.

Uma mulher de casaco de pele pediu a um estranho que pegasse sua bolsa dentro do avião que afundava lentamente. Um homem carregou sua mala de roupas para cima da asa. Uma mãe que havia subiu sobre as poltronas segurando seu filho de nove meses para evitar que a multidão os atropelasse. Um homem depois a ajudou a ir para um local seguro. Uma mulher mais velha andava com grande dificuldade, e uma jovem beijou seu noivo com ternura antes da aterrissagem.

E as orações: de simples apelos aos céus ao Pai Nosso, ainda pela metade quando o jato atingiu a água.

O voo, que saiu do aeroporto La Guardia com atraso depois de uma mudança de portão de embarque, estava lotado com uma amostra bastante diversa de pessoas: 23 passageiros frequentes, executivos do Bank of America que voltavam para casa depois de reuniões em Nova York; um grupo de amigos numa viagem de golfe para Myrtle Beach, Carolina do Sul; um homem de 74 anos de idade que havia acabado de voltar do funeral do irmão; uma família tentando visitar a avó que seria operada. E, na poltrona 13F, Emma Sophina, 26, uma cantora pop da Austrália, que estava trabalhando em uma música chamada "Bittersweet"
("Agridoce"), agora para sempre relacionada em sua mente com um dia que foi tudo exceto agridoce.

Martin Sosa, 48, que mora em Greenwich Village e estava viajando com sua mulher e dois filhos, lembra-se de ter pensado: "Ok, então você sobreviveu ao impacto; agora vai se afogar". Acrescentou: "O avião está afundando devagar e não há movimento para o lado de fora".

Dentro, como se seguissem um pensamento coletivo, todos se moveram para a parte de trás da cabine, apenas para descobrir que as saídas de emergência estavam emperradas e a água subindo enquanto a cauda do avião submergia abaixo da superfície.

"Se aquela porta abrisse, tudo seria inundado", disse Brad Wentzell, 31, um vendedor de Charlotte, o destino do voo. A multidão deu a volta e começou a caminhar na outra direção de uma só vez.

"As pessoas estavam bloqueando a passagem umas das outras, e tinha uma mulher com uma criança", disse Wenzel. "Ela gritava que as pessoas estavam bloqueando seu caminho".

A mulher era a esposa de Sosa, Tess, que carregava seu filho de nove meses, Damian. Sosa estava com a outra filha do casal, Sofia, de 4 anos. "As pessoas diziam apenas: 'Ande, ande, ande!'", ele se lembra.
"Algumas pessoas eram na verdade gentis o suficiente para deixar que eu passasse com uma criança e de certa forma me ajudaram a abrir caminho".

Mas sua mulher teve mais dificuldade, e por fim começou a tentar subir sobre as poltronas. "Ela não queria ser esmagada pela multidão", disse o marido. Outro passageiro ouviu alguém gritar, "Levem o bebê para fora!"

O vendedor Wentzell adiantou-se para ajudar. "Eu meio que os agarrei por trás e disse: 'Vocês vêm comigo', e os carreguei para a frente para a saída", disse. Ele passou mãe e filho para um desconhecido que estava parado na porta e que os ajudou a subir na asa.

Mas o bote salva-vidas preso ao avião estava de cabeça para baixo no rio, fora do alcance. Wentzell virou-se e viu outro passageiro, Carl Bazarian, um banqueiro de investimentos da Flórida, de 62 anos, duas vezes sua idade. Wentzell agarrou o pulso de Bazarian, que se agarrou a um terceiro homem que estava segurando no avião. Então Wentzell se curvou para fora para virar o bote.

"Carl foi o Homem de Ferro aquele dia", disse Wentzell. "Conseguimos estabilizar o bote, e subimos nele". Um homem entrou na água, e o vendedor e o banqueiro o puxaram para bordo. Ele se encolheu em posição fetal, tremendo de frio.

Na outra asa, Craig Black, um auditor de 46 anos, chegou até a ponta e pensou no Titanic; ele disse: "Não haveria botes salva-vidas suficientes para todos".

Don Norton, 35, um dos três passageiros funcionários da LendingTree.com, uma companhia de serviços financeiros de Charlotte, abriu outra saída de emergência. Teve que descobrir o que fazer com a porta, que acabou jogando no rio.

Ele foi o primeiro a subir na asa escorregadia, e teve dificuldade em manter o equilíbrio com seus elegantes sapatos pretos Aldo, enquanto abria caminho para os que vinham atrás. Cerca de 20 ou 30 pessoas haviam se juntado a ele quando ele percebeu que, em meio ao desespero para abrir a porta, esquecera-se de pegar o assento flutuante de sua poltrona - quantas centenas de vezes ele havia ouvido aquela instrução? Naquele momento, "a mulher do meu lado passou o meu assento", lembra-se. "Ela estava com o dela e me passou o meu. Esse gesto nos conectou".

Ele precisou do assento, também, porque a balsa da New York Waterways parou a um metro da ponta da asa, e ele teve que pular na água e nadar. O assento manteve sua cabeça fora d'água. Lucille Palmer, 85, tentou agarrar sua carteira. Sua filha, Diane Higgins, 58, disse para ela largá-la.

O passageiro frequente Dick Richardson, 57, tinha, durante a decolagem, feito a contagem do número de fileiras entre sua poltrona e a saída mais próxima (oito) antes de fechar os olhos e tentar dormir.
Com o impacto, ele tirou seu BlackBerry do cinto e colocou-o dentro do bolso de seu paletó de tweed azul-acinzentado.

Debbie Ramsey, 48, de Knoxville, Tennesee, disse que hesitou durante um minuto pensando se deixaria sua jaqueta Eddie Bauer e a maleta com chocolates que havia comprado para seu neto de dois anos de idade, mas em vez disso pegou o assento flutuante.

Dave Sanderson, 47, um vendedor da Oracle, disse que viu uma mulher de 60 anos tirando suas malas do bagageiro superior. "Eu comecei a gritar, 'Saia daqui, saia daqui!' Ela disse, 'Preciso das minhas coisas'", disse Sanderson. "Um homem então fez uma boa ação - ele foi um herói - pegou a mulher e jogou-a no bote salva-vidas". A bagagem dela ficou flutuando no rio.

David Sontag, que havia acabado de enterrar seu irmão em Nova York, lembra-se de um homem na saída, pedindo para os passageiros contarem a si mesmos enquanto passavam pela porta; ele acha que era o próprio piloto-herói, Chesley B. Sullenberger III.

Nick Gamache, 32, um vendedor de software, havia enviado uma mensagem de texto para sua mulher momentos antes dizendo: "o avião está em chamas, amo você e as crianças", então estava naturalmente com pressa para dizer que estava vivo. Mas fez uma pausa quando o piloto disse a ele para entrar com cuidado no bote.

Na asa, Laurie Crane, 58, olhava a água subir até sua cintura. "Eu dizia para mim mesma, 'Não vou morrer afogada'", disse. "'Não é assim que eu vou morrer. Continue lutando'. Foi o que eu fiz".

A família Sosa conseguiu chegar lentamente à asa direita. "Estávamos tomando muito cuidado porque não queríamos perder nossos filhos, e muitas pessoas estavam tentando agarrar nossos filhos para longe de nós", disse Sosa. De fato, Sanderson - que disse que desde o atentado de 11 de setembro sempre faz uma oração em silêncio ao entrar num avião - lembra-se de Tess Sosa "parada ali gritando".

"As mulheres no bote salva-vidas disseram, 'Dê-nos o bebê, dê-nos o bebê, joguem o bebê para nós'", disse Sanderson. "Mas ela não faria isso". Depois, disse ele, "o outro homem que estava na asa e agarramos os dois e os lançamos ao bote".

Não havia espaço no bote superlotado para Martin Sosa. "Foi um momento de salve-se quem puder", disse ele. "Devo dizer que algumas coisas poderiam ter sido feitas de um jeito diferente para colocar minha mulher e filhos a bordo primeiro". Sosa terminou com água gelada até o peito, sem sentir suas pernas - seus dedos ficaram amortecidos durante toda a sexta-feira - mas as crianças estavam bem, e juntaram-se aos pais no programa "Today" na sexta-feira de manhã.

"Minha filha falou: 'Pai, o avião virou um barco'", lembra-se Sosa.

Os botes de resgate se aproximaram do avião vindos de todas as direções. Um helicóptero da polícia ficou acima do rio, e mergulhadores desceram na água.

A bordo de uma das várias balsas da New York Waterways que ajudaram no resgate, o capitão Sullenberger levou uma prancheta de metal com a lista de passageiros para a cabine de comando, e usou o canal de rádio dos serviços de emergência para fazer uma contagem junto com as outras
embarcações: todos estavam vivos.

Billy Campbell, 49, um executivo de televisão, tinha visto a água entrar por fissuras nas janelas do avião e, vendo os corredores congestionados, começou a subir sobre as poltronas. Seus sapatos encharcados escorregavam, então ele colocava o joelho sobre as poltronas, caía, e continuava se movendo. Ele chegou à saída da asa direita, que estava bloqueada. A saída da esquerda estava livre, mas a asa estava cheia de gente.

O piloto e os comissários de voo acenaram para ele ir para a frente, e ele acabou no mesmo bote que o piloto.

"Eu disse, 'Obrigado', e segurei seu braço", lembra-se Campbell, "e ele disse, 'Por nada'".

Maryann Bruce, 48, de Cornelius, Carolina do Norte, disse que enquanto os outros estavam "pensando na morte, eu estava na verdade pensando em viver. Eu queria ver meus filhos e meu marido".

Bruce disse que ela já sobreviveu a desastres, incluindo um atentado a bomba no World Trade Center em 1993, onde ela trabalhava na época. "Eu devo ter nove vidas", disse. "Eu estava de férias em Honolulu e tive de ser evacuada por causa de um tsunami. Estava esquiando em Denver quando aconteceu uma avalanche. Já voei dentro do olho de um furacão.
E estava presente no grande terremoto de Los Angeles".

Num hotel no centro onde os sobreviventes esperaram para se encontrar com representantes da companhia aérea, um passageiro pediu um martini.
Logo, nove passageiros estavam contando histórias, enquanto vinho fluía em abundância, e alguém decidiu que já havia visto o suficiente da cidade de Nova York por um dia, obrigado. O grupo voltou para LaGuardia, onde embarcou no voo 2591 da US Airways para Charlotte, que decolou pouco antes das 10 da noite.

"Eles nos aplaudiram", disse Wentzell, o vendedor. "Bebemos vinho, e pensamos sobre como é maravilhoso estar vivo". Eloise De Vylder

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