UOL Notícias Internacional
 

19/01/2009

Enviado dos EUA à Rússia relembra pai que lutou pelos soviéticos

The New York Times
Ellen Barry
Em Moscou
Quando John Beyrle, o novo embaixador dos EUA na Rússia,
apareceu num programa de rádio russo logo depois da guerra de cinco
dias contra a Geórgia, as perguntas que fizeram para ele foram
bastante diretas, como era previsível. É verdade que os Estados Unidos
estão enviando armas para a Geórgia sob o disfarce de ajuda
humanitária? O senhor pode provar que os mísseis de defesa americanos
não estão apontados para a Rússia?

E também: é verdade que seu pai foi um soldado soviético?

A resposta - que Beyrle (pronuncia-se Bai - er - li) deu ao vivo num
russo impecável - deve ser uma das histórias mais surpreendentes da 2ª
Guerra Mundial.

Sim, durante os últimos meses desesperados da guerra, o jovem de 21
anos de Muskegon, Michigan, que passava fome, cruzou a frente oriental
a pé e ofereceu seus serviços para um batalhão de tanques soviético,
usando as três palavras em russo que ele havia aprendido quando foi
prisioneiro de guerra dos alemães - Ya Amerikansky tovarishch, ou "Sou
um camarada americano!"

E, sim, ele lutou contra os nazistas do lado dos russos, enrolando
suas botas com lona e bebendo tragos de vodca para evitar o frio
intenso. Durante os intervalos entre as batalhas, respondia a baterias
de perguntas sobre o capitalismo e ensinou o batalhão a cantar a
canção de guerra Notre Dame. Quando a guerra terminou, e Joe Beyrle
tornou-se supervisor de uma fábrica de bolas de boliche, ele contou
essas histórias para seu filho - o futuro embaixador em Moscou.

"Ele sempre viu os russos como as pessoas que salvaram sua vida,
quando eles podiam, com a mesma facilidade, tê-lo colocado contra uma
parede e atirado", disse Beyrle, cujo escritório tem vista para a Casa
Branca russa, encoberta por uma cortina de neve caindo em janeiro.

Beyrle, 54, chegou a Moscou num momento difícil. Um mês depois de ter
se mudado para a Casa Spaso, a residência do embaixador, a Geórgia
lançou sua ofensiva contra a Ossétia do Sul, o que foi amplamente
visto em Moscou como uma iniciativa americana. Em resposta, as tropas
russas atravessaram em massa a fronteira com a Geórgia, fazendo com
que as relações entre Moscou e Washington atingissem seu ponto mais
crítico desde a guerra fria.

Em outras palavras, não era um ambiente propício para viagens
sentimentais. Beyrle fala sobre a crise de agosto com a indiferença
enfática de três décadas na Rússia, como se o atrito entre os dois
governos fosse a regra, e não a exceção. Sua carreira na Rússia foi
pontuada pela invasão do Afeganistão, a queda do vôo 007 da Korean
Airlines e as mortes desestabilizadoras de dois líderes soviéticos,
Konstantin Chernenko e Yuri Andropov.

"Eu tenho", disse calmamente, "um senso de perspectiva sobre as crises".

Há algo de pessoal na conexão de Beyrle com a Rússia. As memórias de
seu pai deram à União Soviética um peso humano: na primavera de 1945,
quando Joe Beyrle viajou de volta para casa em Michigan, pegou um trem
que cruzava Belarus, e viu pela janela os corpos dos soldados
soviéticos, amarrados como lenha, disse o filho. Vinte e sete milhões
de cidadãos soviéticos morreram durante a guerra - incluindo, acredita
sua família, todo o batalhão que resgatou Joe Beyrle.

"Ele viu o rastro que a guerra deixou, que não foi muito mais do que
cinzas e escombros com fumaça", disse Beyrle. "Para a maioria dos
americanos, a 2ª Guerra Mundial é a Itália e a Normandia. Ninguém sabe
o que aconteceu em Stalingrado. Eu tive uma compreensão bem diferente
da União Soviética. Este é um país cuja auto-consciência foi formada
pela guerra".

Coisas estranhas acontecem durante guerras. A história de Joe Beyrle
marca a colisão de um obstinado prisioneiro de guerra norte-americano
- que arriscou sua vida para escapar de um campo de concentração
alemão quando era óbvio que seria libertado em breve - com o caos
brutal da frente oriental, que o biógrafo de Joe, Thomas H. Taylor,
descreveu como "dois tiranossauros em ação".

Joe Beyrle, que desceu de pára-quedas na Normandia no Dia-D, foi
terrivelmente agredido durante os sete meses que passou no cativeiro
alemão. Ele conseguiu escapar na terceira tentativa, e fugiu através
do interior da Polônia até conseguir ouvir o fogo da frente oriental,
que soou como "um sinal de boas vindas de Deus", disse a Taylor no
livro "The Simple Sounds of Freedom" ["Os Simples Sons da Liberdade"].

Ele se escondeu num celeiro, mascando palha até que ficasse mole o
suficiente para engolir, enquanto o Exército Vermelho tomava a
fazenda, metralhava o casal alemão que vivia lá e alimentava os porcos
com os corpos. Ele saiu com as mãos para cima, oferecendo aos
soviéticos um maço de Lucky Strike molhado.

Quando ofereceram a ele passagem segura para casa, ele disse que
preferia ficar com o batalhão. Por que? Perguntaram, perplexos. Sua
resposta foi: "para lutar contra os nazistas, para lutar contra eles
com vocês", escreveu Taylor.

A guerra terminou para ele algumas semanas mais tarde, quando uma
bomba alemã fez com que ele voasse de um tanque, e sua comandante -
uma mulher que ele conhecia apenas como "a major" - reclinou-se sobre
ele e disse: "Proshchai, tovarishch" - "Adeus, camarada".

Joe Beyrle voltou para Muskegon, onde as histórias de guerra de todos
foram gradualmente encobertas pela vida cotidiana.

A camaradagem entre Moscou e Washington não duraria muito. Nos anos
50, o sentimento anticomunista já era tão onipresente que, como diz
John Beyrle, "se você fosse prudente, talvez não falasse muito sobre o
fato de ter lutado para o Exército Vermelho, mesmo que por apenas uma
semana".

As autoridades americanas desencorajaram Joe de entrar em contato com
seus colegas de guerra soviéticos e o viram como um "bem único", diz
Taylor. Nos anos 50, o FBI pediu para que ele se infiltrasse numa
célula comunista num sindicato trabalhista, e durante a Guerra do
Vietnã, quando as conversações de paz foram interrompidas, a CIA o
enviou para o Laos para entregar em mãos uma carta para um major do
exército vietnamita.

Foi seu filho, por fim, que permitiu que Joe Beyrle escavasse seu
passado. Guiado no estudo do russo por um de seus professores na
Universidade Estadual Grand Valley em Grand Rapids, Michigan, John
Beyrle encontrou trabalho em Moscou como guia para uma exibição do
governo americano sobre técnicas agrícolas. Ele o pai começaram a
vasculhar os arquivos, procurando por algum sobrevivente que talvez se
lembrasse de Joe Beyrle. O filho entrou para o Serviço Exterior em
1983 e fez progresso na pesquisa durante duas estadias em Moscou. A
história começou a chamar atenção.

Em 1994, o presidente da Rússia Boris N. Yeltsin presenteou Joe Beyrle
com quatro medalhas pelo serviço no Exército Vermelho. Foi "o momento
de maior orgulho em sua vida", disse John Beyrle mais tarde.

Hoje John Beyrle é casado com uma funcionária do Serviço Exterior,
Jocelyn Greene, com quem tem duas filhas. Quando foi nomeado
embaixador para a Rússia, seu pai já estava morto há quatro anos. Mas
a história foi contada inúmeras vezes desde sua chegada; os diplomatas
esperam que ela ecoe num momento de profunda desconfiança em relação
aos Estados Unidos.

No Dia dos Veteranos, Beyrle reviveu a tradição da embaixada de
celebrar com os veteranos russos. Entre eles estava major general
Vasily Zibarev que, assim como o pai de John, lutou num batalhão de
tanque na frente oriental.

"Talvez meu pai e o general Zibarev nunca tenham se encontrado, mas
eles estavam lutando pela mesma causa e celebraram uma vitória comum",
disse Beyrle. A declaração foi conseguida por Oleg Gorupai para o
jornal interno do Ministério da Defesa, o Krasnaya Zvezda, ou Estrela
Vermelha. O jornal rotineiramente condena o papel americano na região.
Questionado sobre sua especialidade enquanto trabalhava no Cáucaso,
Gorupai, que é editor, sorriu e disse: "criticar os EUA".

Mas sua coluna sobre Joe Beyrle refletiu um tipo diferente de
mentalidade. "O caminho do confronto - é um passo para dentro do
deserto, para o desconhecido", escreveu. A reunião de velhos soldados
na Casa Spaso, disse, "mais uma vez atesta o fato de que nem tudo está
perdido".

Tradução: Eloise De Vylder

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