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19/01/2009

Patinadores correm para os canais em um raro congelamento profundo

The New York Times
John Tagliabue
Em Nieuwerkerk Aan Den Ijssel (Holanda)
Pela primeira vez em 12 anos, os canais da Holanda congelaram neste mês, provocando nos holandeses, que gostam de suas tulipas em fileiras impecáveis, uma mistura de pandemônio e euforia.

Centenas de milhares de patinadores, com suas bochechas tão vermelhas quanto maçãs nas temperaturas abaixo de zero, tomaram o gelo e os hospitais ficaram cheios de dezenas de pessoas com braços fraturados, tornozelos torcidos e pernas quebradas.

Os condutores de trens foram ordenados a avançarem lentamente, para evitar atropelar os patinadores que escalam os trilhos ferroviários para passarem de um canal congelado para outro. Até o ministro da Defesa, um ávido patinador, caiu e quebrou o pulso. Seu ministério anunciou que a defesa nacional continua em mãos seguras, mesmo que uma delas esteja no gesso.

No século 19, quando Hans Brinker, o herói do romance "Os Patins de Prata", viajava ao longo da costa da Holanda, os canais congelavam quase todo ano. Mas a poluição da água e a mudança climática tornaram isso tão raro que hoje um menino de 15 anos, a idade de Brinker, pode nunca ter visto um canal congelado, ou pelo menos não se recordar de um. Até este ano.

"Para nós, está em nossos genes", disse Gus Gustafsson, 68 anos, um executivo de seguradora aposentado, explicando por que ele e sua esposa correram para comprar novos patins e ir ao gelo sob um céu azul e sem nuvens. "Foi como um febre que tomou conta das pessoas, incluindo muitas crianças, como minha neta, que tem 5 anos." Ao lado de milhares de outros, eles patinaram na direção nordeste até Utrecht, então na direção da capital do queijo, Gouda.

Com um afluxo de imigrantes, o país está lutando para manter o que considera sua alma holandesa, e Gustafsson era um dos muitos aqui que acham que a experiência de patinar permitiu aos holandeses se reconectar com sua identidade. "Só havia holandeses no gelo", ele prosseguiu. "Eu não vi pessoas de origem árabe."

Mas Andre Bonthuis, que é prefeito desta cidade de 23 mil habitantes nos últimos 20 anos, disse que viu indonésios e marroquinos, entre outros recém-chegados à Holanda, no gelo. "É algo novo para as pessoas do Marrocos", ele disse. Mas ele concordou que há algo muito holandês em patinar no canal, como é descrito em pinturas dos mestres holandeses desde o século 17.

"A água é nossa amiga e 10% de nossa área á água", ele disse. "Desde os tempos antigos, nos vilarejos pequenos, as pessoas podiam patinar até as outras."

Bonthuis, 59 anos, disse que patinou recentemente com amigos, mas também passou bastante tempo patinando meditativamente sozinho, se inclinando ligeiramente à frente, com os braços cruzados nas costas. "É bom patinar quando há uma bela vista nos campos", ele disse. "Você vê muitas pessoas patinando sozinhas."

Ao ser perguntado se a febre de patinação teve um impacto econômico, ou talvez tenha ajudado os holandeses a esquecerem da recessão, ele respondeu: "Todo mundo tirou dias de folga". Ele acrescentou: "Muitos holandeses cancelaram as férias de esqui, o que prejudica a economia, pelo menos nos resorts de esqui".

Mas na Haitsma, uma grande loja de equipamento e material para patinação, Henk Haitsma, o proprietário de 62 anos, não estava se queixando. Suas prateleiras estavam vazias. "Eu vendi entre 3 mil e 4 mil pares de patins nos últimos 10 dias", ele disse. No mesmo espaço de tempo ele vendia várias centenas em outros anos.

Os holandeses, famosos por seus patinadores velocistas campeões, gostam de patinar de primeira classe. O par mais caro que Haitsma vende, patins luxuosos com lâminas viradas, custa US$ 1.190. Outros modelos caros possuem revestimentos removíveis que são colocados no micro-ondas, então vestidos no pé do patinador, onde encolhem até o tamanho perfeito. Muitos dos patins da loja possuem lâminas removíveis, o que permite aos patinadores caminharem fora do gelo sem danificar as lâminas.

Monique Matze diz que apenas espera que os patinadores se mantenham longe dos trilhos da ferrovia. Ela é porta-voz da ProRail, a empresa que opera as linhas ferroviárias holandesas, e está incomodada com o número de patinadores cruzando os trilhos, muitos deles calçando patins pesados.

"Quando nossos trilhos passam sobre a água e as pessoas querem ir de um lado para o outro, eles simplesmente os escalam", ela disse. Não ocorreram acidentes, ela disse, mas acrescentou: "Neste fim de semana havia muitos, muitos patinadores, e não temos meios para facilitar a travessia, então a única coisa que pudemos fazer foi alertá-los".

Podem não ter ocorrido acidentes ferroviários, mas ocorreram vários tipos de outros. O ministro da Defesa, Eimert Van Middelkoop, "caiu em um ponto duro do gelo", segundo uma declaração do ministério. Nesta semana ele estava de volta à sua mesa, com seu braço engessado.

"Ele tem mais de 60; não devia estar patinando", disse Henk Van Engelenburg, um arquiteto aposentado, rindo. Van Engelenburg, 74 anos, cuja residência é um moinho reformado do século 17, disse que sua esposa, que adora patinar, teve um problema no quadril. "Ela chorava porque não podia patinar", ele disse. Mas seu neto de 6 anos estava no gelo, empurrando uma cadeira para evitar cair, a forma holandesa tradicional de ensinar as crianças a patinar.

Mas nesta semana, a chuva e as nuvens do inverno holandês habitual estavam de volta. Meteorologistas disseram que as baixas temperaturas que trouxeram o gelo mais cedo neste mês foram causadas pelo ar frio que veio do leste, pela Alemanha e entrando na Holanda. Foi "um clima favorável para a patinação", disse Harry Geurts, um porta-voz do Instituto Meteorológico Real Holandês, na vizinha De Bilt. "Muito sol, pouco vento, realmente incrível."

Geurts disse que não patinou. "Eu gosto de caminhar na mata", ele disse. "Quando tem aquela neblina gelada, é fantástico."

Estranhamente, o frio varreu apenas o sul da Holanda e não o norte. Isso é importante porque este ano marca o 100º aniversário da primeira corrida pelos canais congelados por 11 cidades no norte, e ela foi repetida todo ano no século passado quando havia gelo.

Será que haverá outra frente fria para congelar os canais do circuito de 11 cidades? "Não nas próximas semanas", disse Geurts. "Quanto muito, em fevereiro."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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