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20/01/2009

Transição indica como um líder poderá governar

The New York Times
Peter Baker
Em Washington
Um dia antes de se mudar para a casa mais célebre do país, Barack Obama visitou um abrigo para adolescentes sem lar. Com as mangas arregaçadas, ele passou alguns minutos pintando para as câmeras que o seguem a toda parte agora.

Cara Fuller, uma funcionária do abrigo, perguntou se ele estava suando frio.

"Não, eu não suo", ele lhe disse. "Você já me viu suando?"

Ainda não. Mas ainda é cedo.

Obama chega à presidência nesta terça-feira, após uma transição que indicou nenhuma transpiração ou nervosismo. Por todos os 77 dias desde a eleição, ele tem sido uma fonte de confiança tranquila, nunca nem fervoroso e nem frio demais, aparentemente não intimidado pela magnitude dos problemas que o aguardam e não incomodado pelos poucos revezes que sofreu.

Ele continua difícil de ler ou rotular - centrista em suas indicações e bipartidário em seu estilo, mas também promovendo a maior expansão do governo em gerações. Ele cruzou velhas fronteiras para formar metodicamente a base de um governo encarregado de retirar o país da crise, mas apesar de toda a extensão, ele deixou claro que está centralizando as políticas na Casa Branca.

Ele no final terá que escolher entre conselhos e prioridades concorrentes, correndo o risco de decepcionar ou enfurecer os eleitores que, por ora, ainda veem nele o que esperam ver.

O que o país viu sobre seu estilo de liderança até o momento evoca a disciplina de George W. Bush e a curiosidade de Bill Clinton. Obama não se intimida de tomar decisões e tomá-las rapidamente - ele formou sua equipe em tempo recorde - mas também busca explorar o diálogo intelectual do país em um momento de grande agitação. Ele estabeleceu as idéias para a governança muito antes de assumir o cargo, mas também adaptou os detalhes à medida que as condições mudaram.

Mais do que qualquer presidente desde que era menino, Obama assumiu um lugar na sociedade que vai além da liderança política. Ele é tanto um símbolo quanto substância, um ícone para a juventude e um sinal de libertação para uma geração mais velha que nunca acreditou que um homem com sua cor de pele subiria aqueles degraus para jurar preservar, proteger e defender uma Constituição que considerava um homem negro como três quintos de uma pessoa.

Ele é um presidente-celebridade em uma cultura de celebridades, badalado por sua foto sem camisa na praia e presente na capa de todas as revistas, da "Foreign Policy" até a "People". O que seus adversários políticos buscaram retratar na campanha como arrogância, agora é apresentado por seus assessores como à vontade diante do poder e das responsabilidades que o acompanham.

"Ele meio que vive em uma zona livre de ressentimento", disse John D. Podesta, co-presidente de sua equipe de transição. "Ele é capaz de trazer muita informação e tomar boas decisões. Ele sabe que cometerá erros. Ele também sabe que é preciso fazer o melhor que é possível, tomar decisões difíceis e seguir em frente."

COBERTURA ESPECIAL

"Presidente de todos", Barack Obama faz história ao toma posse nos EUA, às 15h (horário de Brasília)

Esses erros podem ocorrer em parte à sua confiança característica. Obama conhecia e gostava do governador do Novo México, Bill Richardson, inicialmente ignorando uma investigação dos contratos estaduais que posteriormente minaram sua indicação para secretário do trabalho. Igualmente, Obama criou um laço pessoal com Timothy F. Geithner e o escolheu como secretário do Tesouro, optando por ignorar o fracasso anterior de Geithner de pagar alguns de seus impostos.

Pouco veio à tona sobre o processo por trás desses episódios, mas assessores descreveram o processo de tomada de decisão de Obama como sendo claro e eficiente. Quando ele participa das reuniões, eles disseram, ele começa emoldurando as perguntas que deseja respondidas, então dá para cada pessoa uma chance de falar, as envolvendo na discussão. No final, ele costuma resumir o que ouviu e para onde está inclinado. Uma pessoa de fim de noite, ele freqüentemente faz ligações para assessores após as 22h ou mais tarde, após colocar suas filhas na cama.

Podesta não quis descrever como foi a decisão de retirar a indicação de Richardson, mas disse que ela ocorreu em questão de nove horas, não dias, o que limitou os danos. "Nós vimos o problema, entendemos, Bill entendeu que não era viável e nós a suspendemos", disse Podesta.

Isso contrasta de Bill Clinton, que gostava de discussões livres e demorava a tomar decisões. Podesta, o último chefe de Gabinete da Casa Branca de Clinton, descreveu o ex-presidente como brilhante em "pensar lateralmente" entre diversas áreas. "Uma coisa que parecia não afetar Bill Clinton é a escola de Direito", ele disse. "Minha tendência é pensar no presidente eleito como abordando um problema de forma mais lógica, mais detalhada."

Obama optou por correr risco durante a transição. Ele trouxe sua rival democrata, Hillary Rodham Clinton, para o Gabinete, e enfureceu gays e liberais ao convidar o reverendo Rick Warren, um oponente do aborto e do casamento de mesmo sexo, para conduzir a oração da posse. Apesar da deferência de Obama em assuntos externos com sua regra "um presidente de cada vez", isso não se aplica à política doméstica, onde fez lobby para que o Congresso liberasse US$ 350 bilhões em dinheiro de resgate financeiro e está prestes a negociar cerca de US$ 800 bilhões em programas de gastos e reduções de impostos.

"Ele tem a coragem política de olhar para as coisas e ser ousado", disse o governador da Pensilvânia, Edward G. Rendell, um partidário de Hillary Clinton que tem passado algum tempo com Obama desde a eleição. "A sabedoria política é ir devagar, tomar o caminho mais fácil e acumular algumas vitórias."

Rendell disse que Obama não importou em correr riscos. "Ele é voltado para a meta, não voltado para o processo", ele disse. "Se ele tiver que fazer coisas heterodoxas ou excluir seus amigos para atingir uma meta, ele fará isso."

Mas Obama conseguiu engajar os adversários, jantar com colunistas conservadores e conversar com uma congressista republicana. "Ele e sua equipe de transição contataram o Capitólio mais do que qualquer outra equipe de transição que já vi", disse o deputado John A. Boehner, de Ohio, o líder republicano da Câmara. "Até aqui tudo bem. Mas administrar uma campanha e uma transição será diferente de governar, porque governar envolve tomar decisões."

Boehner notou que Obama reservou originalmente 40% de seu pacote econômico para as reduções de impostos, mas agora parece estar dando ouvidos aos democratas que pressionam por mais gastos. "A certa altura ele terá que dizer às pessoas o que pretende", disse Boehner, "e então veremos se ele deseja governar do centro ou abrir espaço para os liberais em seu partido".

O engajamento dos republicanos por Obama pagou dividendos. Ele atraiu senadores republicanos suficientes para liberação do dinheiro do resgarte. Até mesmo alguns que não convenceu retiraram sua oposição. Por exemplo, ele telefonou para o senador Tom Coburn, republicano do Oklahoma, que era contrário ao dinheiro do resgate sem um compromisso de que seria usado apenas para o setor financeiro, não para outros setores.

"Eles não queriam fechar a porta e, se eu fosse eles, também não ia querer", disse Coburn. "Mas eu queria fechar a porta." Após o telefonema de Obama, ele disse, "eu votei contra o projeto quieto".

Obama também formou uma base de apoio popular maior do que muitos novos presidentes. O deputado Artur Davis, democrata do Alasca, disse que 53% dos eleitores brancos em seu Estado conservador agora apóiam Obama, em comparação aos 17% antes da eleição. "Ele é pragmático", disse Davis, "e até mesmo muitos eleitores que votaram contra ele o consideram preparado para governar de uma forma pragmática, não ideológica".

Mas Obama tem sido mais difícil de rotular, e os próximos meses devem expor sua filosofia de governo.

"Eu não acho que se enquadre nos mapas tradicionais de direita e esquerda, mas também não é uma triangulação ao estilo Bill Clinton", disse Robert B. Reich, o secretário do trabalho de Clinton e um conselheiro econômico de Obama. "Eu sinto que ele acredita genuinamente que as pessoas podem chegar a um certo consenso em torno dos grandes problemas e trabalharem juntas de forma eficiente. Eu realmente não sinto uma posição ideológica. Ele é obviamente um homem de fortes convicções, mas não se enquadram nas categorias-padrão."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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