UOL Notícias Internacional
 

21/01/2009

Discurso de Obama menciona história, mas confronta Bush

The New York Times
David E. Sanger
Em Washington (EUA)
Embora fraseado com palavras indiretas, o discurso de posse de Barack Obama foi um repúdio enérgico à era de George W. Bush e uma promessa de conduzir os Estados Unidos a "uma nova era", com a reforma dos valores do período anterior.

Foi uma tarefa delicada, já que Bush e o ex-vice-presidente, Dick Cheney, estavam sentados a apenas alguns metros de Obama enquanto este descrevia as falsas curvas e as estradas que não foram escolhidas. Obama culpou nada mais nada menos do que o próprio país - "o nosso fracasso coletivo quando se tratou de tomar decisões difíceis" e uma disposição a cancelar os ideais nacionais "em nome do oportunismo".

Mas, toda vez que Obama pediu aos norte-americanos que "escolhessem a melhor história" do país, tomassem decisões de acordo com a ciência e não a ideologia, rejeitassem uma "falsa escolha" entre segurança e os ideais estadunidenses, e reconhecessem que o poderio militar dos Estados Unidos não lhes dá o direito de fazer o que quiserem, ele indicou um compromisso com o pragmatismo, não como simples estratégia de governo, mas sim como um valor básico.

Foi, sob vários aspectos, exatamente o que seria de se esperar de um homem que conquistou o cargo mais alto dos Estados Unidos denunciando como um excesso de fervor ideológico tomou conta do país. Mas o fato surpreendente quanto ao discurso foi a forma como Obama fixou-se nas escolhas feitas pelos Estados Unidos neste momento na história, e não na importância da sua ascensão à presidência.

De forma semelhante ao que fez durante a campanha, ele mal mencionou a sua raça nos seus primeiros momentos como o 44º presidente dos Estados Unidos. E nem precisava. O cenário dizia tudo quando ele postou-se na escadaria de um Congresso construído pelas mãos de escravos, e colocou a mão sobre a bíblia que foi utilizada pela última vez pelo Grande Libertador.

Em vez disso, ele falou, ecoando Churchill, dos desafios existentes ao assumir o comando de uma nação afligida por aquilo que chamou de "nuvens que se acumulam e tempestades ameaçadoras". E, como estudante de discursos de posse proferidos no passado, ele sabia o que precisava dizer. O novo presidente precisava evocar o apelo à unidade que foi a peça central do discurso de Lincoln na sua segunda cerimônia de posse em 1865, transmitir a sensação de otimismo e paciência que ressoou na primeira cerimônia de posse de Roosevelt em 1933, quando a nação enfrentava os piores momentos da Grande Depressão, e, finalmente, recuperar a combinação de inspiração nacional e determinação que John Fitzgerald Kennedy exibiu no mesmo local, seis meses antes do nascimento de Obama.

Enquanto a sua voz e a sua imagem eram transmitidas pelo Mall, o enorme espaço gramado em frente ao Capitólio, Obama falava para uma plateia composta de várias gerações, que estendia-se para além do Monumento a Washington. Misturados à multidão estavam os últimos remanescentes de uma geração da Segunda Guerra Mundial - que incluía Aviadores Tuskeegee (um grupo de pilotos negros que tiveram um excelente desempenho na guerra) - para a qual as leis de segregação Jim Crow eram parte tão comum do cotidiano que um dia como este seria imaginável.

Havia veteranos de meia idade e idosos do movimento dos direitos civis para os quais esta parecia ser a conquista máxima de uma vida de lutas. E também estavam lá jovens norte-americanos - e um número enorme de jovens negros - que não conheceram o movimento dos direitos civis ou a Guerra Fria. Para estes Obama é um símbolo de uma nova era de comunicação instantânea e integração em todos os sentidos da palavra.

Para aquelas três gerações, os veteranos que chegaram em cadeiras de roda e os adolescentes que usavam fones de ouvido e digitavam os teclados dos seus telefones celulares, o discurso de Obama foi bem menos importante do que o momento em si. Muitos dos que enfrentaram o frio de 8 ºC negativos para aglomerarem-se no Mall ao raiar do dia disseram que só acreditariam que os Estados Unidos dariam posse a um presidente negro quando o vissem e ouvissem prestar o juramento, ainda que estivessem a uma considerável distância do presidente.

A imagem de Obama na escadaria do Capitólio foi tão histórica que o discurso tornou-se maior do que o próprio texto, mais carregado de significados do que qualquer coisa que Obama pudesse ter dito.

Mas, mesmo assim, o que ele disse pode ter chocado um pouco Bush, que sabia que as suas políticas têm sido altamente criticadas, mas que, no decorrer dos últimos oito anos, raramente teve que sentar-se em silêncio ouvindo um discurso sobre como os Estados Unidos seguiram uma rota trágica.

Foi Bush que, em 2004, jurou várias vezes que o seu trabalho era "confrontar os problemas, e não passá-los para os futuros presidentes e as futuras gerações". Mas, lá estava Obama, afirmando que os perigos econômicos enfrentados pelos Estados Unidos são culpa de uma era "de ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também de um fracasso coletivo no que diz respeito a fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era". Obama disse ainda que a "maneira como usamos energia fortalece os nossos adversários e ameaça o nosso planeta", fazendo uma crítica implícita a um governo que criou guerras mas pouco fez para modificar os hábitos dos norte-americanos.

Quando Obama voltou-se para a política externa, ele fez mais críticas implícitas, observando que a Guerra Fria foi vencida "não apenas com mísseis e tanques", mas por líderes que entenderam "que o nosso poder sozinho não pode nos proteger, e ele tampouco nos dá o direito de o usarmos como bem entendermos". Em vez disso, afirmou Obama, esse poder "cresce por meio do seu uso prudente".

Foi uma mensagem que grande parte do mundo desejava ouvir. Mas ela foi acompanhada de uma advertência aos inimigos dos Estados Unidos, especialmente terroristas e nações que apoiam o terrorismo. "Vocês não conseguirão durar mais do que nós, e nós os derrotaremos", advertiu Obama. Este equilíbrio - a promessa de um Estados Unidos fiel aos seus ideais, mas que obtém a vitória através do poder silencioso - será o verdadeiro teste para o governo Obama. É um teste que ainda está por vir, mas cujo processo tem início hoje.

* David E. Sanger é chefe da sucursal de Washington do "The New York Times"

Tradução: UOL

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