UOL Notícias Internacional
 

21/01/2009

Friedman: radical na Casa Branca

The New York Times
Thomas L. Friedman
Por um dia, por uma hora, vamos nos curvar como um país. Quase 233 anos após nossa fundação, 144 anos após o término de nossa Guerra Civil e 46 anos após o discurso "Eu Tenho um Sonho" de Martin Luther King, esta colcha de retalhos maluca de imigrantes chamada de americanos finalmente elegeu um homem negro, Barack Hussein Obama, como presidente.

Caminhando de volta da posse, eu vi um vendedor ambulante afro-americano vestindo uma camiseta com uma mensagem feita em casa e que capturava muito bem o momento - e mais. Ela dizia: "Missão Cumprida".

Mas não podemos permitir que este seja o último molde que quebramos, muito menos que seja a última grande missão que cumprimos. Agora que superamos a biografia, nós precisamos de uma nova história - uma que reinicie, reviva e revigore os Estados Unidos. Essa foi, para mim, a essência do discurso de posse de Obama e espero que nós - e ele - realmente estejamos à essa altura.

Na verdade, eu ouso dizer, eu espero que Obama realmente tenha andado todos aqueles anos com o velho radical de Chicago, Bill Ayers. Eu realmente espero que Obama seja um radical disfarçado.

Não um radical de esquerda ou direita, apenas um radical, porque este é um momento radical. É um momento para rupturas radicais com os negócios de costume em muitas áreas. Nós não podemos prosperar como país apenas apoiados em nossa reputação, adiando soluções para todo grande problema que possa envolver alguma dor e dizendo a nós mesmos que novas iniciativas dramáticas -como um imposto sobre a gasolina, cobertura nacional de saúde ou reforma do sistema bancário- são difíceis demais ou estão "fora da mesa". Logo, minha esperança mais fervorosa a respeito do presidente Obama é que ele será tão radical quanto este momento -de que ele colocará tudo na mesa.

O DISCURSO

  • Assista ao 1º discurso de Obama como presidente

Oportunidades para iniciativas ousadas e verdadeiros reinícios são raras em nosso sistema -em parte por causa da simples inércia e impasse projetados em nossa Constituição, com sua separação deliberada dos poderes, e em parte por causa da forma com que o dinheiro do lobby, um ciclo de notícias de 24 horas e uma campanha presidencial permanente podem todos conspirar para paralisar grandes mudanças.

"O sistema é construído para o impasse", disse Michael J. Sandel, um cientista político da Universidade de Harvard. "Em tempos comuns, a energia e o dinamismo da vida americana residem na economia e na sociedade, e as pessoas vêem o governo com suspeita e indiferença. Mas em tempos de crise nacional, os americanos olham para o governo em busca da solução para os problemas fundamentais que os afetam diretamente. Estes são tempos em que os presidentes podem fazer grandes coisas. Estes momentos são raros. Mas eles oferecem a ocasião para o tipo de liderança que pode mudar a paisagem política, e redefinir os termos da discussão política por uma geração."

Nos anos 30, a Grande Depressão permitiu a Franklin D. Roosevelt lançar o New Deal e redefinir o papel do governo federal, ele acrescentou, enquanto nos anos 60, o assassinato de John F. Kennedy e o "fermento moral do movimento dos direitos civis" permitiram a Lyndon B. Johnson colocar em prática sua agenda da Grande Sociedade, incluindo o Medicare (o atendimento público de saúde para idosos e inválidos), a Lei dos Direitos Civis e a Lei dos Direitos de Votação.

"Essas presidências fizeram mais do que aprovar leis e programas", concluiu Sandel. "Elas reescreveram o contrato social e redefiniram o que significa ser um cidadão. O momento de Obama, e sua presidência, pode ter este impacto."

Obama foi pacifista, humano e multilateral

  • O comentarista do UOL Notícias Sérgio Dávila acompanhou in loco a posse do 44º presidente norte-americano e fala sobre o frio, sobre o discurso de Obama e sobre a reação do público

George W. Bush arruinou completamente seu momento pós-11 de Setembro para convocar o país para uma nova reconstrução doméstica dramática. Isso nos deixou em alguns buracos profundos. Esses buracos - e a ampla consciência de que estamos no fundo deles- são o que torna este um momento radical, pedindo por rupturas radicais dos negócios de costume, lideradas por Washington.

Este é o motivo para este eleitor estar torcendo para que Obama rebata a bola para fora do campo (de beisebol). Mas ele também precisa não se esquecer de correr para as bases. George Bush rebateu algumas bolas, mas freqüentemente fracassou no elemento mais básico da liderança - uma gestão e acompanhamento competentes.

O presidente Obama terá que decidir quantas vezes conseguirá rebater a bola para fora do campo de cada vez: negociando a cidadania e reforma da imigração? Um sistema nacional de saúde? Uma nova infraestrutura de energia limpa? A nacionalização e reparo do nosso sistema bancário? Serão todos ou apenas um? Alguns agora e outros mais tarde? É cedo demais para dizer.

Mas eu sei disto: apesar da crise ser algo terrível de ser desperdiçada, um grande político também é, com dom natural para oratória, um jeito raro de unir as pessoas, e um país, particularmente sua juventude, pronto para ser convocado e servir.

Assim, apesar de ser impossível exagerar que ruptura radical em relação ao nosso passado é a posse de um presidente negro, é igualmente impossível exagerar quanto nosso futuro depende de uma ruptura radical com nosso presente. Como o próprio Obama declarou nos degraus do Capitólio: "Nosso momento de não ceder, de proteger interesses estreitos e adiar decisões desagradáveis - esse tempo certamente passou".

Nós precisamos voltar a trabalhar em nosso país e nosso planeta de formas totalmente novas. Nós estamos atrasados, o projeto não poderia ser mais difícil, o que está em jogo não poderia ser maior, o fruto não poderia ser maior.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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