UOL Notícias Internacional
 

22/01/2009

Tensões do Oriente Médio ecoam na França

The New York Times
Katrin Bennhold
Em Noisy-le-Grand (França)
Em um enorme televisor de tela plana, os Chabchoub, uma família de imigrantes tunisianos, veem mães usando véus curvadas sobre os corpos dos filhos, enquanto os pais choram em silêncio. As pilhas de destroços, o bebê que se contorce coberto de queimaduras - tudo isto vem diretamente da faixa de Gaza para a sala de estar dos Chabchoub, neste subúrbio operário de Paris.

Para os Chabchoub, assim como para os cerca de cinco milhões de muçulmanos que vivem na França, a faixa de Gaza dá a impressão de estar muito próxima devido a canais de língua árabe como a Al Jazira, que tiveram acesso à zona de guerra, ao contrário da mídia ocidental.

"Foi bom a luta ter parado, mas isso não significa que nós esqueceremos", afirma Enis Chabchoub, 29, um instrutor de informática que assiste às notícias com os pais, os irmãos e a cunhada. "Esta guerra será lembrada, e não apenas em Gaza".

Na França, que abriga as maiores comunidades judaica e muçulmana da Europa Ocidental, o conflito entre o Hamas e Israel inflamou profundamente as paixões no decorrer das últimas três semanas. As emoções enérgicas expressas em manifestações que atraíram dezenas de milhares de pessoas para as ruas, foram um dos fatores que determinaram os esforços diplomáticos dos líderes franceses, incluindo o presidente Nicolas Sarkozy, no sentido de que se chegasse a um cessar-fogo duradouro.

"As emoções do Oriente Médio estão nas nossas ruas", disse na semana passada Jean-David Levitte, assessor diplomático de Sarkozy.

Os 22 dias de luta em Gaza também reavivaram antigas tensões, e, em alguns casos, a violência, entre duas comunidades cujos membros moram frequentemente nos mesmos bairros e que enfrentam discriminações no país.

Algumas pessoas temem que a guerra possa ter provocado um dano permanente nas relações entre as comunidades. Os líderes judeus advertem para os perigos representados por uma espécie de sentimento anti-judaico difuso que está enraizado na comunidade islâmica. Já os muçulmanos acusam alguns membros da comunidade judaica de alimentar um preconceito contra eles ao fazerem comentários deliberados sobre diferenças que, segundo eles, são de natureza política, e não religiosa.

Desde que a guerra na faixa de Gaza teve início em 27 de dezembro, bombas incendiárias foram arremessadas contra quatro sinagogas na França, embora a polícia diga não saber ao certo se os responsáveis por essas ações são muçulmanos. Um estudante judeu foi atacado por jovens de origem árabe em um subúrbio de Paris, e dois estudantes muçulmanos foram agredidos em frente à sua escola de segundo grau por indivíduos pró-Israel. Tanto as famílias muçulmanas quanto as judaicas afirmam que houve um recrudescimento da intimidação e do assédio verbal.

Richard Prasquier, diretor do Conselho Representativo das Instituições Judaico-francesas, diz que pelo menos 60 atos anti-judaicos foram cometidos desde que teve início o conflito na faixa de Gaza, o que representa o quíntuplo das ações do gênero em um período normal de três semanas.

"O anti-semitismo na comunidade muçulmana está tornando-se mais ideológico, e os acontecimentos recentes poderão reforçar isso", disse Prasquier, no escritório do conselho, em Paris. "Esses indivíduos não se veem como anti-semitas, e identificam-se com os palestinos que são vítimas de Israel. Mas eles usam praticamente os mesmos estereótipos do velho anti-semitismo, como o do judeu rico que manipula os governos e é a origem de todo o mal".

M'hammed Henniche, da União das Associações Muçulmanas, no distrito de Seine-Saint-Denis, na zona norte de Paris, que inclui Noisy-le-Grand, vê as coisas de forma diferente. "Sim, existe raiva, mas não é contra os judeus, e sim contra Israel", diz ele. "O problema é que assim que uma pessoa condena Israel, ela é chamada de anti-semita. Para nós isso não se trata de religião, e sim de política".

Mas ele afirma também que o diálogo entre muçulmanos e judeus foi abalado devido à guerra, e que em alguns casos tal diálogo foi inteiramente suspenso.

"Algo se quebrou", observa Henniche.

As tensões entre muçulmanos e judeus não são uma novidade por aqui. Houve uma onda de violência na região durante o levante palestino em 2000. Elas também não são um fenômeno exclusivo da França, conforme ficou demonstrado nas últimas semanas com os ataques e agressões ocorridos no Reino Unido, na Dinamarca e em outros países europeus. Mas o tamanho destas comunidades nesta região fez com que as tensões tornassem-se mais evidentes.

Acrescente-se a isso a dolorosa história colonial francesa nos países árabes e um pequeno, mas barulhento, movimento de extrema-direita hostil aos judeus e aos imigrantes, e chega-se à conclusão de que, mesmo nos períodos mais favoráveis, a relação entre os muçulmanos e os franceses na França é no mínimo complexa.

Indivíduos de ambas as comunidades condenaram vigorosamente a recente onda de violência, e os dois lados enfatizam as suas afinidades culturais.

Assim como a grande maioria dos muçulmanos daqui, cerca de dois terços dos 600 mil judeus que vivem na França são de origem norte-africana. Os dois grupos possuem várias características culturais comuns, incluindo a cozinha e os coloquialismos, e muitos muçulmanos e judeus opõem-se a uma lei aprovada em 2004 que proíbe todos os vestuários e símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas francesas, incluindo o lenço muçulmano e o quipá judaico.

Mas se vários membros das gerações mais velhas ainda têm memórias agradáveis da época em que viviam pacificamente lado a lado, outros lamentam que esse clima tenha esfriado gradualmente. Algumas pessoas dizem que o afastamento das comunidades deve-se a conflitos como a Guerra do Iraque ou o impasse em relação ao Irã por causa das ambições nucleares de Teerã. Outros veem a era da televisão por satélite como uma fonte de tensão, já que os acontecimentos são divulgados segundo várias óticas políticas.

A guerra em Gaza provocou sentimentos fortes no 19º Arrondissement na zona nordeste de Paris, um dos maiores, mais pobres e mais racialmente heterogêneos bairros da cidade.

Açougueiros kosher e uma grande escola religiosa Lubavitcher ficam à distância de uma curta caminhada do Centro Medina Hammam, e nenhum ataque contra judeus ou muçulmanos foi registrado no bairro nas últimas três semanas. Mesmo assim, as emoções estão nas alturas.

"Eles estão vindo nos pegar na França, já que não podem fazer isso em Israel", diz uma mulher judia ao sair da sinagoga local. Ela fala sob anonimato porque teme pela sua segurança.

A dois blocos dali, Ahmed Bessa, 45, um vendedor de loja que usa um barrete muçulmano, diz que os judeus estão exagerando a dimensão da violência na França e em outros países da Europa porque a opinião pública não compartilha o ponto de vista deles em relação à faixa de Gaza. "Eles querem se apresentar como vítimas aqui, porque sabem que não são as vítimas lá", acusa Bessa.

Mas, uma coisa que une pessoas dos dois lados é a esperança de que haja uma solução rápida e duradoura para o conflito entre Israel e o Hamas.

"A única forma de superar esse problema é obtendo um acordo de paz apropriado e duradouro", conclui Chabchoub, em Noisy-le-Grand.

Tradução: UOL

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