UOL Notícias Internacional
 

23/01/2009

No sul do Afeganistão, Taleban preenche a lacuna deixada pela Otan

The New York Times
Dexter Filkins
Em Tsapowzai, Afeganistão
Os talebans estão por toda a parte em que os soldados não estão, diz o ditado no sul do país.

E são muitos lugares.

Para começar, há 885 quilômetros de fronteira com o Paquistão, onde se encontram as rotas mais movimentadas de infiltração do Taleban.

Talebans estão nos lugares onde não há soldados

  • Danfung Dennis/The New York Times

    Soldados afegãos prendem suspeito de ajuda homens-bomba



"Nós não estamos lá", disse o general John W. Nicholson, o vice-comandante das forças da Otan no sul do Afeganistão. "As fronteiras estão bem abertas".

E há o trecho de 160 quilômetros do Rio Helmand, que corre ao sul da cidade de Garmser, onde o Taleban e sua fonte de renda, as plantações de papoula, prosperam em isolamento.

"Ninguém", disse Nicholson, apontando para a área no mapa.

E há a província de Nimroz, toda ela, que faz fronteira com o Irã. Não há tropas lá. E o distrito de Ghorak, a noroeste de Kandahar, ao qual os oficiais se referem como "jet stream" (corrente de jato) pela qual fluem os combatentes do Taleban. Assim como os distritos de Shah Wali Kot, Kharkrez e Nesh, onde a presença de tropas da Otan é mínima ou nula.

"Nós não temos forças suficientes para proteger a população", disse Nicholson.

O general receberá mais tropas em breve. Apesar de planos precisos ainda não terem sido anunciados, foi pedido aos comandantes americanos no sul do Afeganistão para que fizessem planos para aceitação de quase todos os 20 mil a 30 mil soldados adicionais que o governo Obama concordou em posicionar para ajudar a reverter o curso da guerra afegã.

O afluxo promete mudar significativamente o ambiente no sul do Afeganistão, o local de nascimento do Taleban. A região agora produz cerca de 90% do ópio do mundo, que financia o Taleban.

Apesar da coalizão liderada pelos americanos manter as cidades e estradas, aparentemente ela cedeu grande parte do interior ao Taleban, por carecer de forças suficientes para enfrentá-lo.

Uma força de cerca de 20 mil soldados americanos, britânicos, canadenses e holandeses tenta há anos promover a segurança nos mais de 200 mil quilômetros quadrados de aldeias, cidades, montanhas e desertos que compõem o sul do Afeganistão. A região é um dos dois centros da insurreição do Taleban, que ressurgiu de forma notável desde que foi derrubado do poder em novembro de 2001.

O outro centro fica nas montanhas do leste, onde 17 mil soldados americanos estão enfrentando um inimigo multifacetado, que inclui a Al Qaeda. Seu centro operacional fica baseado nas áreas tribais do Paquistão.

Aqui no sul do Afeganistão, a insurreição é cultivada localmente e se autossustenta. A aldeia natal do líder do Taleban, o mulá Mohammad Omar, fica a 48 quilômetros daqui. Os campos de papoula, no momento sem cultivo por ser inverno, pontilham o interior aqui e na província vizinha de Helmand. A ONU estima que o comércio de ópio fornece ao Taleban cerca de US$ 300 milhões por ano.

Os comandantes americanos dizem que as fronteiras abertas permitem que o ópio entre desimpedido no Paquistão e outros lugares, e que armas e outros suprimentos entrem no Afeganistão. Cinco das seis rotas mais movimentadas de infiltração do Taleban ficam no sul, disseram oficiais americanos.

"As drogas saem, as armas entram", disse um oficial americano.

Os comandantes daqui chamam a situação atual de "impasse", o que significa que podem manter as áreas em que já estão, mas não podem fazer mais além disso. Dos 20 mil soldados britânicos, americanos e outros aqui, apenas aproximadamente 300 -um grupo de fuzileiros reais britânicos- podem ser deslocados para a região para atacar o Taleban. Todas as outras unidades devem permanecer no lugar, para não perderem o controle da área onde estão.

Talvez seja em Kandahar, uma das capitais provinciais, onde a falta de tropas seja mais evidente. Cerca de 3 mil soldados canadenses têm a missão de proteger a cidade, lar de cerca de 500 mil pessoas. Em uma visita recente, este repórter percorreu a cidade por cinco dias e não viu nenhum soldado canadense nas ruas.

A falta de soldados permitiu ao Taleban realizar ataques significativos dentro da cidade. Os dois clérigos que se juntaram ao conselho consultor pró-governo, por exemplo, foram mortos nos últimos dois meses, elevando o total de membros do conselho assassinados para 24. Ao longo do verão, uma força do Taleban invadiu Kandahar e sua principal prisão, libertando mais de 1.200 presos, incluindo cerca de 350 de seus companheiros.

Mas se as tropas adicionais terão o impacto desejado não está claro. A adição de 20 mil novos soldados aos 20 mil soldados ocidentais que já estão aqui -além do número igual de policiais e militares afegãos- elevaria o total para 60 mil. As seis províncias que compõem o sul do Afeganistão têm uma população de 3,2 milhões. Neste caso, a proporção entre tropas e população atingiria a recomendada pelo manual de contrainsurreição do Exército dos Estados Unidos: 50 pessoas por soldado ou policial.

Os comandantes americanos dizem que as tropas adicionais lhes permitirão realizar uma campanha mais sofisticada contra os rebeldes; o principal objetivo, em vez de matar os combatentes do Taleban, é fornecer segurança para a população civil e isolar os rebeldes.

Mesmo assim, muitas das tropas ocidentais que já estão aqui não são posicionadas entre a população. E o Afeganistão, com sua população predominantemente rural vivendo principalmente em aldeias pequenas, apresenta desafios únicos.

Por grande parte do interior, o Taleban parece manter a vantagem; não necessariamente por ser popular, mas por não ter oposição. Hediatullah Hediat, por exemplo, é um empresário de Musa Qala, uma cidade na província de Helmand que foi ocupada pelo Taleban por grande parte de 2007, até que os rebeldes foram expulsos pelas tropas britânicas no final daquele ano. (Os britânicos contam com cerca de 8 mil soldados na província de Helmand.) Os britânicos, disse Hediat, controlam o centro de Musa Qala e nada mais.

"O Taleban está por toda parte", disse Hediat em uma entrevista em Kandahar, para onde veio a negócios. "Os talebans estão tão próximos da cidade que é possível vê-los da própria cidade. Os britânicos conseguem vê-los. Eles podem ver uns aos outros."

Hediat disse não ter grandes queixas contra os soldados britânicos que ocupavam a cidade -ele disse, por exemplo, que eles não realizam batidas nas casas e nem espiam as mulheres. Mas a maior queixa, ele disse, era o afegão que os britânicos colocaram como governador do distrito, Mullah Salam. O governador é impopular e corrupto, exigindo propina e tributos de qualquer um que precisa de algo.

"Este é o motivo para as pessoas odiarem os britânicos, porque colocaram Mullah Salam no poder e o mantêm ali", ele disse. "As pessoas apenas querem um governo que não seja corrupto".

Nas aldeias de tijolos de barro que margeiam o Rio Arghandab, conquistar as pessoas não é fácil. Os talebans estão aqui, nas aldeias; no início deste mês, um homem-bomba matou dois soldados americanos e nove afegãos no mercado de Maiwand. Mas o Taleban é em grande parte invisível.

Em uma recente patrulha a pé pela aldeia de Tsapowzai, a cerca de 48 quilômetros a oeste de Kandahar, um pelotão de soldados americanos se aventurou por seu interior e encontrou ruas vazias. Era um dia ensolarado. Dois afegãos olharam para eles de uma plantação de trigo e nenhum deles acenou. Ninguém saiu de casa para dizer oi.

"Onde estão todos, Jimmy?", perguntou o tenente Brian James para um companheiro.

"Não sei", respondeu o tenente James Holloway.

Finalmente, os soldados se depararam com três homens afegãos. Eles estavam sentados sobre um cobertor escutando música em um rádio. O que se seguiu parecia, mais do que qualquer outra coisa, um jogo.

"Então, vocês viram algum taleban ultimamente?", perguntou Holloway aos homens.

"Não vemos nenhum taleban há oito meses". Disse um homem chamado Niamatullah, olhando para cima.

"Você costuma ver alguém se movendo por aqui à noite?", perguntou Holloway.

"Nós não saímos à noite", disse Niamatullah, que, como muitos afegãos, tem apenas um nome. "Quando saímos, vocês nos revistam e nos retêm por horas. E nunca encontram nada".

Holloway balançou sua cabeça.

"A última pessoa que paramos nesta aldeia, nós mantivemos por 20 minutos", disse o tenente. "Nós nunca prendemos ninguém".

"Nós temos medo de vocês", disse Niamatullah.

"Há algum toque de recolher do Taleban?", perguntou Holloway.

"Apenas um homem com xale branco é autorizado a sair à noite", disse Niamatullah.

"Um xale branco?", olhou Holloway com olhos semicerrados.

Niamatullah não explicou.

"Mas ele não tem arma, então vocês não podem detê-lo".

Após vários minutos, Holloway desistiu. Seu pelotão prosseguiu pelas ruas enlameadas de Tsapowzai.

"Todo mundo sabe algo", disse Holloway enquanto se afastava andando. "Mas ninguém nos diz nada".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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