UOL Notícias Internacional
 

24/01/2009

Crianças fogem do Zimbábue para novas vidas desoladoras

The New York Times
Barry Bearak
Em Musina, África do Sul
Eles têm o olhar de moleques de rua, seus olhos à espreita de refugos úteis e seus corpos cobertos com roupas tão sujas quanto trapos de mecânicos.

Perto da meia-noite, estas crianças zimbabuanas podem ser encontradas dormindo na rua em quase toda parte desta cidade de fronteira. Uma menina de 12 anos chamada No Matter Hungwe, agachada sob a tranqüilizadora luz externa de uma agência do correio, disse que foi a fome que a fez cruzar a fronteira sozinha.

O pai dela está morto e ela queria ajudar sua mãe e irmãos mais novos ganhando o que pudesse aqui na África do Sul -dentro de certos limites. "Alguns homens -homens com carros- querem dormir comigo", ela disse, considerando os prós e os contras. "Eles me ofereceram 100 rands", cerca de US$ 10.

Com seu país em uma sequência prolongada de crises, mais crianças desacompanhadas e mulheres do que nunca se juntaram à corrida de zimbabuanos desesperados para cruzar ilegalmente a fronteira no Rio Limpopo, segundo a polícia, as autoridades locais e trabalhadores de ajuda humanitária.

Eles fogem de um país quebrado, onde metade da população passa fome, a maioria das escolas e hospitais está fechada ou funcionando mal e de uma epidemia de cólera que já matou milhares. Mas estão chegando em um lugar onde não são bem-vindos e são considerados rivais na disputa por empregos. No ano passado, os zimbabuanos estavam entre as vítimas de uma onda de ataques contra estrangeiros.

Para aqueles que sabem, cruzar a fronteira pode ser uma tarefa simples, um suborno pago de um lado e um segundo suborno pago no outro. Mas para os não iniciados e destituídos, a jornada é tão incerta quanto as subcorrentes do Limpopo e o apetite dos crocodilos.

Onde é o melhor lugar para entrar no rio? Onde se encontram os buracos nas cercas de arame farpado do outro lado? Onde os soldados fazem patrulha? Talvez o maior risco sejam os gumagumas -os trapaceiros, ladrões e estupradores que atacam os vulneráveis enquanto perambulam pela mata.

Williad Fire, 16 anos, que chegou aqui em 4 de janeiro, é um dos nove meninos que vieram de Murimuka, uma cidade na região de mineração no centro do Zimbábue. Sua história é uma típica de uma série de catástrofes. Ele morava com um tio após a morte de seus pais, mas então o tio também morreu, acometido em novembro de uma doença que Williad descreveu com um encolher de ombros enigmático: "Ele estava vomitando sangue".

O menino estava com fome e mendigar na África do Sul parecia mais promissor do que mendigar em casa. Para conseguir uma passagem de trem para o sul, ele vendeu seu bem mais valioso, um par usado de tênis Puma dois números acima do seu. Ele e oito amigos então realizaram diversos trabalhos em Beitbridge, no lado zimbabuano da fronteira, até terem economizado cerca de US$ 35.

Dali em diante, a história de Williad dá outra péssima guinada. Quando os meninos se aproximaram do rio, eles foram confrontados pelos gumagumas, que fingiram que os ajudariam, mas então atacaram. "Eles me atingiram na testa com uma pedra", disse Williad. "Eu estava carregando o dinheiro de todos, então era aquele a ser surrado."

Mas eles prosseguiram do outro lado do rio, e aqui em Musina, os meninos de Marimuka dormiram algum tempo nas ruas, como muitos outros jovens fazem. Então eles tomaram posse de um pedaço do solo arenoso sob o sol punidor no Showgrounds, uma arena esportiva aberta que serve como depósito de refugiados. A população paira por volta de 2 mil. Todo dia chegam novas pessoas e a cada dia rostos familiares partem.

O governo sul-africano emite documentos temporários de asilo para cerca de 250 desses refugiados por dia, lhes concedendo seis meses sem se preocuparem com a deportação. Menores desacompanhados não têm direito ao status, o que os deixa em um limbo estranho, sem um local específico no emaranhado diplomático.

Williad e seus amigos compartilham um único cobertor. Eles cozinham espaguete sobre uma fogueira alimentada por gravetos e papelão. Latas e baldes encontrados no lixo são usados como panelas. Garrafas plásticas cortadas servem como tigelas.

Honest Mapiriyawo, um órfão de 13 anos, é o melhor pedinte entre os meninos. As crianças competem nos supermercados para carregar as compras dos clientes em troca de gorjetas. Honest é minúsculo e cativante. As pessoas se sentem atraídas por sua dicção impecável. "Posso ajudá-lo?" é sua frase preferida.

Outro dos meninos de Marimuka é Diallo Butau, 15 anos. Ele disse que seu pai está morto e sua mãe teve tuberculose. Ele carrega a culpa de tê-la abandonado. "Se eu conseguisse alguns remédios, algumas pílulas, eu voltaria para curá-la", ele disse.

Georgina Matsaung dirige um abrigo para crianças da Igreja Reformada Unida. "Às vezes encontramos meninos dormindo em valas e sob pontes, mas não encontramos meninas", ela disse com um balançar pesaroso de cabeça. "As meninas são rapidamente levadas por homens que as transformam em mulheres."

A área de Musina tem uma população de cerca de 57 mil habitantes, com 15 mil estrangeiros adicionais, a maioria zimbabuanos, segundo Abram Luruli, o gestor municipal. "Muitas crianças estão espalhadas pelas ruas", ele reconheceu, apesar de ser algo claro para qualquer um ver. À noite, elas podem ser encontradas dormindo sob plásticos no acostamento da estrada, algumas delas drogadas pelo éter inalado de um frasco de cola.

Apesar das histórias de crianças refugiadas serem perturbadoras -com a penúria no Zimbábue trocada pela penúria daqui- muitas das histórias mais horríveis na cidade envolvem os estupros de mulheres indefesas.

Letícia Shindi, uma viúva de 39 anos da aldeia de Madamombe, disse que deixou o Zimbábue em 4 de janeiro, na esperança de conseguir trabalho para que pudesse enviar dinheiro de volta para suas duas filhas. Ela nunca tinha atravessado o rio antes, e ao ver a corrente lamacenta, ela foi tomada pelo medo.

Dois homens jovens estavam se preparando para ajudar a travessia de outros, e ela agradecidamente se juntou a eles. Os guias usaram varas para medir a profundidade enquanto os demais aguardavam cautelosamente de mãos dadas enquanto se moviam em meio à água até os ombros.

Assim que atravessaram, os dois homens roubaram todos. Como Shindi não tinha dinheiro suficiente, o pagamento foi cobrado de outra forma. "Tire sua calcinha", ela se recordou de um gumaguma ter dito. "Hoje serei seu marido."

Chengetai Mapfuri, 29 anos, deixou os arredores de Harare, a capital do Zimbábue, logo após o Natal, carregando seu filho de 20 meses, Willington. Dois gumagumas empunhando facas se revezaram em seu estupro, ela disse, com um segurando o menino e outro ela.

Aldah Mawuka, 17 anos, também é dos subúrbios de Harare. Ela disse que os primeiros gumagumas que encontrou em 7 de janeiro apenas a roubaram; foram os segundos que exigiram que ela baixasse seus jeans. O estuprador foi bem direto e impaciente, ela lembrou: "Se não fizer isso, eu mato você".

A força policial nacional da África do Sul está irritada com os crimes. O capitão Sydney Ringane, sentado em seu escritório em Musina, disse que a mata ao redor dificulta demais pegar os gumagumas. De qualquer forma, a maioria das vítimas não presta queixa. Afinal, elas estão aqui ilegalmente, a menos que permaneçam no Showgrounds. "Na semana passada, eu tinha 1.500 prontos para deportação", ele disse.

O capitão se levantou e caminhou até uma tela de computador. "Nós mantemos fotos dos refugiados mortos perto da fronteira."

Ele apertou uma tecla e clicou com o mouse. "Esta mulher foi estuprada antes de ser morta", ele disse. "Ela estava sem calcinha. Ela foi identificada para nós por alguns meninos de rua."

A menção das crianças pareceu alimentar sua irritação. "Meninos de rua, mais a todo momento", ele disse. "Eles chegam aqui como se estivessem jogando um jogo."

Ele perguntou: "O que fazer a respeito dessas crianças?"

Tradução: George El Khouri Andolfato

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