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26/01/2009

Fabricação de medicamentos no exterior preocupa os EUA

The New York Times
Gardiner Harris
Em Washington
Em 2004, quando a companhia Bristol-Myers Squibb anunciou que fecharia sua fábrica em East Syracuse, Nova York - a última fábrica dos Estados Unidos que produzia os ingredientes-chave para antibióticos essenciais como a penicilina -, poucas pessoas se preocuparam com as consequências para a segurança nacional. "O foco na época era principalmente a perda de empregos em Syracuse", disse Rebecca Goldsmith, porta-voz da companhia.

Mas os especialistas e legisladores estão cada vez mais preocupados com o fato de que o país depende demais dos remédios do estrangeiro, e estão pedindo a criação de uma lei para exigir que certos medicamentos sejam produzidos ou estocados nos Estados Unidos.

"A falta de regulamentação quanto ao fornecimento externo é um ponto cego que abre espaço para problemas de fornecimento, medicamentos fraudados e até bioterrorismo", disse o senador Sherrod Brown, democrata de Ohio, que liderou as audiências sobre o assunto.

Décadas atrás, a maioria dos remédios consumidos nos Estados Unidos era fabricada no país. Mas assim como outras fábricas, as de medicamentos também migraram para a Ásia porque o trabalho, a construção, os custos regulatórios e ambientais são mais baratos lá.

Os principais ingredientes da maioria dos antibióticos são feitos quase que exclusivamente na China e na Índia. O mesmo vale para dezenas de outros medicamentos essenciais, incluindo o popular remédio para alergia prednisona; a metaformina, para diabetes; e a amlodipina, para pressão alta.

Das 1.154 indústrias farmacêuticas mencionadas nos registros de medicamentos do Food and Drug Administration [órgão regulador de medicamentos e alimentos dos EUA] em 2007, apenas 13% estavam nos Estados Unidos, enquanto 40% estavam na China, e 39% na Índia.

Alguns desses medicamentos são essenciais para salvar vidas, e o sistema de saúde dos Estados Unidos depende deles. Metade dos americanos toma algum remédio prescrito todos os dias.

A penicilina, composto fundamental para duas classes de antibióticos, conta a história da mudança do setor farmacêutico. A produção em escala industrial da penicilina foi desenvolvida por um grupo de pesquisas militares dos EUA durante a 2ª Guerra Mundial, e quase todos os grandes fabricantes de medicamentos tinham fábricas espalhadas por todo o país.

Mas no começo dos anos 80, o governo chinês investiu grandes somas de dinheiro em fermentadores de penicilina, "desequilibrando os preços em todo o mundo e forçando a maioria dos produtores ocidentais a sair do mercado", disse Enrico Polastro, belga especialista em antibióticos que é consultor do setor farmacêutico.

Um dos motivos que levou essas fábricas a migrarem para o exterior é que o FDA inspeciona as fábricas nacionais muito mais do que as estrangeiras, tornando a produção mais cara nos Estados Unidos.

"As companhias dos EUA são mais regulamentadas e estão sob uma supervisão maior do que os produtores estrangeiros, particularmente os dos países emergentes. E isso é totalmente o contrário do que deveria ser", disse Joe Acker, presidente da Associação dos Produtores de Químicos Orgânicos Sintéticos. "Precisamos de um campo nivelado para jogar".

Depois dos ataques de anthrax em 2001, o governo Bush gastou mais de US$ 50 bilhões para proteger o país do bioterrorismo e de pandemias de gripe; parte desse dinheiro foi destinado a aumentar a capacidade de produção doméstica de vacinas contra a gripe.

Mesmo assim, autoridades disseram que durante uma pandemia os Estados Unidos não poderiam depender das vacinas feitas principalmente na Europa por causa de um possível fechamento das fronteiras e falta de fornecimento. E a situação é similar com antibióticos como a penicilina; os pesquisadores descobriram que durante a pandemia de gripe de 1918, a maioria das vítimas morreu de infecções bacterianas, e não virais.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças tem um estoque de medicamentos com antibióticos suficientes para tratar 40 milhões de pessoas. Se mais do que isso for necessário, entretanto, o país não tem as fábricas para produzir. Levaria anos para desenvolver um fermentador de penicilina a partir do zero, disse Polastro.

O Dr. Yusuf K. Hamied, presidente do Cipla, um dos mais importantes fornecedores de ingredientes farmacêuticos do mundo, disse que sua companhia e outras estão cada vez mais dependentes dos fornecedores chineses. "Se amanhã a China parar de fornecer ingredientes farmacêuticos, a indústria farmacêutica mundial entrará em colapso", disse.

Uma vez que as indústrias farmacêuticas quase sempre vêem suas cadeias de fornecimento como segredos do setor, pode ser difícil ou impossível encontrar a verdadeira fonte dos ingredientes de um medicamento. O FDA tem uma lista pública de fornecedores de medicamentos, chamada de arquivo mestre dos remédios. Mas a lista não está nem atualizada nem é totalmente confiável, porque os fabricantes não são obrigados a abrir informações sobre seus fornecedores.

Uma base de dados federal lista quase 3 mil indústrias farmacêuticas estrangeiras que exportam para os Estados Unidos; outra lista tem 6.800 indústrias. Ninguém sabe se isso está correto.

As marcas de medicamentos normalmente alegam que os remédios são feitos nos Estados Unidos, mas as fábricas listadas são normalmente lugares onde os pós de medicamentos feitos no exterior são transformados em comprimidos e embalados.

"As companhias farmacêuticas não gostam de revelar onde ficam seus fornecedores", por medo de que competidores roubem suas fontes, disse Polastro.

A posição da China enquanto principal fornecedor de medicamentos é o resultado de uma política do governo, disse Guy Villax, diretor executivo da Hovione, fabricante de ingredientes essenciais, com fábricas em Portugal e na China.

O governo de Xangai prometeu pagar à indústria farmacêutica local cerca de US$ 15 mil por qualquer aprovação de medicamentos que conseguirem do FDA e cerca de US$ 5 mil pela aprovação dos órgãos reguladores europeus, de acordo com um documento fornecido por Villax.

"Isso mostra que há um plano do governo da China para se tornar líder da indústria farmacêutica", disse Villax.

A crescente dependência dos fornecedores de medicamentos chineses se tornou aparente no caso da heparina. Há um ano, a Baxter Internacional e a APP Pharmaceuticals dividiam o mercado doméstico de heparina, um anticoagulante necessário nas cirurgias e diálise.

Quando os órgãos reguladores federais descobriram que o produto da Baxter havia sido contaminado por fornecedores chineses, o FDA baniu o produto da Baxter e voltou-se quase que exclusivamente para o produzido pela APP. Mas a APP também recebia seu produto da China.

Então por enquanto, a contragosto dos EUA, a China tem a vantagem no jogo. Como diz Polastro, "se a China em algum momento ficar muito irritada com o presidente Obama, isso pode ser um grande problema".

Tradução: Eloise De Vylder

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