UOL Notícias Internacional
 

27/01/2009

Aldeões do Oeste da África apostam sua sorte no preço do arroz

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Ronkh (Senegal)
Ndeye Sarr Diop dificilmente pareceria uma pessoa envolvida no mercado mundial de commodities. Resplandecente em um bou bou esvoaçante marrom e roxo e carregando uma bolsa delicada, ela olhava para o campo alagado de sua plantação de arroz. Ela investiu tudo o que tinha e, além disso, tomou um empréstimo de centenas de dólares.

"Eu espero que o arroz me deixe rica", ela disse, passando a mão nos caules verdes e passando o dedo nos grãos.

Esperando tirar proveito da alta dos preços globais dos alimentos que deixou muitos países pobres à beira do caos no ano passado, agricultores do Oeste da África estão colhendo o que os especialistas consideram uma das melhores safras em recente memória.

  • Michael Kamber/The New York Times

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Mas após o investimento e endividamento imenso para expandir sua produção, esses agricultores correm o risco de terem um grande prejuízo devido à queda dos preços dos alimentos.

O preço do arroz não processado aqui no Senegal vem caindo constantemente de seu pico no início do ano passado, de mais de US$ 30 por uma saca de 50 quilos. A queda não foi tão drástica quanto a experimentada pelos mercados de trigo e milho por todo o mundo. Mas o preço do arroz precisa ser de pelo menos US$ 20 para que os agricultores daqui tenham lucro, e à medida que a colheita se aproximava no final do ano passado, o preço da saca pairava em US$ 22.

"Eu estou preocupada", disse Diop, uma agricultora e comerciante de 57 anos. "Eu posso dobrar meu dinheiro. Ou posso perder tudo."

Os produtores rurais e consumidores africanos frequentemente se veem presos na extremidade mais difícil da globalização, e quando os preços dos alimentos subiram em 2008, os países pobres africanos com economias liberalizadas sofreram enormemente.

Em países como o Senegal, que, com uma população de 13 milhões, consome cerca de 600 mil toneladas de arroz por ano, as importações baratas de itens como arroz e trigo de produtores asiáticos, que são muito mais eficientes e frequentemente subsidiados pelo governo, costumam inundar os mercados locais. O arroz importado acaba tirando do mercado o arroz mais caro de produção local.

Assim, quando os preços subiram no ano passado e muitos países suspenderam ou reduziram a exportação em meio ao pânico global em torno da oferta de alimentos, este país virtualmente não possuía oferta local para substituí-la.

À medida que a crise se espalhou, estouraram protestos devido aos altos preços nos países pobres por todo o mundo. No Haiti, a raiva foi tamanha que o primeiro-ministro foi forçado a renunciar. Aqui no Senegal, manifestantes enfurecidos tomaram as ruas, exigindo saber o que o governo faria para reduzir os preços.

O presidente Abdoulaye Wade anunciou rapidamente planos para aumentar a produção agrícola, oferecendo sementes, fertilizante e equipamentos subsidiados, com base na teoria de que a autossuficiência era uma questão de segurança nacional.

Mas a crise também apresentou uma oportunidade para milhões de agricultores por toda a África: os altos preços finalmente poderiam tornar sua produção competitiva.

Aqui no Senegal, os agricultores se voltaram para o há muito negligenciado vale do Rio Senegal, que serpenteia ao longo da fronteira norte do país com a Mauritânia. Um projeto do governo dos anos 70 construiu canais de irrigação que tornam mais de 240 mil hectares de terra prontos para a produção de arroz, mas os agricultores eram pobres demais para compra dos materiais necessários para cultivar a terra em grande escala. O projeto foi praticamente abandonado.

Todavia, o sonho de criar uma cesta de arroz aqui nunca realmente morreu. A área tem o potencial de satisfazer não apenas os mercados locais, mas também os dos países vizinhos, além de fornecer empregos para o vasto exército de jovens desempregados com poucas perspectivas além de sonhar em emigrar para a Europa.

O arroz é um item básico da dieta senegalesa - o prato nacional, o thieboudienne, consiste de peixe e grãos quebrados de arroz cozidos em um molho de tomate espesso e picante.

Mas o preço de produzir arroz localmente o torna mais caro do que o importado, e em consequência, os produtores rurais senegaleses produzem em média apenas aproximadamente 80 mil toneladas de arroz por ano, e frequentemente têm dificuldade para vendê-lo, segundo especialistas daqui.

"Simplesmente não vale a pena plantar arroz", disse Arona Diakhate, diretor técnico de uma fábrica de processamento de arroz daqui. "Por que cultivar algo que não dá para vender? Não faz sentido."

Quando a crise global elevou os preços, a equação mudou.

Ibrahima Ly, o secretário-geral da Pinord, uma organização local apoiada pela caridade britânica Oxfam que ajuda os agricultores a ter acesso a crédito e mercados para suas plantações, diz que apenas 28 mil hectares estão sendo cultivados. Bem mais de 200 mil hectares poderiam ser plantados nesta região, ele disse, produzindo mais que o suficiente para alimentar todo o país e além.

"Nós temos água doce do rio; nós temos calor, que o arroz gosta; nós temos pessoas que precisam de emprego e sabem cultivar arroz", ele disse. "A natureza dá estas coisas, mas é preciso saber administrar, é preciso assegurar a existência de um mercado para este arroz."

É ótimo que os produtores locais estejam finalmente ampliando a produção, ele disse, mas o investimento deles está cada vez mais frágil.

"Nós não temos nenhum controle do mercado", ele disse. "Há uma alta volatilidade e isso torna muito difícil proteger o investimento deles."

Se os agricultores perderem muito dinheiro neste ano, eles dificilmente correrão o risco de plantar de novo, disse Ly, o que poderia ser catastrófico.

Em um relatório divulgado em novembro, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação alertou que os preços baixos desta estação poderiam criar uma repetição ainda pior da crise do ano passado, ao desencorajar os agricultores a produzirem.

"Se os preços permanecerem deprimidos em 2008-2009 e a plantação para o próximo ano for afetada", disse o relatório, "uma alta de preço semelhante, talvez até mais pronunciada, poderá ocorrer em 2009-2010, provocando uma crise de alimentos ainda mais severa do que a experimentada na atual temporada".

Esta é a incógnita para produtores como Mame Bassine Gaye. Uma comerciante que lida com o cultivo de arroz, ela tem dificuldade para obter lucro. Neste ano, entretanto, ela apostou tudo, tomando um empréstimo de mais de US$ 1 mil junto à cooperativa local de crédito e parentes para expandir sua produção.

Gaye inspecionava seus 100 hectares na aldeia de Ronkh, à medida que o ano se aproximava do fim e a colheita estava prestes a começar. Foi uma boa estação para grande parte do Oeste da África e ela espera uma ótima safra.

"Se der certo, me darei muito bem", ela disse. "Mas se der errado, minha perda será imensa. Eu estou preocupada por causa das minhas dívidas. Se você não paga, eles deixam você sem crédito. Eu poderia perder tudo."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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