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27/01/2009

Krugman: economia da má-fé

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Enquanto avança o debate sobre o plano de estímulo econômico do presidente Barack Obama, uma coisa é certa: muitos adversários do plano não estão argumentando de boa-fé. Os conservadores realmente, realmente, não querem ver um segundo New Deal, e certamente não querem ver o ativismo do governo justificado. Por isso eles procuram qualquer coisa que possam encontrar para atacar as propostas de aumento de gastos do governo.

Alguns desses argumentos são evidentes golpes baixos. John Boehner, o líder da minoria na Câmara, já ganhou manchetes com um desses: olhando para um plano de US$ 800 bilhões para reconstruir a infra-estrutura, sustentar serviços essenciais e mais, ele criticou um dispositivo menor que expandiria os serviços de planejamento familiar da Medicaid - e disse que era um plano para "gastar centenas de milhões de dólares em anticoncepcionais".

Mas os golpes baratos óbvios não representam tanto perigo para os esforços do governo Obama para aprovar um plano quanto os argumentos e afirmações que são legalmente fraudulentos mas podem parecer superficialmente plausíveis para os que não entendem muito de conceitos econômicos e números. Quanto ao serviço público, deixe-me tentar desbancar alguns dos principais argumentos contra o estímulo que já vieram à tona. A qualquer momento em que você ouvir alguém recitando um desses argumentos, repudie-o como uma balela desonesta.

Primeiro, há o boato de que o plano de Obama vai custar US$ 275 mil por emprego criado. Por que é boato? Porque isso significa pegar o custo de um plano que vai durar vários anos, criando milhões de empregos por ano, e dividi-lo pelos empregos criados em apenas um desses anos.

É como se um adversário do programa de almoço nas escolas pegasse uma estimativa do custo desse programa para os próximos cinco anos e a dividisse pelo número de almoços fornecidos em apenas um ano, e afirmasse que o programa é um terrível desperdício porque custa US$ 13 por almoço. (O custo real de um almoço grátis na escola, aliás, é de US$ 2,57.)

O custo verdadeiro por emprego do plano de Obama provavelmente ficará mais próximo de US$ 100 mil do que US$ 275 mil - e o custo líquido será de apenas US$ 60 mil quando se leva em conta o fato de que uma economia mais forte significa maior receita fiscal.

Depois, descarte qualquer um que afirmar que é sempre melhor cortar impostos do que aumentar os gastos do governo, porque os contribuintes, e não os burocratas, são os melhores juízes de como se deve gastar seu dinheiro.

Veja como pensar sobre esse argumento: ele implica que deveríamos fechar o sistema de controle de tráfego aéreo. Afinal, esse sistema é pago pelas taxas cobradas sobre as passagens aéreas - e certamente seria melhor deixar o público voador guardar seu dinheiro em vez de entregá-lo para burocratas do governo. Se isso significaria muitas colisões em pleno voo, bem, coisas acontecem.

A questão é que ninguém realmente acredita que um dólar de corte fiscal é sempre melhor que um dólar de gasto público. Enquanto isso, está claro que quando se trata de estímulo econômico o gasto público rende muito mais que cortes de impostos - e portanto custa menos por emprego criado (ver o argumento fraudulento anterior) - porque uma grande fração de qualquer corte fiscal simplesmente será poupada.

Isso sugere que o gasto público em vez do corte fiscal deve ser o centro de qualquer plano de estímulo. Mas, em vez de aceitar essa implicação, os conservadores se refugiam em um argumento absurdo contra os gastos públicos em geral.

Finalmente, ignore qualquer um que tentar defender o fato de que, no passado, o principal assessor econômico do novo governo favoreceu a política monetária mais que a política fiscal em resposta a recessões.

É verdade que a reação normal às recessões são os cortes de juros do Fed, e não mais gastos do governo. E essa poderia ser a melhor opção agora, se estivesse disponível. Mas não está, porque estamos em uma situação que não é vista desde a década de 1930: as taxas de juros que o Fed controla já estão efetivamente em zero.

É por isso que falamos sobre estímulo fiscal em grande escala: é o que resta no arsenal de políticas agora que o Fed já atirou suas flechas. Qualquer pessoa que citar antigos argumentos contra estímulo fiscal sem mencionar isso, ou não sabe muito sobre o assunto - e portanto não deveria se meter no debate - ou está sendo deliberadamente obtuso.

Estes são apenas alguns dos argumentos antiestímulo fundamentalmente fraudulentos que há por aí. Basicamente, os conservadores estão apresentando qualquer objeção que possam inventar contra o plano de Obama, esperando que alguma coisa cole.

Mas essa é a questão: a maioria dos americanos não está escutando. A coisa mais animadora que ouvi ultimamente é a resposta que Obama teria dado às objeções republicanas a um plano econômico voltado para gastos: "Eu ganhei". É verdade - e ele deve desconsiderar os resmungos e bufos dos que perderam.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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