UOL Notícias Internacional
 

27/01/2009

Skate fornece diversão no Afeganistão

The New York Times
Adam B. Ellick
Em Cabul (Afeganistão)
Parecia um parque comum de bairro: seis crianças caindo de seus skates ao som de risadas. Contudo, não faz muito tempo, a apenas 20 metros de distância, jazia o corpo de um suicida ao lado de uma poça brilhante de sangue.

As crianças afegãs aprendem a se recuperar quase instantaneamente dessa violência rotineira. Uma pessoa determinada a injetar algo normal em suas vidas é Oliver Percovich, 34, de Melbourne, Austrália.

Ele planeja abrir a primeira escola de skate do país, Skateistan, na próxima primavera. Ele vê o esporte como uma forma de estimular os alunos a participarem de atividades extracurriculares, como inglês e computação, de outra forma reservadas para a elite.

  • Tyler Hicks/The New York Times

    Jovens afegãos andam de skate em Cabul, no Afeganistão

"Os adolescentes estão tentando se dissociar da mentalidade antiga, e eu trabalho para eles", diz Percovich. "Se não estivessem interessados, eu teria partido há muito tempo."

Atualmente, quando ele chega de motocicleta em um certo bairro residencial, uma dúzia de jovens pulam a sua volta, antes mesmo de estacionar, e arrancam seis skates velhos com pintura desgastada de suas costas. As crianças, cuja maior parte está praticando um esporte pela primeira vez em suas vidas dificultadas pela guerra, não querem perder tempo.

O parque de skate é uma fonte de concreto decrépita, ao estilo soviético, com profundas fissuras. A confusão das crianças lembra mais um bate-bate do X-Games.

Entretanto, Percovich levantou a verba necessária para construir uma bolha de 800 metros quadrados para abrigar um complexo sem fins lucrativos chamado Skateistan. A Autoridade de Parques de Cabul doou um terreno para o projeto. Ele ainda está esperando a permissão oficial para começar a construção. Devido a um surto de sequestros e da explosão de um carro no final de novembro, ele reduziu suas sessões diárias na fonte para uma ou duas vezes por semana.

Entre os que aguardam ansiosamente as suas visitas está Maro, uma menina travessa de nove anos que a princípio morria de medo do skate.

"Me dá coragem e, quando começo, esqueço completamente os meus medos", disse ela. Todas as crianças falaram por meio de um intérprete.

A camisa de Mickey Mouse de Maro indicava sua origem de classe média. Ela se destacava entre as crianças de rua com roupas sujas que compartilhavam o espaço. Como o esporte é tão novo e incomum aqui, talvez ajude a sanar as profundas divisões étnicas e sociais do país, disse Percovich.

Para Hadisa, uma menina de dez anos de uma família conservadora, o skate não foi bem aceito. Ela disse que seus dois irmãos mais velhos bateram nela com arame por andar de skate com crianças pobres em setembro. Vários amigos disseram ter visto sangue saindo da perna da menina.

"Não fiquei chateada por meus irmãos me baterem", sussurrou Hadisa recentemente, num dia em que não praticou porque seu irmão mais velho estava ali perto. "Eles têm o direito".

Algumas garotas, contudo, não podem andar de skate por muito tempo porque, quando as meninas afegãs atingem a puberdade, elas devem usar véu e não podem mais se associar com homens de fora da família. Percovich disse que seu parque fechado pode ser parte da solução, com meninos e meninas em aulas separadas.

"Se minha família não me deixar andar skate quando eu crescer, e me disser que preciso ficar em casa, terei que respeitar a minha família", disse Maro. "E não vou poder andar de skate".

O avô de Maro, Abdul Hai Muram, comentarista político aposentado, passava a mão em seu rabo-de-cavalo enquanto pensava em seu futuro. Ele disse que queria que ela pudesse brincar fora de casa quando tivesse 15 anos, mas preocupava-se com a reação da sociedade.

"As famílias ainda são cuidadosas e temerosas de deixar suas filhas do lado de fora", disse Muram, 65. "Temos o direito de ser muito estritos e temerosos, porque as consequências negativas do tempo do Taleban ainda estão por aí, e os homens fazem o que querem com as mulheres."

Ele acrescentou: "Talvez sejam necessários dez anos para que as coisas tornem-se normais para as mulheres".

O mais excitado com a pista de skate parece ser Mirwais, um menino de 16 anos que sabe fazer um "Ollie", manobra aérea que é a fundação para movimentos mais avançados. Mirwais, que deixou a escola depois do segundo ano, viu pela primeira vez as sessões de skate de um estacionamento ao lado, onde ele lavava carros US$ 4 (em torno de R$ 8) por dia para ajudar a sustentar sua família de oito pessoas. Percovich disse que Mirwais cheirava cola frequentemente.

Agora, Mirwais parece mais arrumado e ganha US$ 8 por dia trabalhando para o projeto do Skateistan, consertando pranchas, fazendo serviços e ajudando nas sessões informais de skate. "Quero melhorar o máximo possível e continuar a sustentar minha família com o skate", disse ele. "É o meu futuro".

Ainda assim, muito jovens de classe média e alta reclamam que Mirwais os ridiculariza usando linguagem chula, evidência do desafio para se misturar classes sociais e grupos étnicos aqui.

Percovich, entretanto está determinado a superar os obstáculos. Ele chegou aqui meio impulsivamente, no início de 2007, porque sua namorada na época tinha começado a trabalhar em Cabul. Ele deixou sua padaria, enfiou umas roupas - e seus skates - em uma mala e deixou a Austrália.

Incapaz de encontrar trabalho, Percovich fez aquilo que fazia desde os seis anos. Andou de skate, sem se deixar deter por comboios militares, charretes, burros, uma poeira sufocante e ocasionais explosões.

"Toda vez que eu aparecia, as crianças se reuniam a minha volta e perguntavam: 'O que é isso?'", disse ele, referindo-se ao seu skate. "Elas pediam para dar uma volta, e eu compreendi rapidamente que é uma forma excelente de interagir com os jovens."

O Afeganistão tem a maior proporção de crianças em idade escolar do mundo, uma em cada cinco, de acordo com a ONU. Para a ampla maioria dos 7 milhões de jovens, os esportes são virtualmente inexistentes.

A maior parte das escolas públicas, que tem dificuldades de fornecer materiais básicos como cadeiras, não tem playground. Os meninos jogam futebol ou vôlei em campos de terra. Os esportes são uma vaga lembrança para a maior parte das meninas, que são desestimuladas a frequentar ambientes públicos.

Cerca de 20 embaixadas e organizações não-governamentais rejeitaram a proposta de financiamento de Percovich para a escola de skate. Depois de romper com a namorada, ele tinha apenas US$ 1.500 e tinha excedido o limite de seu cartão de crédito para pagar o aluguel, disse ele.

"Estava batendo com a cabeça na parede, dizendo: 'O que eu vou fazer sem dinheiro?' De tarde, contudo estava rindo de skate, com as crianças correndo a minha volta dizendo: 'Oli, Oli, Oli.'"

Até seus sucessos foram, de certa forma, frustrantes. Em março último, uma loja australiana doou 30 skates - incluindo sapatos e proteções - mas Percovich não pode pagar os US$ 5.000 (em torno de R$ 10.000) de transporte. O equipamento continua em Melbourne.

O alívio para Percovich veio em outubro, quando os governos canadense, norueguês e alemão ofereceram US$ 120.000 (cerca de R$ 240.000). A Autoridade de Parques de Cabul escolheu um local em uma área pobre da cidade, a aproximadamente 12 km da fonte.

Andreas Schuetzenberger, cuja empresa alemã IOU Ramps construiu 1.300 rampas de skate em locais como Israel e Mongólia, planeja instalar as plataformas sem custo quando o Skateistan tiver construído.

Percovich também recrutou Titus Dittman, que doou uma tonelada de equipamentos de segunda mão neste mês. Em 1982, Dittman transformou um estacionamento em Muenster, Alemanha, em uma das pistas mais famosas de skate do mundo, a Monster Mastership, que desde então se tornou sede dos campeonatos mundiais da Federação Mundial de Skate.

Os objetivos do Skateistan são um pouco mais simples.

"As crianças do Afeganistão são iguais às de todo mundo", disse Percovich. "Simplesmente não tiveram as mesmas oportunidades. Elas precisam de um ambiente positivo para fazerem coisas positivas para o Afeganistão e para si mesmas."

Tradução: Deborah Weinberg

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