UOL Notícias Internacional
 

28/01/2009

A ficção de um escritor chileno pode incluir o seu próprio passado colorido

The New York Times
Larry Rohter
Poucos escritores são mais aclamados no momento do que o romancista chileno Roberto Bolano, que morreu em 2003, aos 50 anos de idade, de uma doença do fígado não especificada. O seu romance póstumo, "2666", apareceu em muitas listas de livros mais vendidos em 2008, e o interesse por ele e pelo seu trabalho tem sido estimulado ainda mais pela sua reputação crescente de marginal literário que levou uma vida difícil.

Mas a viúva de Bolano, da qual ele encontrava-se separado quando morreu, e Andrew Wylie, o agente norte-americano que ela contratou recentemente após ter se distanciado dos amigos e editores do escritor, estão agora contestando parte dessa imagem. Eles repelem a versão, originalmente sugerida pelo próprio Bolano, confirmada pelo seu tradutor norte-americano e mencionada em diversas críticas recentes e apaixonadas de "2666" nos Estados Unidos, de que ele tivesse padecido de "um vício em heroína", e negam ainda que a sua morte tenhas sido "provocada pelo uso da heroína" e até mesmo que Bolano tivesse "experimentado heroína".

Ao mesmo tempo, alguns dos amigos de Bolano no México, onde ele morou quase uma década antes de estabelecer-se perto de Barcelona, na Espanha, estão questionando um outro aspecto da história de vida que ele construiu para si próprio.

Eles afirmam que Bolano, que está emergindo rapidamente como o escritor latino-americano mais importante da sua geração, não estava no Chile durante o golpe militar que colocou o general Augusto Pinochet no poder, apesar de ele ter dito que encontrava-se no seu país natal.

No que diz respeito a Bolano e às drogas, vários críticos e blogueiros latino-americanos e europeus estão do lado da viúva, e acusam os críticos e editores norte-americanos de terem destorcido deliberadamente o passado do escritor para fazer com que ele se encaixasse na figura familiar do artista torturado. A vida e o trabalho de Bolano foram transformados em "um espetáculo trivial", escreveu Julio Ortega, um crítico e acadêmico peruano, no jornal espanhol "El País".

O foco da controvérsia em torno da heroína é uma narrativa de quatro páginas que apareceu em uma coletânea cujo título é traduzido como "Entre Parênteses", publicada no ano seguinte ao da morte de Bolano, mas que ainda não está disponível em inglês. O texto, chamado "Praia", consiste de uma única sentença longa, cujas palavras iniciais são, "Eu abandonei a heroína e voltei a minha cidade e dei início ao tratamento a base de metadona que me foi administrado na clínica...".

A página de título de "Entre Parênteses" descreve a obra como uma coletânea de "ensaios, artigos e discursos". Na introdução de Ignacio Echevarría, um crítico e editor espanhol que Bolano escolheu para ser o seu executor literário, explica que o livro deve ser visto como "um tipo de 'autobiografia fragmentada'" e "cartografia pessoal" de Bolano.

No entanto, em entrevistas distintas, Echevarría e Jorge Herralde, o editor de Bolano, disseram que a introdução e a página de título das futuras edições do livro em língua espanhola serão modificadas para incorporar indicações de que "Praia" é uma obra de ficção. Segundo eles a modificação também será feita na edição em língua inglesa, que a editora New Directions pretende lançar neste ano. "A situação gera confusão porque Bolano gostava de praticar truques e de criar mistérios", reconhece Herralde. "Mas ele pode ter simplesmente tentado montar uma armadilha para os seus futuros biógrafos".

"Praia" foi originalmente publicado pelo jornal de Madri, "El Mundo", em julho de 2000, como parte de uma série na qual pediu-se a 30 autores de língua espanhola que escrevessem a respeito do pior verão de suas vidas. O editor do suplemento literário do jornal, Manuel Llorente, diz que a maioria dos escritores respondeu com "narrativas que eram clara e inquestionavelmente autobiográficas", mas que ele jamais teve essa certeza quanto à contribuição de Bolano.

"Eu sabia que Bolano era um escritor que jogava com a realidade, que cultivava ambiguidades e falsas identidades, de forma que não me preocupei em determinar se a narrativa que ele submeteu era real ou inventada". Llorente disse em uma entrevista: "Para mim, a única coisa que importou foi o fato de que o texto tinha valor literário".

Wylie, que começou a lidar com o trabalho de Bolano no ano passado, disse em uma entrevista por telefone que a viúva do escritor, Carolina Lopez - que Bolano conheceu após mudar-se para a Espanha no final da década de 1970 - mencionou "en passant" para ele durante um jantar recente em Barcelona que considerava os relatos sobre o uso de heroína pelo seu marido como "imprecisos". Mesmo assim, ele recusou-se a discutir mais a questão, afirmando que não tem interesse pelo "trabalho de detetive literário".

Mas a investigação literária foi um dos temas favoritos de Bolaño. Tanto "2666" quanto "Os Detetives Selvagens", a sua obra anterior, que foi igualmente elogiada, falam de grupos de poetas e críticos que tentam descobrir a verdade a respeito de escritores que desapareceram da história ou que ocultaram-se por detrás de versões embaçadas dos seus passados.

Em entrevistas por telefone, amigos de Bolaño na Espanha e no México sugeriram que ele também abraçou a ambiguidade. "Ele criou o seu próprio mito", disse uma mulher com quem o escritor envolveu-se romanticamente à época da sua morte, mas que pediu que o seu nome não fosse publicado porque deseja preservar a sua privacidade. "Ninguém pode negar que ele fazia esse tipo de jogo, e ele teria sido o primeiro a admitir isso".

Segundo os relatos biográficos tradicionais, Bolano mudou-se para o México em 1968, mas voltou ao Chile no início da década de 1970 para apoiar o governo socialista do presidente Salvador Allende. Ele teria sido então preso durante o golpe que alçou Pinochet ao poder em 11 de setembro de 1973, tendo entretanto sido poupado de uma possível execução e libertado por dois guardas que eram colegas da escola de segundo grau e que o reconheceram.

Mas vários amigos mexicanos de Bolaño, alguns dos quais estavam no Chile durante os anos Allende, contam que o escritor encontrava-se no México na época em que disse que estava no Chile.

"Em meados da década de 1970, conversávamos muito sobre o Chile, e para mim ficou óbvio que Roberto não estivera lá, mas que estava deixando que as pessoas pensassem que estivera", diz Ricardo Pascoe, um sociólogo e diplomata mexicano cuja casa foi o local em que ocorreram algumas das festas e encontros literários que Bolano mais tarde descreveu em "Os Detetives Selvagens". "Ele me perguntava a respeito das coisas que qualquer pessoa que estivesse lá, e fosse de esquerda, teria sabido".

O pai de Bolano, Leon, um caminhoneiro e lutador de boxe, disse em uma entrevista por telefone do México que acredita que o seu filho estava no Chile, por lembrar-se de uma conversa na qual o jovem Bolano afirmou que "viajaria por terra" para visitar a tia no país. Embora não recorde-se exatamente da data da viagem, Leon Bolano, que tem 82 anos e encontra-se enfermo, disse que após o golpe obteve por meio do seu patrão garantias do governo mexicano no sentido de evacuar o seu filho através da Embaixada do México no Chile.

Pascoe foi um dos milhares de jovens latino-americanos que seguiram para o Chile depois que Allende foi eleito em 1970 para participarem da revolução que todos esperavam. Durante o derramamento de sangue que acompanhou o golpe de Pinochet, ele e várias centenas de outros fugitivos refugiaram-se na Embaixada do México em Santiago até que pudessem ser repatriados. Pascoe afirma que Bolano "sem dúvida não estava lá". Ele conta que certa vez perguntou diretamente a Bolano se ele estivera no Chile. "A resposta dele foi suficientemente vaga para que eu tivesse vontade de perguntar, 'Por que você não responde simplesmente sim ou não?'. Mas eu gostava dele e a nossa amizade não se baseava na política, de forma que não me importei. Mas para mim ficou claro que ele não estivera lá".

Os amigos mexicanos de Bolano dizem que ele simplesmente tinha vergonha de admitir que estava ausente daquela que até hoje é considerada experiência política definitiva da sua geração, que conferiu status e credibilidade aos que dela participaram. "Eu entendo por que ele mentiu. Foi porque ele tinha remorso por ter perdido tudo o que aconteceu, por não ter estado lá", afirma Carmen Boullosa, romancista, autora de peças de teatro e poeta que trocou correspondências com Bolano.

Rodrigo Fresan, um escritor argentino que mora em Barcelona, disse: "Será interessante ler a biografia de Roberto, e sou grato por ter sido apenas amigo dele, e não a pessoa que escreverá a sua biografia". Com um certo remorso, outros que conheceram Bolano apenas a partir do seu trabalho chegaram à mesma conclusão.

"É difícil acompanhar os jogos de um escritor que usa fatos e ficção", diz Marcela Valdes, uma das críticas norte-americanas que referiu-se ao uso de heroína nos seus ensaios sobre Bolano. "Quanto a isso, ele pode ter nos ludibriado".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host