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29/01/2009

Atenção, viciados em compras: sua fraqueza pode ser uma doença de fato

The New York Times
Alan Feuer
Primeiro foi o tapete de US$ 87 mil de John A. Thain. Depois foi o plano de um jato corporativo de US$ 50 milhões do Citigroup.

Nesta semana foi a vez do mundo da política se envolver, quando o inspetor-geral do Estado de Nova York divulgou um relatório dizendo que Antonia C. Novello, a ex-comissária de saúde do Estado, tinha uma tendência de consumo tão arraigada que fazia os funcionários de seu gabinete a acompanharem em expedições de compras na Macy's, Saks Fifth Avenue e três shoppings diferentes na área de Albany.

O consumo indevido certamente foi proeminente no noticiário recentemente, mas a questão também está na base de um debate bem mais contencioso em andamento. À medida que os consumidores continuam gastando enquanto a economia despenca, o mundo psiquiátrico está tentando decidir se o consumo compulsivo deve ser de fato considerado uma doença.

Pelo menos por ora, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais -que é conhecido pela sigla DSM (em inglês) e é uma espécie de bíblia dos males psicológicos- não lista tecnicamente a condição como uma doença. Apesar do "shopaholism" (ou compra compulsiva), como dizem os leigos, ter sido reconhecido pela comunidade psiquiátrica alemã como parte das desordens obsessivo-compulsivas, ela ainda aguarda seu dia nos Estados Unidos.

Segundo April L. Benson, autora de "I Shop, Therefore I Am: Compulsive Buying and the Search for Self", esse dia certamente chegará.

"No seu melhor aspecto, comprar é uma atividade que pode promover a definição de si mesmo, até mesmo uma cura", disse Benson em uma entrevista na tarde de terça-feira. "Mas como qualquer comportamento, ele pode sair de controle. Em casos extremos, não há dúvida de que é uma desordem. Ele pode ser perigoso como uma droga ou um vício em álcool. É de conhecimento que suicídios são cometidos por causa de dívidas."

Não há sugestão de que Novello ou Thain, que foi afastado após o Bank of America ter assumido o Merrill Lynch, o banco de investimento gigante que ele dirigia, sofram de alguma desordem.

Mas o inspetor-geral estadual escreveu que um dos subordinados de Novello disse que seu "gosto por compras era tão conhecido que os funcionários do gabinete lhe davam folhetos e cupons de vendas para encorajá-la a deixar o gabinete, para que não precisassem trabalhar até tarde."

O relatório, que também acusou Novello de uso indevido dos funcionários do Estado para outras tarefas pessoais, foi encaminhado ao procurador-geral de Albany County. O advogado de Novello, E. Stewart Jones, que não retornou um telefonema na terça-feira pedindo comentário, disse que ela não fez nada que mereça um processo criminal.

A primeira menção de compra compulsiva na literatura médica ocorreu no início dos anos 1900 por dois discípulos de Freud, Eugene Bleuler e Emil Kraepelin, que cunharam o termo oniomania -da raiz grega "onios", que significa à venda- em referência às pessoas obcecadas por fazer compras. Bleuler escreveu sobre os "maníacos por compras" para os quais até mesmo os gastos mais simples "são compulsivos e os levam a contrair dívidas de forma insensata". Ele sugeriu que a condição era semelhante à cleptomania, a descrevendo como uma forma de "insanidade impulsiva".

Um importante especialista do campo, o dr. Donald W. Black, um professor de psiquiatria da Universidade de Iowa, sugeriu que os compradores compulsivos tendiam a ser mulheres com parentes também predispostos a gastanças, que vivem em áreas com oferta abundante de bens e renda disponível para comprá-los. Ele acrescentou que os testes clínicos para tratamento da condição foram atrapalhados pela falta de verbas do governo.

Mas há pessoas que questionam se a oniomania deve, de fato, ser incluída no DSM, incluindo o dr. Jack Drescher, um psiquiatra de Manhattan e ex-presidente da divisão do Condado de Nova York da Associação Psiquiátrica Americana. Após ponderar que a condição pode não ter muito "efeito transcultural" ("Não há compradores compulsivos nos países pobres"), Drescher disse: "A questão é, há uma pressão pura de comportamento social que leva as pessoas às compras e nada mais?"

Para Ellen Mohr Catalano, uma treinadora de executivos e ex-guru de autoajuda, a questão crucial é o tratamento. Catalano, co-autora de "Consuming Passions: Help for Compulsive Shoppers", sugeriu pegar o vício de alguém em uma mão e "distanciá-lo de quem você realmente é".

"Você não diz a si mesmo que não pode fazê-lo, que não pode ter", ela alertou. "É preciso dar a si mesmo algum espaço."

Mas para a economia isso importa, disse Benson. Em tempos de vacas gordas, os consumidores compulsivos trabalham com fervor adicional para adquirir coisas por exibicionismo e status. Mas em tempos de vacas magras, sua culpa é uma mistura conflitante de vergonha (desemprego em massa) e tentação (ofertas e liquidações).

"É como dar fósforos a um piromaníaco", ela disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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