UOL Notícias Internacional
 

30/01/2009

Vida sexual de líder africano gera debate sobre privacidade

The New York Times
Barry Bearak
Em Johannesburgo (África do Sul)
A África do Sul é uma democracia jovem, e nesta semana a população do país debruça-se sobre uma questão relativa à liberdade de imprensa que é extremamente familiar para os norte-americanos: a vida sexual do presidente deve ser um assunto privado ou aberto à opinião pública?

Em 25 de janeiro último, sob o título "Todas as mulheres do presidente", o jornal "The Sunday Independent" descreveu em uma matéria uma situação escandalosa na qual duas mulheres disputam o afeto do presidente Kgalema Motlanthe - e nenhuma das duas é a mulher dele.

De acordo com o artigo, Motlanthe, 59, está rompido com a sua mulher, e encontra-se envolvido intimamente com uma colega política de 45 anos de idade, além de ser amante de uma terceira mulher, de 24 anos, "que acredita-se que esteja nos últimos estágios de gravidez do filho dele". O jornal perguntou: quem é a nossa primeira-dama?

O presidente recusou-se a tecer comentários ao ser procurado pelo "The Independent", e embora a reportagem tenha se baseado bastante em fontes anônimas - esse fantasma jornalístico -, ela trouxe uma curiosa negação por parte da mais jovem das três mulheres: "Não sou uma figura pública. Kgalema é uma figura pública. E eu não posso ser arrastada para essa história apenas porque algumas pessoas desejam saber com quem ele está namorando, ou o que - e quando - ele anda fazendo". E assim, sussurros apimentados transformaram-se em matérias apimentadas. A população e os analistas viram-se questionando: "Essa história é verdadeira? Se for, que diferença faz? As autoridades públicas têm direito a privacidade em questões profundamente pessoais?".

Os pontos de vista neste debate estão previsivelmente divididos, o que proporciona aos programas de rádio muito material sobre o qual falar, e faz com que seja fácil preencher as colunas de Cartas e Opiniões. Na quinta-feira (29/01), no "The Times", um outro jornal local, um leitor expressou-se de forma sucinta: "Trabalho privado: vida privada. Trabalho público: a vida NÃO é privada".

Carl Niehaus, porta-voz do partido político de Motlanthe, o Congresso Nacional Africano, acha que a história constitui-se em invasão de privacidade. Em um artigo de opinião publicado no "The Times", ele chega a suplicar às pessoas que deem uma trégua ao presidente: "Ele pode estar afastado da mulher, conforme a reportagem sugere, mas será que ele é o primeiro presidente do mundo a enfrentar tais desafios?".

Niehaus e muitos outros também fizeram as perguntas acessórias usuais relativas a casos de exposição de fatos referentes à vida sexual. De onde veio essa informação? Qual é a motivação da fonte? Quem está tentando se vingar de quem?

O episódio surge quando o partido enfrenta uma competição política de um grupo dissidente que se denomina Congresso do Povo. Será que esses descontentes do Congresso Nacional Africano poderiam ter vazado fofocas sobre os seus ex-camaradas? Ou tudo não poderia basear-se em traições dentro do próprio Congresso Nacional Africano?

O jornal especializado em economia "Business Day" publicou um artigo que dizia: "O Congresso Nacional Africano afirmou que as histórias sobre Motlanthe não passam de uma campanha de difamação política, e é provável que seja mesmo. Porém, não ficou claro que estaria por trás dessa campanha".

Na quarta-feira, em um artigo incomum, redigido na primeira pessoa, que o "The Star" publicou sob o título "O grande debate", Fiona Forde, a jornalista que escreveu a a matéria inicial, negou ser o instrumento de um vazamento malicioso. Ela disse que o seu trabalho envolveu métodos jornalísticos tradicionais, e que tudo começou com uma inocente curiosidade. "Nós sabemos muita coisa a respeito de Michelle Obama, Jackie Kennedy e Hillary Rodham Clinton", escreveu ela, acrescentando que a sua missão original era descobrir mais fatos a respeito da primeira-dama do próprio país.

Ela mostrou-se ofendida com as acusações de motivação maliciosa. "A reação aos fatos revelados nesta semana refletem o estado da política interna do Congresso Nacional Africano", acusou Forde.

O Congresso Nacional Africano, o partido de libertação que no passado foi chefiado por Nelson Mandela, governa este país desde a independência em 1994, obtendo sempre maiorias maciças no parlamento, a instituição de que fato elege o presidente. Com um partido tão poderoso, o seu líder não enfrenta a mesma pressão eleitoral para ser propagandeado para as massas e ser aberto ao escrutínio rigoroso da imprensa, conforme ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos.

No fim das contas, pode não importar muito se Motlanthe tem qualquer pecado genuíno a revelar. Ele é simplesmente um presidente interino, que assumiu o poder em setembro do ano passado, quando o partido exigiu que Thabo Mbeki renunciasse. Após as eleições marcadas para daqui a alguns meses, o homem que deverá assumir o cargo mais alto do país é o líder do Congresso Nacional Africano, Jacob Zuma. E se os casos amorosos de Motlanthe parecem notáveis, os de Zuma poderiam ser considerados hiperativos.

"Eu aceito, eu aceito, eu aceito", foi a forma como uma manchete recente resumiu as suas predileções maritais. Zuma, um zulu que pratica a poligamia, que é legal na África do Sul, estava na época casando-se pela quinta vez, um ano após ter se casado com a noiva número quatro, e em meio a boatos de que estaria pensando em elevar uma namorada à condição de esposa número seis.

Zuma, 66, considera a sua vida familiar uma questão rigorosamente privada, assim como Motlanthe, e recusa-se a discutir os seus casamentos ou a revelar quantos filhos tem.

O secretismo dele não parece ser motivado por qualquer sentimento de vergonha quanto à vida familiar tão cheia de personagens. Ao contrário, o pouco que ele fala sobre a questão revela um grande orgulho. Certa vez, em uma entrevista na televisão, ele disse: "Há vários políticos que têm amantes e filhos, e que escondem isso e fingem que são monógamos. Eu prefiro ser transparente. Amo as minhas mulheres e sinto orgulho dos meus filhos".

Ele deu a entender que teria muito a falar ao povo sobre a sua família, mas frisou, conforme faz frequentemente, que não faz comentários porque esse assunto não é da conta de mais ninguém.

Tradução: UOL

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