UOL Notícias Internacional
 

31/01/2009

Onde as autoridades veem fraude, os colombianos enxergam um herói popular

The New York Times
Simon Romero
Em Bogotá (Colômbia)
Em meio à elite daqui, David Murcia Guzman é muitas vezes chamado de o Madoff da Colômbia, em uma alusão a Bernard L. Madoff, o financista de Nova York acusado de criar uma fraude no setor de investimentos no valor de US$ 50 bilhões. Mas, para alguns indivíduos das classes mais baixas de um dos países de maior desigualdade social da América Latina, ele é um herói popular, e a sua recente prisão pelo governo é apenas mais um exemplo de como os ricos fazem tudo o que podem para colocar o pobre no seu devido lugar.

Sob certos aspectos, a ascensão e queda de Murcia, que foi criado nas favelas de Bogotá e que abriu caminho até fazer parte da elite da Colômbia, pode ser ainda mais excepcional do que a historia de Madoff. Atualmente, Murcia reflete sobre os acontecimentos que o fizeram parar em uma cela em La Picota, uma prisão situada em meio a favelas na zona sul desta cidade.

Aos 28 anos de idade, Murcia foi acusado de criar uma empresa no Panamá, cheia de tentáculos, que lavava dinheiro e que atraiu milhares de colombianos para um esquema de pirâmide conhecido pelas suas próprias iniciais, DMG.

Tais acusações são bastante comuns nesses tempos de fraudes financeiras internacionais desconcertantes. Mas talvez só na Colômbia, com a sua história de marginais carismáticos que irritam o status quo conservador, Murcia poderia emergir não como um vilão do tipo Madoff, mas como um herói popular dono de uma legião de seguidores das regiões de plantio de coca.

Murcia deleita-se com esta transformação em ídolo anti-establishment. "O meu único erro foi ter ousado sonhar", diz ele em uma sinuosa entrevista concedida em La Picota sob os olhares de três guardas armados com metralhadoras. "O que há de criminoso com sonhar?". Há apenas dois meses, Murcia jantava e tomava vinho com governadores de províncias. Ele voou para várias cidades no seu jato particular. Quem visitava a casa dele no Panamá maravilhava-se com a frota de carros exóticos, incluindo uma Ferrari, uma Maserati e um Lamborghini.

Mas tudo desmoronou quando a crise financeira e econômica global atingiu os mercados. Vários esquemas de pirâmide na Colômbia ruíram em novembro. As autoridades acabaram com a DMG enquanto a polícia panamenha prendia Murcia. Ele foi rapidamente extraditado para a Colômbia, onde um barbeiro da penitenciária o aguardava em La Picota para cortar-lhe o rabo-de-cavalo que era a sua marca registrada.

Mas houve uma reviravolta nesta história que lembra a fábula de Ícaro: muitos pessoas que fizeram pequenos investimentos na DMG viram Murcia não como um vigarista, mas como um salvador, e protestaram contra a prisão dele em cerca de dez cidades. Elas alegam que a intervenção do governo na DMG, e não a natureza das atividades da empresa, provocou a perda dos seus investimentos. Uma greve de fome feita pelos seus admiradores mais ferrenhos, que desejam a libertação de Murcia e a reabertura da DMG, estende-se pelo mês de janeiro no centro colonial de Bogotá.

"David Murcia só estava tentando redistribuir um pouco a riqueza na Colômbia", afirma Norberto Escobar, 47, um investidor da DMG de poucos recursos, de Putumayo, a província dedicada ao plantio da coca no sul do país, onde os esquemas de investimentos de Murcia ganharam ímpeto pela primeira vez, há cerca de quatro anos.

"Ele era simplesmente uma ameaça muito grande ao sistema", diz Escobar, que foi entrevistado juntamente com outros que fazem a greve de fome para exigir a libertação de Murcia. Para um visitante, eles cantam: "Crea em Dios y em David Murcia" ("Creia em Deus e em David Murcia").

A mistura de indignação popular e escândalo que seguiu-se à captura de Murcia abalou a Colômbia. Surgiram alegações de que a DMG tentou obter favores de aliados do presidente Alvaro Uribe no congresso colombiano. Outros disseram que as autoridades tomaram medidas contra Murcia porque o poder dele competia com o das famílias tradicionais de banqueiros do país.

Tudo isso abriu uma rara janela de dissenso, em uma sociedade desgastada pela guerra, contra um presidente cujo sucesso no combate aos rebeldes esquerdistas o protegeu de escândalos anteriores. Um plano dos apoiadores de Uribe para permitir que ele disputasse um novo mandato fracassou, quando o colapso da DMG fez aquilo que nenhuma crise havia feito antes: abalar Uribe, o presidente mais poderoso da história recente da Colômbia.

"Desde Pablo Escobar, que agiu como um filantropista e conquistou o apoio popular, a Colômbia não via uma figura tão enigmática e polêmica como David Murcia Guzman", disse a respeitada revista colombiana "Semana".

Tudo isso parece um pouco demais para um homem que ainda não tem 30 anos, e que com a sua barbicha e as camisas de gola tartaruga lembra mais um estrangeiro que mora no bairro novaiorquino de Lower East Side Manhattan do que um instigador de um movimento anti-establishment naquele que talvez seja o país sul-americano mais obcecado com o establishment.

Na entrevista, ele descreveu uma infância marcada por extrema pobreza e pela morte prematura do pai, um vigia de propriedades de famílias ricas. Ele conta que antes de entrar na adolescência começou a trabalhar limpando assoalhos de restaurantes e vendendo bolos de uma empresa de confeitaria.

Quando abandonou a escola de segundo grau, ele desejava conquistar fama como ator. Murcia jamais conseguiu realizar esse sonho, mas a sua capacidade de atrair a atenção das pessoas seria útil mais tarde. Ele tentou vários empregos diferentes, filmando casamentos e recrutando atores para propagandas comerciais.

Murcia diz que ficou tão obcecado pelo seu trabalho que chegou a prejudicar a sua vida pessoal.

Ele conta que quando se separou da mulher há vários anos, pensou em suicidar-se quando estava no alto da cachoeira de Tolima, na região central da Colômbia. "Mas, quando fechei os olhos e pedi perdão a Deus, comecei a apreciar a minha vida, mais do que o dinheiro e mais do que empresas", conta Murcia.

Pelo menos é esta a versão de Murcia. Após a sua epifania, ele vagou por uma Colômbia em guerra, e foi parar em uma pensão barata na região produtora de coca no sul do país. Enquanto estava lá, ele devorou as biografias de Donald Trump e Warren Buffett, e conheceu a história de um bilionário do Estado do Arizona chamado Rex Maughan.

Maughan, um mórmon nascido no Estado de Idaho, fundou a Forever Living Products, uma companhia que comercializa produtos de beleza e saúde, e que foi uma das primeiras a propalar as virtudes do aloe vera.

Murcia conta que em breve estava batendo de porta em porta em pequenas cidades para vender produtos da companhia de Maughan. Ele conta que ficou fascinado pela habilidade de Maughan para aglutinar uma ampla gama de produtos em uma só marca, e para convencer uma multidão de vendedores independentes de que poderiam enriquecer vendendo tais produtos.

"Logo percebi que desejava a minha própria marca", diz Murcia. "E que essa marca poderia se basear em mim mesmo".

Com a DMG, ele criou um modelo de negócio que consistia na venda de cartões de débito pré-pagos a clientes que eram também os vendedores. Eles poderiam usar os cartões para comprar produtos, como aparelhos eletrônicos, ou acumular pontos em diferentes cartões para trocá-los por dinheiro em alguns meses - contanto que recrutassem novos vendedores que também comprariam os cartões.

Segundo os promotores, era aí que residia o problema. Uma rede de vendas transforma-se em uma pirâmide, ou esquema Ponzi, se ela baseia-se unicamente em atrair novas vítimas, cujos investimentos são usados para pagar investidores anteriores.

Os investigadores colombianos dizem que o esquema também se beneficiou de uma ampla economia subterrânea baseada no tráfico de cocaína, criando uma nova forma de se lavar dinheiro através da DMG e das dezenas de companhias a ela vinculadas, que foram criadas por Murcia e por sócios do Brasil e da Belarus baseados no Panamá.

Os promotores veem em Murcia uma manifestação da ilegalidade que se permitiu que prosperasse em áreas da Colômbia nas quais exércitos particulares detêm bem mais poder do que os burocratas de Bogotá. Mas as teorias a respeito do que tornou esse empreendimento possível têm deixado de fora algo de crucial na história de Murcia: a força da sua personalidade.

Até mesmo agora, quando se acostuma a uma nova identidade de líder popular encarcerado, ele afirma veementemente ser inocente, insistindo que estava simplesmente construindo uma marca - em torno de si, é claro. "O que me mantém ativo e cheio de energia são as pessoas que desejam a minha liberdade", diz ele quando os guardas encerram a entrevista.

Tradução: UOL

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