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01/02/2009

"Bebês do crack": uma epidemia que não aconteceu

The New York Times
Susan Okie
Em Baltimore (EUA)
Uma irmã tem 14 anos; a outra nove. Elas são uma dupla vibrante: a menina mais velha tem muita energia, mas é responsável. Ela é uma aluna aplicada e ajuda com as tarefas domésticas. A irmã dela adora ler e assistir a programas de culinária. E recentemente ela ficou bem acima da média nas provas municipais padronizadas.

Não haveria nada de notável a respeito dessas duas garotas felizes e normais se não fosse pela história da mãe delas. Yvette H., 38, admite ter usado cocaína (bem como heroína e álcool) quando estava grávida das meninas. "Uma toxicômana não se preocupa de fato com o bebê que leva na barriga", diz ela com a voz carregada de remorso.

Quando o uso de cocaína na forma de crack transformou-se em uma epidemia nacional nas décadas de 1980 e 1990, houve temores generalizados de que a exposição pré-natal à droga produzisse uma geração de crianças com problemas graves. Os jornais trouxeram manchetes como "Cocaína: Um Ataque Agressivo Contra uma Criança", "O Preço Pago Pelos Bebês Devido ao Crack: Um Panorama Triste" e "Estudos: Futuro Sombrio para os Bebês do Crack".

Mas agora os pesquisadores estão acompanhando sistematicamente crianças que foram expostas à cocaína antes do nascimento, e as suas descobertas sugerem que as histórias encorajadoras das filhas de Yvette H. estão longe de ser incomuns. Segundo os cientistas, até o momento os efeitos de longo prazo de tal exposição sobre o desenvolvimento do cérebro e do comportamento da criança parecem ser relativamente pequenos.

"Existem diferenças? Sim", diz Barry M. Lester, professor de psiquiatria da Universidade Brown, que dirige o Estudo de Estilo de Vida Materno, uma pesquisa de grande porte sobre crianças expostas à cocaína no útero financiada pelo governo federal. "Essas diferenças são persistentes e foram positivamente identificadas? Sim. E elas são grandes? Não".

Não há dúvida de que a cocaína é ruim para o feto. Mas os especialistas dizem que os efeitos desta droga são menos graves do que os do álcool, sendo comparáveis aos do tabaco - duas substâncias legais que são usadas com muito mais frequência por mulheres grávidas, apesar das advertências quanto aos problemas de saúde.

Pesquisas realizadas pelo Departamento de Saúde e Serviços Sociais em 2006 e 2007 revelaram que 5,2% das mulheres grávidas relataram que usavam alguma droga ilícita, enquanto 11,6% disseram usar álcool e 16,4% tabaco.

"Ninguém está argumentando que não há problema em usar cocaína durante a gravidez, da mesma forma que ninguém diz que mulheres grávidas podem fumar sem problemas", diz Deborah A. Frank, pediatra da Universidade de Boston. "Nenhuma droga faz bem a ninguém".

Mas Frank diz que o uso da cocaína durante a gravidez foi tratado como questão moral, e não como problema de saúde. As mulheres grávidas que usam drogas ilegais perdem com frequência a custódia dos filhos, e durante a década de 1990 muitas foram processadas e presas.

A cocaína retarda o crescimento fetal, e os bebês expostos à droga tendem a nascer menores, tanto em comprimento do corpo quanto em diâmetro da cabeça, do que os que não foram expostos. Mas, à medida que essas crianças crescem, o tamanho do cérebro e do corpo alcança o tamanho normal.

Em uma conferência científica em novembro do ano passado, Lester apresentou uma análise de uma série de estudos de 14 grupos de crianças expostas à cocaína - 4.419 ao todo, com idades que variavam de quatro a 13 anos. A análise não revelou um efeito estatisticamente significativo sobre o QI ou o desenvolvimento da linguagem. No estudo de maior amplitude, o QI das crianças expostas à droga era aos sete anos de idade, em média quatro pontos menor do que o das crianças que não foram expostas.

Em testes que medem funções cerebrais específicas, há evidências de que as crianças expostas à cocaína têm maior probabilidade do que as outras de apresentar dificuldades com tarefas que exigem atenção visual e "função executiva" - a capacidade do cérebro de estabelecer prioridades e prestar atenção seletiva, capacitando a criança a concentrar-se na tarefa do momento.

A exposição à cocaína pode também elevar a frequência de comportamento desafiador e má conduta, segundo a análise de Lester. Existe também certas indicações de que os garotos são mais vulneráveis do que as garotas aos problemas comportamentais.

Mas os especialistas dizem que essas descobertas são muito sutis e é difícil generalizá-las. "Apenas porque isso é estatisticamente significante não significa que seja um grande impacto na área de saúde pública", afirma Harolyn M. Belcher, pediatra especializado em neurodesenvolvimento e diretor de pesquisa do Centro de Família do Instituto Kennedy Krieger, em Baltimore.

Michael Lewis, professor de pediatria e psiquiatria da Escola de Medicina Robert Wood Johnson, em New Brunswick, no Estado de Nova Jersey, diz que em um consultório médico ou sala de aula "não dá para descobrir" quais crianças foram expostas à cocaína antes do nascimento.

Ele acrescenta que é bem mais provável que fatores como pais negligentes, pobreza e estresse devido à exposição à violência prejudiquem o desenvolvimento intelectual e emocional da criança. Por outro lado, crescer em um ambiente familiar estável, com pais que não façam uso abusivo de álcool ou drogas, pode ajudar muito a reduzir quaisquer efeitos negativos da exposição pré-natal às drogas.

A posse de crack, a forma de cocaína que era mais vendida nos centros de cidades, especialmente nos bairros negros, é punida há muito tempo com penas mais duras do que a posse de cocaína em pó, embora ambas as formas da droga sejam metabolizadas de forma idêntica pelo corpo e tenham os mesmos efeitos farmacológicos.

Frank, a pediatra de Boston, diz que as crianças expostas à cocaína são com frequência estigmatizadas ou tornam-se alvo de zombarias caso outros saibam do problema. Quando elas desenvolvem sintomas físicos ou problemas comportamentais, médicos e professores às vezes apressam-se em afirmar que o motivo é a exposição à droga, e não identificam a causa real, como doença ou abusos.

"As expectativas da sociedade em relação às crianças, bem como a reação às mães, são completamente norteadas pelo significado social, e não pela toxidade da droga", diz ela.

As pesquisas sobre os efeitos das drogas ilegais sobre a saúde das crianças, especialmente das que ainda encontram-se no útero da mãe, são carregadas de tonalidades políticas. Os pesquisadores que estudam as crianças expostas à cocaína dizem que se esforçam para interpretar as suas descobertas para a população sem exagerar o significado delas - e também sem minimizá-los.

Lester, o líder do Estudo do Estilo de Vida Materno, observa que as indicações de problemas comportamentais tornam-se mais fortes à medida que as crianças observadas no estudo dele e de outras pesquisas aproximam-se da adolescência. Ele diz que os pesquisadores envolvidos no estudo estão coletando dados sobre adolescentes de 14 anos, e acrescenta: "Sem dúvida alguma precisamos continuar acompanhando essas crianças. Para o nosso estudo, o que mais interessa é determinar se a exposição pré-natal à cocaína predispõe ou não o indivíduo a fazer uso de drogas no início da adolescência ou a padecer de outros problemas relacionados à saúde mental".

Os pesquisadores teorizam há muito tempo que a exposição pré-natal a uma droga pode fazer com que seja mais provável que a criança torne-se usuária da substância. Mas, até o momento, tal vínculo só foi cientificamente determinado no caso da exposição ao tabaco.

Determinar os efeitos da exposição à cocaína é complicado porque todas as mulheres que fizeram parte do estudo, como Yvette H., e que usaram cocaína durante a gravidez, usaram também outras drogas.

Além do mais, a maioria das crianças acompanhadas durante o estudo é pobre, e muitas apresentam outros fatores de risco capazes de afetar o desenvolvimento cognitivo e o comportamento - assistência de saúde inadequada, escolas de má qualidade, situação familiar instável e exposição a doses elevadas de chumbo. Lester diz que o estudo teve uma amplitude suficiente para levar tais fatores em consideração.

Yvette H, que concordou em ser entrevistada contanto que o seu sobrenome e o das suas filhas não fosse revelado, disse que ingressou há seis anos em um programa de tratamento da dependência de drogas e álcool, após ter perdido a custódia das filhas.

Uma outra filha, nascida depois que Yvette H. recuperou-se da dependência do álcool e das drogas, não apresenta problema aos três anos de idade. O filho mais velho, um adolescente de 17 anos, é o único que apresenta problemas de desenvolvimento: ele é autista. Mas Yvette H. diz que não usou cocaína, álcool ou outras substâncias quando estava grávida dele.

Após 15 meses sem usar drogas ou álcool, Yvette H. recuperou a custódia das filhas e mudou-se para a Dayspring House, um programa residencial em Baltimore para mulheres que se recuperam de dependência de drogas.

Lá ela recebeu aconselhamento psicológico, aulas sobre como cuidar dos filhos, treinamento profissional e orientação sobre como administrar as suas finanças. A filha mais nova participa do programa federal de assistência a crianças Head Start, e as mais velhas frequentam escolas locais, e foram incumbidas de realizar tarefas domésticas. Além disso, a família aprendeu a conversar sobre os seus problemas.

Yvette H. trabalha em uma mercearia local. Ela pagou as suas dívidas, tem a própria casa e está participando da educação e do programa de saúde das filhas. Yvette diz que demorou bastante até que reconquistasse a confiança das filhas. "É algo com o qual a gente precisa trabalhar constantemente", afirma ela.

A história de uma criança: "Para mim, ele é um milagre"
Nem toda criança exposta à cocaína no útero cresce sem problemas. Cornell Wright, nascido prematuro 12 semanas antes da data normal, e filho de uma mulher que usou álcool e cocaína durante a gravidez, passou os primeiros cinco meses em um hospital, sofrendo complicações como uma hemorragia cerebral, infecção por hepatite B e déficit pulmonar.

A sua mãe adotiva, Sarah Wright, de Glendale, no Estado de Maryland, diz que quando o levou para casa, os médicos lhe disseram que ele poderia ser cego, que talvez nunca andasse e que poderia até morrer.

"Cornell não fazia absolutamente nada, nem sequer sorria", recorda Wright. "Ele simplesmente ficava deitado como se fosse um pedaço de papel em branco".

Atualmente com 14 anos de idade, Cornell tem um retardamento mental moderado e apresenta desordem de déficit de atenção, bem como problemas comportamentais. No caso dele, assim como no de muitas crianças na mesma condição, as causas específicas dos problemas são desconhecidas. "É plausível e provável que a exposição intrauterina ao álcool e à cocaína tenham muito a ver com o que estamos vendo", diz Harolyn M. Belcher, que trabalha com Cornell e outras crianças daqui.

Wright recorreu a todos os serviços médicos e sociais que pôde encontrar. Ela encontrou terapia ocupacional, linguística e física, e matriculou Cornell em um programa para bebês e crianças pequenas financiado pelo Estado, e também em uma creche terapêutica. Ele finalmente aprendeu a nadar aos 17 meses e comeu o seu primeiro alimento sólido aos dois anos de idade.

Cornell começou a frequentar aulas em um programa de educação especial em uma escola primária local, mas não foi capaz de acompanhar as tarefas escolares e ficou deprimido quando outras crianças zombaram dele. Wright conseguiu que ele fosse transferido, quando estava na segunda série, para uma escola especial no Instituto Kennedy Krieger, onde Belcher, uma pediatra especializada em neurodesenvolvimento, é diretora de pesquisa.

Desde então, Cornell prosperou. Atualmente no primeiro ano do segundo grau, ele toca bateria, participa de um programa dos Jovens Fuzileiros e recentemente entrou para a equipe de basquete da escola. Ele está fazendo aulas de artesanato com madeira, horticultura e vendas, e deseja ser mecânico.

"Ele é o meu filho que nunca fica doente", diz Wright. "Cornell come tudo que está no prato".

Baseada no que vê, Belcher diz: "Ele está se sentindo bem em relação a si próprio".

Wright concorda. "Cornell é um garoto de muito sucesso", diz ela. "Alguém pode olhar para ele e pensar, 'Ele tem 14 anos é não é capaz de fazer isso ou aquilo', mas isso quando não conhece a história de Cornell. Para mim, ele é um milagre".

Tradução: UOL

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